As últimas canções ouvidas por Louis Armstrong antes de sua morte

As últimas canções ouvidas por Louis Armstrong antes de sua morte

Louis Armstrong (1901-1971), o negro bonachão e risonho, de boca larga e dentes alvíssimos, era um portento. Armstrong, também chamado por um de seus apelidos, Satchmo ou Pops, não se furtava a exibir a magnitude de seu talento nos palcos ao redor do mundo, sempre acompanhado de músicos tão qualificados quanto ele — era amplamente reconhecida sua tolerância quanto a vícios e melindres de colegas, que ele não despedia por preferir se concentrar na excelência com que se apresentavam — e um trompete que parecia adquirir vida própria ao toque de seus lábios. Um homem que passou cinco décadas lidando com a música todos os dias, que chegou ao topo ao interpretar canções que acabaram por se tornar a própria essência de uma época — casos de “Hello, Dolly!” e “What a Wonderful World”, certamente ouviu muita coisa. Mas qual terá sido a sua composição favorita? Que canção teria escutado na casa modesta do Queens em que vivia com a quarta mulher, Lucille (que também virou música), antes de embarcar no seu sono de morte, em 6 de julho de 1971?

Ricky Riccardi, diretor do Museu Casa de Louis Armstrong desde 2009, pensava já ter feito todas as conversões dos registros de Armstrong para CD, até encontrar uma caixa, com a caligrafia de Lucille no fundo. Dentro dela, uma bobina, aparentemente igual às outras milhares com que o pesquisador já se deparara. Os dizeres “Última fita gravada por Pops. 5/7/71” lhe soaram como uma revelação. A fita nunca havia sido copiada. Armstrong tinha o hábito de anexar uma folha com a relação das canções que cada registro continha, mas dessa vez, não o fizera, de modo que Riccardi teve de escutá-la do início ao fim. A gravação quase passara despercebida por não ter uma página com algo de impactante, nenhuma confissão, nenhuma despedida, nenhum último adeus.

Capa da última mixtape

A história da transferência da última fita de Pops para CD é, por si só, digna de registro. À época da descoberta, Riccardi precisava honrar os compromissos com uma bolsa de dois anos que recebera — e transcrever fitas não estava entre eles. Ao fim do período, e com uma pequena ajuda do destino, fora mantido nos quadros do museu. Todos os obstáculos pareciam superados, mas faltava vencer desafios de natureza técnica. Ele não sabia como operar um toca-fitas bobina a bobina. O formato mais adequado para o trabalho, se em 3 3/4, 7 1/2, meia faixa, quarto de faixa, também era uma questão.

Riccardi contara com a ajuda de Michael Cogswell, então diretor do museu e um craque, mas, mesmo assim, as dificuldades não arrefeciam. Quando Cogswell se sentou com ele a fim de lhe ensinar como operar o aparelho, o equipamento estava com defeito. Foram necessários meses até encontrar pessoal habilitado a torná-lo produtivo novamente. Quando a máquina estava finalmente tinindo, Cogswell se dedicava a outras atividades. Foi preciso esperar mais um bom tempo até que o universo conspirasse a favor da memória do jazz e o projeto saísse do mundo das ideias de uma vez por todas.

Depois de tantas reviravoltas, a fita começou a girar e foram-se desvendando os mistérios que encerrava. “Listen to The Mockingbirds”, de 1952, uma colaboração de Pops para Gordon Jenkins, foi a primeira das canções a sair dali. Riccardi já a havia ouvido dezenas de vezes ao longo da vida, mas saber que essa tinha sido uma das últimas músicas apreciadas por Armstrong o afetou de um modo particular. Ao final, depois de um ruído de disco arranhando e agulha se movendo, “That Old Lucky Sun”, o velho sol, sortudo por rodar ao torno do céu o dia todo, girou também nas engrenagens do aparelho. Um alívio.

Depois, Pops virou o disco e daí se sucederam “The Whiffenpool Song”, uma paródia baseada nas canções dos boppers; seu canto apaixonado (e apaixonante) em “Trees”, já conhecida na voz de Joyce Kilmer; a jocosa “Bye and Bye”, com seu coro de vozes prestando um tributo aos músicos de jazz já falecidos, a sério; a divertida novidade “Spooks”, para o Halloween, e, fechando com chave de ouro, “When It’s Sleepy Time Down South”, com uma bonita interpretação de Jenkins para a canção-tema do parceiro.

Esse poderia ser o final irretocável para um registro com as últimas canções ouvidas por alguém. Contudo, o disco rodou mais uma vez, a agulha voltou a cair e a melodia frenética do trompete de Armstrong encheu o ambiente em “Muskrat Ramble”. Mas a fita se movimentava bem devagar e ainda havia muito rolo, sinal de que mais boas surpresas se seguiriam. Passadas mais de duas horas de gravação, Riccardi já se preparava para editar o material quando ouviu os primeiros acordes de “Mop Mop”. Seria a última? A agulha baixou outra vez. Felizmente havia mais.

Era “Can’t We Be Friends”, uma gravação antológica que juntava o gênio de Pops à divindade de ninguém menos que Ella Fitzgerald, uma das maiores cantoras da história. O álbum é um dos favoritos do musicólogo por seu caráter alegre, saboroso, reconfortante. Ainda constavam do suporte “Isn’t it a Lovely Day”, “Moonlight in Vermont”, “They Can’t Take That Away From Me”, “Under a Blanket of Blue”, “Tenderly”, “Stars Felt on Alabama”, “A Foggy Day”, “Cheek to Cheek”, “The Nearness of You” e… “April in Paris”, com a incomparável voz de Ella literalmente casada ao trompete de Armstrong. Nada sobrando. Nada faltando. A agulha não subiu nem desceu mais.

“April in Paris” foi a última canção ouvida por Louis Armstrong, em 5 de julho de 1971, horas antes de morrer. Lucille confidenciou aos amigos Joe Muranyi e Jack Bradley que o marido estava leve. Talvez já estivesse nas nuvens.

Prestigie Louis Armstrong, seu talento e seu bom gosto musical ouvindo a playlist com a maior parte das canções presentes nas últimas fitas de Pops. O material reúne mais de trinta horas de gravação, mas algumas raridades como “Static Strut” e “Swing You Cats” ainda não estão disponíveis em streaming. Você terá de descobri-las por si só.