Carta de Winston Churchill para Jair Bolsonaro

Carta de Winston Churchill para Jair Bolsonaro

Da Igreja de St Martin’s Church, em 24 de janeiro de 1965

Caro Jair,

Permita-me que eu o chame de Jair, pois Bolsonaro me lembra aquele italiano, sabe, o Benito, e Messias não me parece de bom tom para um estadista que, em tese, teria de ser laico. O sr. conhece o Jairzinho, o Furacão da Copa de 70, a do México? Como sabe, morri em 1965 — há 56 anos — e, infelizmente, não pude vê-lo brilhar em campo, ao lado de Sir Pelé, Tostão, Gerson e Rivellino. Mas Boris Johnson (apesar do cabelo, não é o irmão mais velho do Guga Chacra), de quem sou conselheiro espiritual — o primeiro-ministro publicou “O Fator Churchill: Como um Homem Fez História”, sem minha autorização; é quase uma hagiografia, mas o sr. deveria lê-la —, viu um vídeo e garante: “Jair era um deus em campo”.

Preclaro Jair, eu ia dizendo “Messias”, mas fui contido pelo espírito de Neville Chamberlain, aquele do apaziguamento, que, não tendo lido “Minha Luta”, acreditou no Adolf, sabe, aquele cabo austríaco, o Hitler, que se tornou Mefistófeles na terra de Goethe. Não sei se posso sugerir que a Alemanha de Heine se tornou Margarida sob seu imenso poder de persuasão.

Há mortos que se recusam a morrer, por insistência da história. Eu e Franklin, o Delano Roosevelt, continuamos vivos, reverberando até entre os muito vivos, como tu e o Ernesto Araújo, aquele diplomata que deveria pegar umas aulinhas com Henry Kissinger para entender que não se enfrenta um país milenar como a China com bravatas que só duram quatro ou, no máximo, oito anos. Quero contar-lhe um pouco de minha história, pois talvez seja útil na sua trajetória política. Depois, lhe darei uns poucos conselhos, pois, quando excedem, não valem nada.

Eu estava em casa, lendo meus livros, escrevendo outros tantos — ganhei um Nobel de Literatura mais tarde —, quando me chamaram para “enfrentar” Hitler. Eu havia lido “Minha Luta” e, por isso, sabia que o cabo, que se tornara chanceler (sem golpe), não era nada pacifista. Nenhuma política de apaziguamento poderia contê-lo. Chamberlain e lord Halifax estavam equivocados. Em 1940, a Inglaterra, minha pátria, e quase toda a Europa estavam “deitadas” ante um novo sr., Hitler. Me chamaram para enfrentá-lo, e, como não sou mágico, disse aos meus conterrâneos: “Não tenho nada a oferecer senão sangue, trabalho, lágrimas e suor”. As minhas palavras contribuíram, tudo indica, para levantar o ânimo e os corpos dos britânicos. “Voltamos” para a luta. Palavras, caro Jair, são armas poderosas — destrutivas ou construtivas. No caso da terra de Shakespeare e George Eliot (esclareça para a Damares Alves que o nome “verdadeiro” dela era Mary Ann Evans), meus aforismos e exortações foram positivos.

Prezado Jair, o Boris Johnson me contou que é tão anticomunista quanto nós e Margaret Thatcher. Portanto, deve saber que, em agosto de 1938, Stálin, o czar vermelho, uniu a União Soviética à Alemanha, por meio de um acordo de não-agressão dos mais ignóbeis. O georgiano de bigodes de barata — cito o bardo Óssip Mandelstam — cumpriu sua parte no acordo, fornecendo alimentos e petróleo ao país governado por Hitler, mas os germânicos roeram a corda e, em 1941, invadiram a URSS, agravando o equívoco histórico cometido por Napoleão Bonaparte, o francês, em 1812. Primeiro, não dava para vencer a guerra em duas frentes distantes. Segundo, o tempo — o sargento-gelo — nunca foi favorável aos inimigos da Rússia de Púchkin e Tolstói. Hitler, ao bobear, dançou a valsa do adeus. Começava a “guerra sem paz” contra a Alemanha nazista.

Quando a velha Rússia de Tchekhov foi atacada pelos nazistas, não tenho nenhum pudor de dizer: vibrei. Sabia que Hitler finalmente passara a tentar se locomover na areia movediça da história. Não hesitei: desci ao Inferno e dei as mãos a Stálin, o Mefistófeles da União Soviética. Viramos quase irmãos. Quando o Japão atacou Pearl Harbor, em 1941, o que trouxe os Estados Unidos para a guerra, concluí que a democracia venceria a ditadura da Alemanha. Nós, do Reino Unido, não estávamos mais isolados. Agora, éramos os Aliados, com mais recursos, soldados e o moral redobrado.

