A impressionante história da morte de Euclides da Cunha

A impressionante história da morte de Euclides da Cunha

Euclides da Cunha fora deixado entrar na casa de Dilermando de Assis pelo aspirante da Marinha Dinorah de Assis, irmão mais moço do amante de Saninha. Inteiramente dominado por desvario — “Vim para matar ou morrer” —, revólver em punho, Euclides está defronte a Dilermando, no quarto deste. “O que é isto, doutor?”, o cadete pergunta assustadíssimo. “Corja de bandidos!” — é a resposta-exclamação do escritor. E atira contra Dilermando, “quase à queima roupa”. Ferido e despossuidor de arma naquele momento, o cadete tenta tomar a arma do agressor, avançando com a mão esquerda. Euclides recua e o agredido só consegue agarrar a manga do seu casaco. Recebe um seguro tiro e cai, atingido no peito e a sofrer dores horríveis, estonteado completamente. Dinorah, vendo o irmão ferido e caído, procura agarrar-se a Euclides e desarmá-lo. O escritor atira também contra ele. Dinorah, sem arma alguma, corre em direção ao seu quarto. Euclides acerta-lhe um tiro na coluna vertebral. No momento, Dinorah não sente consequências desse tiro. Nem mesmo por algum tempo. Tanto que daí a uma semana ainda participa de uma partida de futebol pelo seu clube, o Botafogo de Futebol e Regatas, pelo qual ainda vem a se sagrar campeão daí a poucos meses. Mas algum tempo depois começa a sentir hemiplegia. A lesão o inutiliza. Angustia-se. Entra em depressão profunda, suicida-se aos 32 anos, saltando no mar. Sobre esse fato, Dilermando irá registrar em famosa entrevista ao escritor Francisco de Assis Barbosa, publicada pela revista “Diretrizes” em 1941: “Vendo-me em perigo, tenta desarmar Euclides, que dispara contra meu irmão. Desarmado, este corre pelo corredor e ao aproximar-se da porta do seu quarto, Euclides acerta-lhe um disparo na coluna vertebral, inutilizando meu desventurado irmão pelo resto da sua vida” (Este resto de vida foram 12 anos culminados com o suicídio).

Euclides da Cunha escuta os gritos de Saninha e dos meninos (Sólon e o pequenino Luiz, de 2 anos e alguns meses estão com ela escondidos na despensa). Dilermando, caído, vê Dinorah também prostrado, enxerga Euclides e escuta Saninha e as crianças. Apanha o seu revolver e dá um tiro na direção oposta à que estava Euclides, só para amedrontá-lo, mas dando prova de se achar em condições de reagir. Euclides volta pelo corredor no rumo da sala de visitas mas, para surpresa de Dilermando, retoma o ataque. Outra vez para amedrontar o atacante, o cadete atira novamente contra a parede. Como o escritor continua a disparar, Dilermando tenta desarmá-lo com um tiro no punho. Não acerta direito porque Euclides levantara a mão, para alvejar Dilermando. Erra o alvo mas, mesmo assim, o disparo fere Euclides no pulso, sem lhe derrubar a arma. No início do corredor, junto à sala de visitas, Euclides, encostado à parede, atira contra o desafeto (campeão de tiro do Exército) e este grita para ele:

— Fuja, Dr. Euclides, pois não lhe quero matar!

Euclides não dá ouvidos a Dilermando. Continua a atirar contra ele. Fere-o mais uma vez. Descarregara sua arma. Dilermando fora ferido na virilha, no pulmão, no pulso e numa costela. A necropsia veio a revelar em Euclides ferimentos no flanco direito, no úmero, no pulso e no pulmão, este a causa-mortis.

Dilermando caminha para a sala de visitas e vê Euclides caído, “junto à escada, acionando desesperadamente a tecla do gatilho e a pronunciar palavras confusas:

— Bandidos. Odeio… Honra…”

É indeclinável registrar que as circunstâncias envolventes da morte de Euclides da Cunha não tiveram os honestos registros que a verdade histórica impunha a seus biógrafos. Imposição não apenas para projeção dos fatos em toda a sua nudez e significado — encontram-se todos nos autos do processo penal — que em nada diminuem o valor da obra literária euclideana, nem a honestidade e o idealismo que o caracterizaram, mas também para o reconhecimento da dolorosa injustiça que foi a execração pública sofrida por Dilermando de Assis desde os seus 17 anos de idade até a sua morte ocorrida aos 62 anos. Que ele agiu em legítima defesa ao se defrontar com o dilema “matar ou morrer”, não padece de dúvida alguma, tanto ao se defrontar com Euclides da Cunha, como quando se viu baleado de surpresa pelo filho homônimo do grande escritor na segunda tragédia ocorrida sete anos depois.

