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Tão bom quanto o livro, este filme na Netflix entrega um dos momentos mais belos da história do cinema Divulgação / Columbia Pictures

Tão bom quanto o livro, este filme na Netflix entrega um dos momentos mais belos da história do cinema

Greta Gerwig reúne Saoirse Ronan, Emma Watson, Florence Pugh, Eliza Scanlen e Timothée Chalamet para revisitar “Little Women”, lançado no Brasil como “Adoráveis Mulheres”. Tudo começa em movimento. Jo March surge em Nova York, entrando no escritório de um editor para negociar seus contos, enquanto a memória a empurra de volta a Massachusetts, onde Meg, Beth e Amy ainda dividem a casa, a mesa e a rotina. Entre papel, passos e contas apertadas, o filme tira o romance de época do pedestal e o aproxima do trabalho incerto, do dinheiro curto e de escolhas afetivas sem espaço para conforto.

Da casa ao editor

Gerwig rompe a linha reta do tempo e cruza a Jo adulta, já fora de casa, com a juventude das March em Concord, sem transformar esse retorno em vitrine de saudade. Tudo corre depressa. O café da manhã de Natal entregue a uma família pobre pesa tanto quanto a escassez dentro da própria casa, e quartos, escada e sala aparecem como espaços de afeto e aperto ao mesmo tempo. Em vez de separar uma infância luminosa de uma maturidade amarga, a diretora costura os dois momentos até que uma conversa em Nova York responda, anos depois, a um gesto guardado em Massachusetts.

Esse movimento ajuda a pôr Jo no centro sem reduzir as outras irmãs, numa história em que cada uma carrega um risco próprio. Cada uma pede um destino. Meg imagina uma vida mais estável, ligada ao casamento e à construção de um lar; Beth atravessa as cenas com delicadeza e silêncio, sempre sob a sombra da saúde frágil; Amy vai para Paris tentando dar forma prática à própria ambição artística. Quando as quatro aparecem lado a lado, discutindo, rindo, dividindo tarefas e pequenas irritações, o parentesco deixa de ser adorno e vira matéria de convivência, escassez e apego.

Amor, Paris e perda

Saoirse Ronan sustenta Jo com uma inquietação física que impede a personagem de virar santa, mártir ou estátua literária. Há pressa nos passos. Quando entra no escritório do editor em Nova York, Jo parece medir o valor de cada página, o quanto cede e o quanto segura, e esse detalhe aproxima a escrita de uma barganha áspera, não de uma vocação apartada do mundo. Florence Pugh cresce muito quando Amy chega a Paris e precisa medir talento, desejo e sobrevivência no mesmo gesto, enquanto Timothée Chalamet faz de Laurie menos um ideal romântico do que uma presença instável, ligada primeiro a Jo e depois, de forma decisiva, a Amy.

A recusa da proposta de Laurie por Jo concentra boa parte da força de “Adoráveis Mulheres” porque não soa como capricho, mas como recusa concreta de um caminho que ameaçava engolir outras possibilidades. Ninguém sai ileso dali. A partir desse ponto, amor e independência ganham peso em situações específicas, como a pressão econômica em Massachusetts, a busca de Jo por publicação em Nova York e o cálculo de Amy em Paris diante do que a vida pode ou não lhe conceder. Até Beth, cuja fragilidade paira sobre a família desde cedo, reforça o clima de perda próxima e reorganização constante dentro da casa, entre corredores, quartos e ausências que ninguém consegue acomodar por completo.

Muita adaptação de clássico prefere reverência e acabamento, mas Gerwig segue por outra via ao ligar Concord, Nova York e Paris como lugares de passagem, trabalho e despedida. As irmãs continuam presas umas às outras. Isso aparece na mesa de jantar, nas conversas atravessadas dentro de casa e na distância que o tempo impõe quando cada uma precisa sair do mesmo ponto por uma porta diferente. Sem revelar a última curva, “Adoráveis Mulheres” termina deixando no ar a sensação de papel recém-tocado, passos no assoalho e frio entrando pela fresta da janela.

Filme: Adoráveis Mulheres
Diretor: Greta Gerwig
Ano: 2019
Gênero: Drama/Romance
Avaliação: 9/10 1 1
★★★★★★★★★