Pois, caro Jair, ganhamos a guerra, em 1945. Hitler se matou e os soviéticos levaram seus restos mortais. A democracia, que o sr. certamente preza, quiçá como retórica, havia, felizmente, vencido o lado sombrio da política e da vida.

Eu havia me tornado não “um” político, mas “o” político. O mundo inteiro me louvava. Consta que o dono de um jornal em Ipameri, cidade do interior de Goiás, teria escrito mais ou menos assim (please, peça para o Carluxo Bolsonaro checar): “Alertei Hitler que não deveria ter invadido a Rússia. Ele não quis me ouvir e deu no que deu”. Pois o mesmo jornalista teria me elogiado como “o Péricles do século 20”.

“Este homem, Clement Attlee, me derrotou” | Foto: Reprodução

Entretanto, sr. Jair — de novo ia chamá-lo de Bolsonaro, mas lembrei do outro italiano, o Benito —, depois de vencer a Segunda Guerra Mundial, uma batalha que durou de 1939 a 1945, perdi a eleição seguinte para primeiro-ministro. Até hoje, ao mexer nas minhas cinzas, lembrando Fênix, pego-me a pensar: por que fui derrotado pelos trabalhistas de Clement Attlee, um político quase tão sem sal quanto Joe Biden?

Caro Jair, o sr., que deve ter lido os livros de Richard Evans, Ian Kershaw, Antony Beevor, Richard Overy e Andrew Roberts — este, meu mais recente biógrafo (o historiador foi o primeiro a ter acesso aos arquivos da família real, ao menos é o que diz) —, talvez possa me informar melhor: por que perdi a eleição, depois de salvar a Europa e, portanto, o mundo das garras do totalitarismo nazista?

Pensando cá com meus charutos e meu uísque 18 anos — procede que nas Forças Armadas do Brasil, nação que enviou 25 mil homens para lutar contra Hitler, toma-se uísque 12 anos? —, produzido lá na Escócia de Walter Scott, arrisco a dar uns pitacos.

Sim, venci a guerra, mas, aparentemente, não soube apresentar uma política clara para recuperar a economia da Inglaterra pós-batalha e, daí, melhorar a qualidade de vida dos britânicos. Os trabalhistas tinham um plano, de matiz social, para tornar a vida dos indivíduos menos árdua. Não era mais hora de oferecer “suor” — labor. Era hora de provar a ambrosia. Fui trocado e, mais tarde, voltei ao poder. Mas não era mais a mesma coisa. Sei que, se tivesse sido eleito, teria ajudado Harry Truman no combate à hidra comunista de Stálin, Kruchev, Mao Tsé-tung e caterva.

Boris Johnson e Angela Merkel — tão conservadores quanto o sr., mas nada bárbaros — me disseram que foi eleito presidente do Brasil, país de 8,5 milhões de quilômetros quadrados e 210 milhões de habitantes, com 57 milhões de votos. A Inglaterra tem 55,6 milhões de habitantes e seu território não chega à metade do de Goiás, aquele estadão no qual está baseada Brasília, onde o sr. e a sra. Michelle moram. O presidente da França, Emmanuel Macron, me confidenciou que o sr. irá à reeleição. Pois, se for verdade, tenho uns conselhos para o presidente. Como disse antes, são poucos. Tenha paciência e confira-os.

Primeiro, estude, um pouco que seja, a vida do político Tancredo Neves, aquele lá das Minas Gerais, a terra do poeta Carlos Drummond de Andrade e da escritora Helena Morley (sugira à Damares Alves que leia “Minha Vida de Menina”). Neves — sua “frieza” lembra os invernos rigorosos da Rússia em 1812 e da União Soviética em 1941 — era um democrata absoluto. Foi ministro da Justiça do governo democrático de Getúlio Vargas, primeiro-ministro em 1961, senador, governador de Minas e, em 1985, foi eleito presidente da República. Pena que tenha falecido e, por isso, não pôde governar o Brasil. Boris Johnson me contou que o sr. Neves era uma raposa das mais felpudas — daí sua longevidade na política. O aristocrata de São João del-Rei estava certo ao sugerir que a capacidade de conciliar e de perceber que as diferenças podem fortalecer e não enfraquecer governantes são cruciais aos gestores públicos.