Nem mesmo as absolvições de Dilermando de Assis serviram para o mínimo respeito a ele como inocente ou mesmo como ser humano. A imprensa da época foi indigna e desumana. Além das garrafais manchetes “Assassino”, “O monstruoso matador de Euclides da Cunha”, veja-se este tópico com que a “Folha do Dia” de 3 de maio de 1913, dia seguinte ao em que Dilermando comparecia ao segundo julgamento (já havia, portanto, sido absolvido no primeiro) manifestava-se impiedosa e injustamente:

“Mais uma vez, compareceu ontem, à barra do júri, Dilermando de Assis, o assassino de Euclides da Cunha. Mais uma vez ainda ficou adiado esse julgamento reclamado pela voz pública, para satisfação a uma sociedade de um delito monstruoso. A falta de alguns jurados deu motivo a esse adiamento. Lá esteve o réu entretanto — audacioso e cínico, a cuspir os seus olhares de escárnio sobre a multidão que o espreitava como um ser desprezível e asqueroso”.

Essa forma ignóbil, cheia de desumanidade, com que um moço de 21 anos, que fora para o Rio de Janeiro cursar a Escola Militar aos 17 e nessa idade de adolescente, menor púbere, inimputável, se vira arrastado a uma paixão arrebatadora por uma mulher de 30 anos ao conviver com ela, amiga de duas tias dele, na Pensão Monnat, foi deplorável comportamento geral da imprensa. E influiu tanto no voto de vários jurados que, do total de 12 componentes do Conselho de Sentença, apenas a metade deles (naquele tempo eram 12 os jurados e não 7, como o são hoje) votou pela absolvição. A sorte de Dilermando é que o empate, segundo a legislação da época, o beneficiava, era interpretado a favor do réu. Havendo, porém, apelado o Ministério Público, novo julgamento se realizou e, já agora o júri com sete integrantes, o acusado obteve cinco votos favoráveis contra dois. Consumou-se depois a absolvição com julgamento pelo Supremo Tribunal Federal, ao qual havia recorrido novamente a Promotoria de Justiça. Já com relação ao veredicto pelo homicídio em que foi vitimado o filho de Euclides, em 1916, houve Conselho de Guerra (sobre o qual, com esse título — “Conselho de Guerra” — Dilermando escreveu um livro em 1917, hoje vendido em sebo por R$ 5 mil (como visto na Estante Virtual, recentemente). A legítima defesa foi unanimemente reconhecida pela instância superior.

Sob o título “Uma Tragédia de Ésquilo”, Monteiro Lobato (cuja admiração por Euclides da Cunha escritor foi realçada na primeira parte deste ensaio), deixou estas páginas a respeito da morte de Euclides da Cunha:

“Tivemos aqui entre nós, em 1909, um perfeito ´caso de tragédia grega´, isto é, de tragédia caracterizada pela presença invisível da deusa Fatalidade. Os protagonistas — Dilermando, Euclides pai e filho e uma mulher — agiram todos como pedras de xadrez em movimento cego no tabuleiro. As pedras de xadrez movem-se — julgam mover-se, na realidade são movidas de acordo com os planos concebidos pelo jogador e que jamais serão penetrados.

Somos todos pedras de xadrez no tabuleiro da vida. Uns somos peões, outros bispos, outros, torres, outros, cavalos — e rainha e rei. Hitler foi um rei de xadrez. Jogaram com ele uma tremenda partida — e ele sempre a julgar que quem fazia o jogo era ele. E como não ser assim, se ele era “rei”?

Pobres reis humanos, tão impotentes quanto os reis de xadrez — tão instrumentos do Algo Superior que os maneja como reis de xadrez. Pobres peões humanos, tão manejáveis como os peões de xadrez! Alguém brinca no tabuleiro da vida com o teatrinho de títeres que somos. Édipo, Jocasta, Orestes, Dilermando, Euclides…

Euclides era rei, Dilermando, pequenino peão. No tumulto do drama tecido pela fatalidade, o rei enlouqueceu e forçou o peão a matá-lo. Um regicídio! A sociedade sofreu o mais profundo dos abalos porque Euclides não era apenas por direito de nascimento, coisa medíocre: era um grande rei por merecimento, coisa grande. E todas as fulminações choveram sobre a cabeça do peão que teve de matar o rei. E a vida desse peão passou a ser um inenarrável martírio.

Mas, dadas as circunstâncias, que poderia ele fazer senão o que fez? Como agir de outra maneira, se somos títeres e quem dirige a trama é a grande jogadora de xadrez fatalidade, a qual se utiliza de nós como simples peças, nunca se dignando nos revelar os objetivos de suas jogadas?

Para a sociedade não há crime maior que o de peão matar um rei; e pois tal fato só é possível quando a fatalidade guia a mão do regicida.

