Balalaica do fim do mundo Foto: Frederic Legrand / Shutterstock

Balalaica do fim do mundo

A liberdade de expressão conta com o amparo de um sólido repertório; além de lastros e imperativos inegociáveis, os mais manjados são a lei e a soberania das individualidades. As blasfêmias, não. Muito embora ambas tenham sido paridas — palpite — do mesmíssimo ventre: irmãs siamesas e filhas da discórdia. O fato é que em “tempos de paz” trabalhamos dia e noite para essas duas senhoras: durante o dia luminosa e radiante liberdade de expressão e, de noite, amaldiçoada e dissimulada prostituta, aquela que ousa dizer seu nome no contrapé, a blasfêmia.

Como usuários de ambas, cultivamos a equidade. Daí que é prudente não se falar em cegueira e fanatismo da nossa parte — somos civilizados. Civilização essa que têm duas características bem peculiares: não admite a existência da barbárie, e repudia o espelho.

Não sei por que, mas o linchamento e a sangria infligidos contra o garoto mezzo pazzo do Flow podcast, me fez lembrar de um programa muito antigo da Ana Maria Braga, coisa de dez ou quinze anos passados. Ela entrevistava um major do Bope. À época, o homem, atirador de elite, virou herói nacional ao espatifar os miolos de um sequestrador.

Um doce de criatura, esse major. Ensinou o falecido Louro José a esquentar mamadeiras. Não me lembro de um momento mais quentinho e familiar na extinta televisão brasileira — acho que nem a Hebe Camargo fazendo campanha para o Maluf conseguiu ser tão fofa.

A pergunta é: até quando vamos conseguir esquentar nossas mamadeiras em paz?

O problema é que têm uns animais por aí que não sabem se divertir, e acabam estragando a brincadeira dos outros. Esses estraga-prazeres tem a mania de ir até as últimas consequências daquilo que eles chamam de sagrado e que, nosotros, chamamos liberdade de mamar, digo, de expressão. Nesse ponto, quando a “civilização” se encontra com a “barbárie” (a ordem dos fatores e das aspas não altera o produto) o leite ferve, e transborda.

Aí a liberdade de expressão vira liberdade de explosão — e não resta outra alternativa senão chorar pelo leite derramado. Sempre bom lembrar da desgraça que aconteceu no “Charlie Hebdo”. Falando nisso, não só recomendo os livros de Michel Houellebecq, principalmente “Submissão”, como desejo vida longa para o autor — ele representa o pouco do que sobrou do sangue nos olhos e da inteligência ocidental, o resto é bom-mocismo e bundinha empinada (leia-se multiculturalismo, identitarismo e afins); o que eu quero dizer, enfim, é que a já combalida e doentia civilização judaico-cristã ocidental optou pela negação de si mesma, e suicidou-se alegremente. E, nos escombros da própria truculência, erigiu um parquinho temático de autoflagelamento, devaneios e fofíssimas intenções, vale dizer, a saudosa e doentia cultura ocidental está de quatro e, se não reagir com a antiga e habitual truculência, vai ser devorada por Vladimir Putin e pelos chineses. A conferir.

Diferentemente de nosotros, que apenas latimos, existem animais que não fazem nenhuma questão de ninar, desenhar, brincar e/ou tergiversar com seus ímpetos homicidas.

A diferença da barbárie para a civilização é essa: nós, civilizados, aprendemos a administrar e disfarçar o monstro, e assim nos distraímos do nosso reflexo hediondo diante do espelho/ou vala comum: que também atende pelo nome de humanidade, enquanto a barbárie dispensa tais protocolos e rapapés, ela é o nosso reflexo sem frescuras, ela é homicida e desumana, ela é o que é, igualzinha a gente.

Exemplos. Monja Coen, aparentemente, demonstra ser uma pessoa bacana, da mesma forma que me sinto um cara legal porque preservo a natureza, acredito em sacis e vibro com miolos espatifados no programa da Ana Maria Braga. Tem viciado em crack que apoia incondicionalmente a lei antifumo e faz donativos para viúvas de policiais militares mortos em combate. Viram? A civilidade pode ser algo tão fútil como os sentimentos de equidade, justiça, fraternidade… extermínio ou vingança.

Eis que chegamos ao velho e bom Raulzito. Ouro de Tolo: “você acredita que é doutor, padre ou policial”. Impossível ser civilizado e não se autoenganar. Ou você finge, ou explode.

Eu resolvi me desobrigar, trata-se de uma categoria de sobrevivência situada em algum ponto entre o fingimento e a explosão. Já escrevi isso mais de uma vez: melhor ser enganado por mim mesmo do que pela moral dos vegetarianos ou pelos truques dos Fu-Manchus do STF.

Nos dias que correm, aliás, ninguém mais detém o monopólio da mentira. Portanto, Bonner, fique à vontade para estrilar em horário nobre que o choro é livre e democrático.

E a verdade, tadinha, a verdade não serve nem mais como pretexto, ou seja, ninguém é obrigado a engolir a mentira alheia sob o risco de não fazer valer a própria dissimulação, aceita-se e generaliza-se a fraude e ponto final. Aceita-se, entre outras brutalidades, a esfiha de frango, a volúpia dos agiotas e a pizza com borda recheada de catupiry. Aceitamos e adotamos como oráculos os trastes saídos do You Tube e do Big Brother, bem como as execuções sumárias, e o cu da Anitta. Amamentamos cadáveres.

Em sendo assim, diante dos paradoxos e do aleijão da convivência social, restaram, a meu ver, algumas opções civilizadas; quais sejam, pagar os devidos impostos, arriscar o pescoço por uma piada ou participar dos nossos próprios funerais. E a outra opção, claro, já está em curso, e não é exatamente uma “opção”, mas uma consequência natural do fracasso da nossa civilização, trata-se evidentemente da barbárie, da balalaica do fim do mundo.