Autor: Eberth Vêncio

O coração não é o epicentro do amor

O coração não é o epicentro do amor

Não pares de escrever, Guilherme. Ao contrário do que se diz por aí, o coração não é o epicentro do amor. São os pensamentos. E nem todos eles, sãos, se bem me entendes. A mente humana opera, todo santo dia, a favor ou contra a integridade do planeta.

Enterrando histórias na vala comum da indiferença

Enterrando histórias na vala comum da indiferença

Havia uma frieza generalizada naqueles dias, uma espécie de pandemia de indiferença que levava muitos corações velhos a definharem dentro dos peitos, até interromperem as suas inatas missões de pulsar e pulsar e pulsar. As mortes provocavam, não apenas, empáfia e mau humor nos mandatários máximos da nação, como, também, tribulação dobrada para os órgãos governamentais competentes.

Mãe, não se esqueça de mim, pois eu nunca vou lhe esquecer

Mãe, não se esqueça de mim, pois eu nunca vou lhe esquecer

É o segundo domingo de maio. A maior parte das famílias reúne-se nesse dia, põe comida na mesa e comemora o Dia das Mães. Rosas nas mãos. Faca entre os dentes. Fazer o quê? Tem dessas coisas. Família, você sabe, é um mal necessário, e elas são todas iguais. Eu gostaria de aproveitar o ensejo pra lhe fazer algumas recomendações que julgo importantíssimas pra sua saúde e pra minha paz de espírito, se é que eu ainda possua algum.

O dia em que encontrei Moraes Moreira

O dia em que encontrei Moraes Moreira

Eu sequer imaginava que o Moraes morasse no Rio. Fiquei na sua cola. Exigências sanitárias não permitiam aos clientes tomar o café da manhã dentro do estabelecimento. Uma vez na calçada, com a intrepidez de um selvagem, acelerei o passo e perguntei “Desculpe. O senhor é o Moraes Moreira, certo?”. Ele assentiu com a cabeça, demonstrando pouca empolgação com a minha abordagem, tão cedo no dia.

Quando o coração se transforma num gabinete de ódio

Quando o coração se transforma num gabinete de ódio

Há idosos demais atravancando as reformas que o país não pode mais prescindir. Como eu já disse, nasci por engano e sem um anjo torto para aporrinhar. Fui criado como gado, à larga, pastando no vale do silício da ignorância. Sinto um orgulho danado da minha estupidez. Não se fica reacionário da noite para o dia.

As pestes têm predileção pelos energúmenos

As pestes têm predileção pelos energúmenos

São tempos impensáveis até mesmo para um Gabriel García Márquez. Embora seja uma peste inédita, parece claro à comunidade científica que a taxa de letalidade da doença, que consiste no poder de fogo do micróbio para dizimar vidas, é insignificante. Logo, não cessa de crescer o contingente de convalescentes insanos e salvos.

Sexo na quarentena: a vizinha do 69

Sexo na quarentena: a vizinha do 69

Passava o tempo lendo Bukowski, embriagando-me com Cuspe Sour. A inspiração para escrever tinha minguado. O ócio me amassava. Estava torrando as últimas economias de forma perdulária, contratando os préstimos de uma dona estonteante que cobrava cinco pilas por minuto para fazer sexo virtual com os clientes. Escutei barulho de chave rodando dentro da fechadura.

Sexo na quarentena

Sexo na quarentena

As crianças nunca dormem, têm uma energia irritante. “Eu chego a achar Herodes natural.” Nunca pensei que fosse ler poesia novamente, ainda mais, Vinicius de Moraes. Olho para baixo e enxergo toquinho, o meu velho e surrado camarada. Se o isolamento domiciliar obrigatório não terminar logo, é bem provável que precisarei de uma lupa e de uma pinça de sobrancelhas para urinar.

Favor, não mergulhar no esgoto

Favor, não mergulhar no esgoto

Chegou a hora dos bilionários garantirem lugar no céu. Proponho que desapeguem, que retirem os escorpiões dos bolsos e façam doações vultosas ao governo. Se não o fizerem por livre e espontânea vontade, que o fisco, com a permissão do Congresso Nacional, lhes arranque o couro taxando fortemente as fortunas.

Não temos tempo de temer a morte, mas, por ora, vamos respeitá-la

Não temos tempo de temer a morte, mas, por ora, vamos respeitá-la

Exercitem os neurônios. Tirem os sapatos. Sentem no assoalho. Pratiquem jardinagem. Falem com as plantas. Desliguem um pouco a droga do telefone celular. Vejam sob uma nova ótica. Encantem-se com os filhos brincando pela casa, se tiverem filhos, se tiverem casas. Eles estão crescendo rápido demais e, vai chegar o dia em que vão dar o fora. Normal. Nada de novo no front. A vida é assim mesmo.