A mim a tragédia Euclides-Dilermando me abalou profundamente. Sobre ela meditei muito tempo, dominado pela incerteza. Mas quando conheci todos os detalhes do processo, só então vi, senti em tudo a mão glacial e inexorável da fatalidade — a mesma que levou aos seus crimes o inocente Orestes.

E uma coisa até hoje me pergunto: haverá uma só criatura normal das que olham Dilermando com horror, que, dentro do quadro daquelas circunstâncias, não fizesse a mesma coisa? Que atacada por Euclides e o filho, tomados ambos de acessos de demência, não se defendesse, como Dilermando se defendeu?

Se ponho a mão na consciência e me consulto, sou obrigado a confessar que, dentro daquelas circunstâncias, eu — o maior devoto de Euclides — agiria tal qual Dilermando. O animal que há dentro de mim, ferozmente acossado pelo animal existente no atacante, reagiria em pura ação reflexa — e no ímpeto cego da legítima defesa mataria até ao próprio Shakespeare”.

Amigo e admirador de Dilermando de Assis, o jornalista e compositor Orestes Barbosa colocou sua pena, desde os acontecimentos de 1909, em defesa dele. Foi o único da grande imprensa brasileira — militava na do Rio de Janeiro — que não apenas brandiu a tese de legítima defesa nos dois homicídios de Dilermando, como também retratou a sua personalidade de homem de excelente caráter, vítima das adversidades que sobre ele se abateram desde menor púbere. Quando Dilermando escreveu “A Tragédia da Piedade” (Editora O Cruzeiro, 1951, 696 páginas), Orestes foi o prefaciador. Transcrevo alguns tópicos expressivos de como ele depõe sobre Dilermando de Assis:

“Os atos de perseguição praticados contra Dilermando de Assis, nestes quarenta anos que se seguiram ao desaparecimento do autor de ´Os Sertões´, formam uma cordilheira de infâmias cujo ponto culminante é difícil precisar”.

“Se ainda fosse necessário provar a dignidade e a bondade de Dilermando de Assis, só o fato dele permanecer tantos e tantos anos nesse trabalho de revide aos seus acusadores bastaria como documento incontestável dos seus sentimentos de homem de bem e de coração”.

“Nunca houve no Brasil (e penso que nunca houve no mundo) um responsável eventual de delitos legitimados pela Lei, que se perpetuasse assim, durante quase meio século, à testa do seu próprio drama, diligenciando, falando e escrevendo, incessantemente, como que a pedir desculpas ao destino pelos seus dias de tão amarga provação”.

O clima da vida de Dilermando foi este:

“Tiros na espinha, tiros no ventre, tiros nos pulmões, e exames, e cursos, e julgamentos, e mais tiros, e mais cursos, e mais concursos — todo esse tumulto de horrores entre o ulular hidrófobo do banditismo esfaimado dos sedentos de imerecida glória e de dinheiro — uns mentindo a dizer que Euclides repudiava o militarismo (quando a verdade é que ele morreu oficial reformado, com soldo e tudo); outros fazendo da sua auréola literária um bem remunerado meio de vida — todos achando muito louváveis todas essas mentiras e essas terríveis perseguições”.

“Dilermando redimido perante a nacionalidade, que hoje conhece a verdade provada dos fatos — verdade pela qual tanto lutei, quase sozinho, esse tempo todo nas colunas que só eu sei quanto me custaram em desesperos colossais”.

Cem anos passados, a Tragédia da Piedade tem de despertar o maior interesse dos estudiosos, pelo tanto que ela diz respeito à Psicologia, à Sociologia, à Psiquiatria, à História, à Ciência enfim. Todos os seus aspectos envolvem ângulos em que os focos permanentemente desafiadores dos estudos psicológicos, sociológicos, psiquiátricos, históricos, chamam a atenção por sua pungência, por seu significado, por sua expressividade. Vimos, já, o caso de Euclides da Cunha nas suas evidências de morbidez da personalidade a explicar algumas das causas primeiras do drama esquiliano de que o escritor é protagonista central. Às evidências enfocadas pode-se e deve-se acrescentar o laudo da necropsia firmado pelo médico e escritor Afrânio Peixoto em que este, do exame do crânio do autor de “Os Sertões”, concluiu:

“Inspeção interna. A calota resistente. Meninges duras pouco aderentes, apresentando-se bastante desenvolvidas as granulações de Pachioni. Placas leitosas de leptomeningites. Ligeiro edema na imediação das circunvoluções rollândicas. O cérebro, pesando 1.515 gramas, foi retirado para ulteriores investigações. Meninges aderentes à base do crânio”.

