Esboço de um mapa mundi da literatura

Esboço de um mapa mundi da literatura

É preciso conhecer os aspectos históricos e culturais da China rural para ler a obra de Mo Yan? Dá para entender o romance “Desonra”, de J.M. Coetzee, sem levar em conta que foi escrito no contexto do pós-Apartheid e da Comissão da Verdade e da Reconciliação, na África do Sul? Ou que Michel Houellebecq criou “Serotonina” às vésperas das grandes manifestações dos “coletes-amarelos” e anteviu o caos das ruas de Paris em 2019?

As respostas não são fáceis e assumem ares de controvérsia. Existe a defesa enfática de que a História e o contexto local não importam para o leitor, pois essenciais são os valores ou formas universais. Nessa linha, recebem a pecha de empobrecedoras (“reducionistas”, no jargão acadêmico) as leituras que consideram os fatores sociais e culturais de uma obra literária. Acho que o mundo acaba antes de um veredito nesse debate.

O fato é que, como agora, nunca circularam pelo mundo tantos romances, contos e poesias das mais diversas origens, nacionalidades e culturas. Nem falemos de filmes e séries de televisão. Trata-se de uma avalanche de traduções literárias que nos tornam admiradores, por exemplo, de um escritor contando em três mil páginas as miudezas de suas memórias na distante e fria Noruega (o caso de Karl Ove Knausgard).      

As traduções de romances são, para usar uma imagem bem simples de entender, portas de entrada para outras culturas. Foi pensando nisso que imaginei: traduções permitem fazer hoje um desenho da “literatura mundial”, algo sugerido por Goethe, Marx e Engels quase 200 anos atrás. Não se trata de um mero somatório de escritores e obras nacionais. O nome disso já virou até um ramo de especialistas: “world literature”.

Mapeamento das letras

A sacada de alguns críticos foi mapear a prosa de ficção que incorpora na escrita os movimentos variados e contraditórios do capitalismo global, na virada do século 20 para o 21, em diversas partes do mundo. Cada rincão global tem um escritor olhando as coisas à sua volta e fabulando. Não é massa homogênea de livros, mas sim a produção subjetiva, única, múltipla, com pontos de contato entre eles que se referem a nosso tempo. E esses pontos podem ser traduzidos para gente do planeta inteiro.

No mercado global, a circulação da literatura de diversos lugares depende fortemente das casas editoriais nas metrópoles (Nova York, Londres, Frankfurt, Paris, Madri) e das traduções. Grandes editoras operam como empresas transnacionais, envolvendo ganhos de escala (as altas tiragens de livros) e lançamentos em diversas línguas. Uma edição traduzida na Espanha é distribuída em todos os países de América Latina.

Orhan Pamuk l Foto: Sahan Nuhoglu / Shutterstock.com

A tradução é uma metáfora boa para interpretar a produção circulante pelo mundo. Entram para o centro de debate a questão geográfica e os espaços (territorial, cultural, linguístico). Por isso, é complicado falar em “literatura universal” que dá ideia de algo homogêneo, sem chão histórico. Melhor usar “literatura-mundo”, como se tem o conceito de “sistema-mundo”, que traz a noção de complementariedade e interconexão.  

Para impulsionar as conexões literárias, o Prêmio Nobel tem sido, sem dúvida, um fator central. A partir dos anos 1980, a academia sueca adotou a estratégia de escolher um maior número de mulheres e escritores de fora do eixo Europa-Estados Unidos. A premiação resulta em ampla divulgação na mídia internacional, atenção de leitores e tradução para um número bem maior de línguas.

Nos últimos 40 anos, a lista de agraciados pelo Nobel é uma galeria de escritores das “margens” do Novo Mundo que dialogam com as culturas do Velho Mundo: africanos (Wole Soyinka, Naguib Mahfouz, Nadine Gordimer, J.M. Coetzee); caribenhos (Derek Walcott, V.S. Naipaul); sul-americanos (Gabriel García Márquez, Mario Vargas Llosa); asiáticos (Kenzaburo Oe, Gao Xingjian, Mo Yan); uma afro-americana (Toni Morrison); e um turco (Orhan Pamuk). Criou-se um panteão de literatura-mundo.  

Espaço-tempo

Fredric Jameson foi um dos primeiros críticos, ainda nos anos 1980, a pensar a mudança e a constituição da nova geografia global da cultura. Foi dele a tese polêmica de que as narrativas do Terceiro Mundo seriam essencialmente “alegorias nacionais” — enquanto o Velho Mundo poderia reivindicar o estatuto de “universal”. Mais além da boa discussão, Jameson propôs uma interpretação produtiva para os estudos culturais.