Concilie, pois. Busque o Centrão, porque é a maneira de garantir tanto a boa governança quanto a governabilidade. É mais bem-sucedido aquele político que busca o caminho do centro e não o sendeiro dos extremos.

Segundo, não atente contra a democracia. Ditadores podem ser fortes, quando no poder, mas, depois, são execrados pela história. Stálin, Hitler, Mao Tsé-tung e os generais brasileiros, como Emílio Garrastazu Médici (outro italiano ou alemão?), não fazem boa figuração nos livros. A imagem deles é a pior possível. Aqueles que o querem como ditador depois serão esquecidos. Mas se aventurar-se a ser ditador — ou um Putin dos trópicos —, é o nome do sr. que ficará mal para todo o sempre. Seus herdeiros — filhos, netos e bisnetos — terão de conviver com um nome execrado e execrável. “Ninguém pretende que a democracia seja perfeita ou sem defeito. Tem-se dito que a democracia é a pior forma de governo, salvo todas as demais formas que têm sido experimentadas de tempos em tempos.” Eu disse isto e todos repetem. Porque é verdadeiro.

Terceiro, esqueça o debate ideológico. Olavo de Carvalho, que está se tornando o Carlos Zéfiro da política e o Nelson Rodrigues do latrinismo, não deve influenciá-lo. Porque, simplesmente, não sabe o que é governar. Quem governa tem de olhar, como dizem seus auxiliares mais pragmáticos, como Walter Braga Netto e Luiz Eduardo Ramos — Golbery do Couto e Silva parece inspirá-los, ainda que o sr. não goste de “El Brujo” —, para os fatos, para a realidade. A discussão ideológica deve ficar para os intelectuais, pois está muito distante do dia a dia das pessoas ditas comuns, que são a maioria. Conviva com “pessoas reais”, como Arthur Lira, Ricardo Barros e Ciro Nogueira. Não dá para trocar os políticos — exceto de quatro em quatro anos — nem o povo. Então, é preciso ter os dois pés plantados na vida real e conviver com os viventes possíveis. Seres ideais só, quem sabe, no Céu.

Quarto, políticos como Daniel Silveira, o Vin Diesel com conta bancária de Belíndia, não o ajudam em nada. Eles representam a autêntica vanguarda do atraso. A boca é grande, mas o cérebro costuma ser mignon. Se quiser ir adiante, levando o país pra frente, deixe tal turma, cujo reino é o da barbárie e da falta de civilidade básica, para trás. O sr. talvez sobreviva politicamente se aprender que é preciso deixar certos “cadáveres vivos” pelo caminho… Não deve carregá-los para sempre.

Quinto, lembre-se, caro Jair: não acredite nos que cantam sua vitória tão cedo — ante a fragilidade das oposições. Se até eu perdi, depois de ter vencido Hitler e o italiano, o Mussolini, o mesmo pode acontecer com sr. Fiquei sabendo, via Boris Johnson, certamente leitor de “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis, que o PT pretende lançar Lula da Silva para presidente e que Fernando Haddad, a Dilma Rousseff de calça, está apenas guardando a vaga para ele. Me disseram que o sr. quer enfrentar o petismo porque é previsível, e tem desgaste talvez incontornável. Mas tome cuidado. Sua popularidade está baixa, em queda. Pode até melhorar. Mas imagine se o sr. disputar e acabar não indo nem para o segundo turno? Seus aliados parecem pensar que o centro político está morto. Talvez não esteja. Uma aliança entre João Doria, Luciano Huck — seria parente do incrível, o verdão? — e Sergio Moro pode balançar as estruturas políticas do país. Lembre-se, meu caro, do caráter imponderável da vida.

Por fim, caro Jair, faça tudo para vacinar todos os brasileiros. Mas faça isto por humanidade, e não apenas para ser reeleito em 2022. Participei de uma guerra em que morreram mais de 60 milhões de pessoas — inclusive vários brasileiros, como o goiano Aldemar Ferrugem. Com seus 245 mil mortos, devido à pandemia do novo coronavírus — a Covid-19 —, o Brasil está em guerra. Ao sr., que deve governar para todos os brasileiros, e não apenas para seus seguidores e eleitores, cabe reduzir o número de mortes. O verbo que o sr. deve conjugar, todos os dias, é vacinar. Talvez, ao contrário do que aconteceu comigo, logo depois da guerra, sobreviva politicamente. Não queira se tornar uma figura execrável no presente. A história não o absolverá. E as urnas poderão “enterrá-lo”, como (quase) fizeram comigo…

Cordialmente,

Winston Leopold Spencer-Churchill