Esse laudo foi detida e minuciosamente estudado pelo professor-regente de Medicina Legal e Deontologia Médica da Escola de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro, também médico legista do Instituto Médico-Legal daquela ex-capital da República, o doutor Alves de Menezes. Uma das suas primeiras considerações foi a de que o documento firmado por Afrânio Peixoto apresenta “uma tangível presença emocional interferindo na construção do laudo”. Confrade e muito amigo de Euclides, Afrânio Peixoto se viu diante de uma missão para ele das mais penosas, pois tinha, na expressão de Alves de Menezes, como médico legista, inviscerar o cadáver daquele gigante da literatura nacional”.

O doutor Alves de Menezes, segundo registra Jefferson Ribeiro de Andrade em seu livro sobre Anna de Assis, “em sua análise, considerando que a inquietação emocional do responsável pelo auto de necropsia transparece no texto do laudo, aponta algumas omissões, bem como descrições mutiladas”.

Contudo, diz o professor de Medicina-Legal e Deontologia Médica da Escola de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro, “logrou retratar a trajetória e os danos corporais feitos pelo agente lesivo que fulminou a vítima e descrever, no cérebro desta, o aspecto macroscópico de lesões meningo-encefálicas, às quais alguns eminentes psiquiatras da atualidade — apesar da falta de notícia sobre o exame microscópico da peça e de análise sorológica procedida durante a vida — se obstinam em vinculá-las a uma etiologia luética, considerando a coexistência dessas lesões com a série dos desequilíbrios psicológicos, próprios da fase incipiente da Paralisia Geral, que Euclides vinha apresentando de modo assustador, nos últimos tempos de sua vida.

Refiro-me — ´acrescenta esclarecedoramente Alves de Menezes´ — às alterações estruturais das membranas meníngeas e às placas leitosas de lepromeningite assinaladas no laudo, e que, a se aceitar como válida a etiopatogenia aventada, e não tivesse havido o decesso violento, acabariam por ofuscar, como se fossem manchas solares, todo o esplendor da inteligência estelar de Euclides da Cunha, reservando-lhe um fim terrivelmente melancólico: o da abolição global de todas as funções intelectuais. Numa sentença trágica: a demência. Tal como sucedeu a Nietzsche, vítima dessa doença e seu êmulo em genialidade”.

Há também na coleção do “Suplemento Cultural da Revista Paulista de Medicina”, no seu número 14, significativo trabalho do médico Walter P. Guerra, em que diagnostica grave patologia mental de Euclides da Cunha, à luz do laudo de Afrânio Peixoto e de comportamentos conhecidos e inegáveis do escritor:

“Com a devida vênia, invadindo seara alheia, pertencente aos psiquiatras e neurologistas, recordemos os principais sintomas psíquicos da neuro-lues. O indivíduo apresenta manifestações delirantes ocasionais e Euclides procedia, por vezes, como se fora um louco. Era possuído de momentos de cólera, seguidos, instantes depois, de estranha placidez”.

“Recordando a vida de Euclides, vamos encontrar inúmeras oportunidades em que se deixou dominar pela cólera”.

“A diminuição ou perda da afetividade é outro componente analisado pelos autores médicos, tal como acontece aos esquizofrênicos. Estes perdem a afetividade para com os familiares, transferindo-a a estranhos. Quantos conhecem Euclides da Cunha, sabem que, sob este aspecto, não foi o chefe de família desejável. Chegou mesmo a receber admoestações de seu pai, nesse particular”.

“Não era o homem do lar e muito menos o chefe de família ideal, no convívio com os seus”.

“O delírio persecutório é outra característica da maligna espiroquetose, onde, ao lado de alucinações auditivas (a que não há referência), foi vítima de alucinações visuais. Tanto em São José do Rio Pardo, como em Manaus, em seu retorno do Alto Purus”.

“Resta, assim, a hipótese de lues inata, ou forma retraída de meningite tuberculosa. Em favor da suspeita de meningite luética, existe a menção no laudo de que aquelas membranas ´estavam aderentes à base do crânio´. Recorde-se de que a meningite sifilítica demonstra essa característica: meningite de base. Donde se conclui que a grande incógnita e os desencontros que apresentou a vida de Euclides, e que o perseguiram até à morte, persistem. Acham-se à espera, tal como a Esfinge, de que um novo Édipo venha desvendá-la”.

Por derradeiro, este significativo depoimento daquela que foi a mulher de Euclides, Anna de Assis:

“Eu não podia continuar com Euclides. Admirava Euclides, o escritor. O homem, o meu marido, estava enlouquecendo. Eu o temia. Dia a dia, principalmente depois da morte do meu filho Mauro. Por isto, tentei fugir, mesmo sacrificando o meu amor por Dilermando. Inesperadamente, aconteceu a tragédia”.