Segundo ele, o Alto Modernismo do século 20 deu prioridade ao conceito de “tempo” em suas formas estéticas. É o que se vê nas grandes meditações temporais que são os romances de James Joyce (“Ulysses), Virginia Woolf (“Mrs Dalloway”, “Passeio ao Farol”), Marcel Proust (“Em Busca do Tempo Perdido”), Thomas Mann (“A Montanha Mágica”) e William Faulkner (“O Som e a Fúria”).

A Festa do Bode, de Mario Vargas Llosa
Mario Vargas Llosa I Foto: ToskanaINC /Shutterstock.com

Na virada para o século 20, avaliou Jameson, o Pós-Modernismo colocou foco maior na questão do “espaço”. Mas, penso eu, não se deve tomar essa categoria no sentido puro do conceito ou ao pé-da-letra do que assinalou pertinentemente o crítico norte-americano.  Mais enriquecedor é apontar a relação espaço-tempo, tendo em vista os fluxos acelerados e os deslocamentos geográficos da globalização.

“Os clássicos do modernismo estavam obcecados, de certa forma profunda e produtiva, com o tempo por si mesmo, com o tempo profundo, com a memória, com a duração (ou a durée bergsoniana), e mesmo com o eterno canto de cisne do Bloomsday de [James] Joyce. Sugeri que com o novo primado da arquitetura nas artes, e o da geografia na economia, o novo ponto de domínio da pós-modernidade seria encontrado no espaço, o tempo se tornando uma questão subordinada do espaço”, assinala Jameson.  

Era das catástrofes

Num debate com Jameson, o historiador inglês Perry Anderson desenhou anos atrás um mapa do romance histórico do final do século 20. Uma ficção literária que faz alegorias e pretende recriar narrativas do passado. Foi uma tentativa de pensar a literatura-mundo. Para ele, o romance histórico de Walter Scott tinha a ambição romântica e positiva de inventar histórias e tradições para as nações que então nasciam no século 19.

Perry AndersonI Foto: Wikimedia Commons

A versão contemporânea dessa forma literária deixou o otimismo lá para trás, sobretudo por conta das catástrofes de duas guerras mundiais. O que prevalece agora, diz Anderson, é o sentimento da ruína do mundo e da descrença com a noção de progresso. A vida não é mais uma subida por meio de uma escada rolante, com o amanhã melhor do que hoje e ontem. O terreno é fértil para distopias. No retrovisor, só aparecem escombros.

O mapeamento de Perry Anderson é extremante curioso e sugere um roteiro de leituras que esquadrinham as questões da globalização e do passado. Para usar a linguagem das redes digitais, aparecem “clusters” de temas recorrentes e ficcionistas de maior relevância do novo romance histórico:  

Traumas contemporâneos

Na trilha de Perry Anderson e de Franco Moretti, comecei a construir nos últimos anos um mapa mundi literário. A orientação que tomei para definir autores e obras foi a ideia de “trauma”, no sentido de buscar obras que enfrentam o choque das experiências temporais (passado, presente e futuro) em várias partes do mundo. Crise do capitalismo, sombra de neonazismo, refugiados, pós-Apartheid: tudo é incorporado pela ficção.

Uma questão central é a noção de “expectativas decrescentes” em relação ao futuro, conforme apontado por ficcionistas como Toni Morrison. O inglês Ian McEwan escreveu um belo ensaio sobre o “fim dos tempos”, para tratar da percepção de que estamos produzindo uma série de catástrofes. Situações traumáticas que se manifestam de formas distintas tanto no centro da economia global, como nas margens do mundo.  

Toni Morrison l Foto: World History Foundation

A perspectiva é que a produção literária das “margens” (a antiga periferia do capitalismo) talvez seja o melhor ponto de observação para interpretar a globalização, a mundialização ou o sistema-mundo, de acordo com a definição mais popular do momento. No final das contas, é uma tentativa de mapeamento da literatura-mundo.

Abaixo, estão temáticas e romances mapeados até o momento, tendo em vista o recorte temporal a partir da década de 1970, quando se acentua a crise do presente. Dá para escrever uma História do mundo contemporâneo a partir dos mais populares romancistas da praça — ou da “República Mundial das Letras”, como assinalou Pascale Casanova. Todos os livros podem ser encontrados em traduções no Brasil: