Francis Ford Coppola dirige “Drácula de Bram Stoker” com Gary Oldman, Winona Ryder, Keanu Reeves e Anthony Hopkins num registro de luto, desejo e maldição anunciado desde a primeira imagem. No século 15, Vlad Dracula volta da guerra, encontra a mulher morta e renega a fé ao descobrir que ela não terá enterro sagrado, gesto que o empurra para uma existência amaldiçoada e prepara a travessia pelos séculos. Tudo começa na ferida. Quando a ação avança, Jonathan Harker vai à Transilvânia para tratar de negócios imobiliários com esse mesmo conde, e o filme firma seu chão em castelo, armadura, pedra e sangue antes de chegar a Londres.
Do castelo à perseguição
O prólogo medieval não está ali apenas para explicar a origem do vampiro, mas para dar peso concreto à perseguição que vem depois. Quando Dracula vê a fotografia de Mina Murray no castelo e reconhece nela a imagem da amada perdida, o impulso amoroso do início muda de forma e vira movimento, viagem e cerco, enquanto Harker permanece preso na Transilvânia sob o domínio de um anfitrião que controla a casa, o contrato e o ritmo dos dias. Nada ali é seguro. Coppola liga esse gesto íntimo, o rosto visto numa fotografia, ao movimento que levará o conde para longe do castelo sem apagar a dor que moldou sua maldição.
Em Londres, a ameaça deixa de ser segredo de castelo e passa a circular por ruas, quartos e salões da cidade vitoriana. Mina continua ligada a Jonathan, Lucy Westenra entra na órbita do conde e Dracula surge como presença sedutora e infecciosa, capaz de misturar desejo, doença e medo na mesma aparição. A cidade muda de cor. Coppola trata essa chegada como invasão gradual, e o elo entre Mina e Dracula sustenta o centro do drama com mais firmeza do que Jonathan, muitas vezes reduzido à condição de noivo em perigo enquanto a força da história se desloca para os encontros, as ausências e a atração que cresce sob névoa, veludo e sombra.
Gary Oldman compõe um conde instável, sempre oscilando entre paixão antiga, fome e crueldade, sem separar uma coisa da outra. O gesto de lamber o sangue da navalha no castelo resume bem esse desenho, porque reúne erotismo, ameaça e apetite num movimento curto, íntimo, quase doméstico, que prepara também suas transformações posteriores em Londres. Basta um gesto assim. Winona Ryder sustenta Mina entre fascínio e lealdade, Anthony Hopkins entra como Van Helsing quando Lucy já foi atingida e o círculo à volta dela começa a ruir, e Sadie Frost leva para o corpo a parte mais febril dessa contaminação.
Sangue, névoa e excesso
Há momentos em que o excesso visual quase toma conta de tudo, mas essa inflação combina com o castelo na Transilvânia, com a Londres de névoa, tecido e sangue e com o melodrama aberto que Coppola persegue do começo ao fim. A convulsão grotesca de Lucy marca com nitidez a passagem do romance gótico para um horror mais corporal, mais exposto, mais doente, sem romper o vínculo entre sexo, religião e morte já armado no prólogo. O exagero tem função. Em vez de encenar “Drácula de Bram Stoker” como peça de época guardada atrás de vidro, Coppola prefere um mundo em combustão, onde o quarto, a cama, a rua e o castelo parecem contaminados pelo mesmo mal.
A força de “Drácula de Bram Stoker” está em assumir sem pudor essa mistura de tragédia amorosa, surto visual e pesadelo carnal. Jonathan preso no castelo, Mina atraída por um rosto que parece vir de outro século, Lucy arrastada para a zona de risco e Van Helsing tentando reagir a uma ameaça já instalada formam uma corrente de imagens que segue de pé mesmo quando certas atuações vacilam e nem todas as cenas encontram a mesma medida. O filme segue adiante. No fim, o que fica não é uma explicação, mas a fotografia de Mina nas mãos do conde, a porta escura, a névoa de Londres e uma sombra parada no corredor.
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