Em “Spree: Viagens Sem Limites” (2020), dirigido por Eugene Kotlyarenko, acompanhamos Kurt Kunkle (Joe Keery), um jovem motorista de aplicativo em Los Angeles que decide transformar seu trabalho em uma vitrine online, transmitindo todas as corridas ao vivo na tentativa desesperada de conquistar fama nas redes sociais, um plano que rapidamente sai do controle à medida que sua obsessão por visibilidade cresce.
Kurt não é exatamente um fora da curva; ele é, na verdade, um retrato exagerado, e por isso mesmo incômodo, de uma geração que aprendeu a medir valor pessoal em curtidas. Ele dirige, fala com passageiros, sorri para a câmera e tenta criar momentos “espontâneos” que viralizem. Tudo é calculado, ainda que ele finja naturalidade. O carro vira cenário, os passageiros viram figurantes involuntários, e a rotina vira conteúdo. Só que ninguém está assistindo, ou, pelo menos, não o suficiente para satisfazer sua fome de reconhecimento.
A frustração aparece cedo. Kurt percebe que ser simpático e educado não rende cliques. Então ele começa a ajustar o comportamento, como quem mexe em um experimento: fala mais alto, provoca reações, tenta forçar situações. Ele observa influenciadores de sucesso e tenta copiar fórmulas, mas sem entender exatamente por que funcionam. O resultado é um desconforto crescente, tanto para quem está no carro quanto para quem assiste. Ainda assim, ele insiste. Para Kurt, parar significaria admitir que não tem nada de especial.
Há algo quase cômico na forma como ele se leva a sério. Kurt trata cada transmissão como um grande evento, mesmo quando está apenas preso no trânsito ou tentando puxar conversa com alguém claramente desinteressado. Ele comemora pequenas interações como vitórias épicas e ignora sinais óbvios de rejeição. Em certos momentos, a tentativa de ser engraçado até funciona, não porque ele seja particularmente carismático, mas porque o constrangimento gera um tipo de humor involuntário. É aquele riso meio nervoso, que vem acompanhado de um “isso não vai dar certo”.
Mas o filme não demora a deixar claro que a brincadeira tem um limite. À medida que Kurt percebe que precisa de algo mais impactante para crescer, suas escolhas ficam mais extremas. Ele começa a tratar cada corrida como uma oportunidade de “conteúdo forte”, e o que antes era apenas estranho passa a ser perigoso. A tensão aumenta justamente porque tudo acontece em tempo real, com a câmera sempre ligada. Não há espaço para recuo, edição ou arrependimento.
Joe Keery sustenta o filme com uma performance que equilibra ingenuidade e inquietação. Kurt não se vê como vilão, ele se enxerga como alguém que só precisa de uma chance. Esse detalhe faz toda a diferença, porque impede que o personagem vire uma caricatura simples. Ele é irritante, sim, mas também reconhecível. Em algum nível, dá para entender de onde vem essa necessidade desesperada de ser visto.
A direção de Kotlyarenko aposta em uma estética que simula transmissões ao vivo, telas de celular e interações digitais, o que ajuda a criar uma sensação constante de vigilância. Tudo parece imediato, urgente, sem filtro. Essa escolha não é só estilística, ela reforça a ideia de que Kurt está sempre performando, mesmo quando não há ninguém realmente prestando atenção.
O filme também brinca com a lógica das redes sociais: quanto mais Kurt tenta controlar a narrativa, menos controle ele tem. Ele responde a comentários, ajusta o comportamento, tenta agradar, mas nunca é suficiente. Sempre falta algo, mais intensidade, mais impacto, mais risco. É uma corrida sem linha de chegada.
“Spree: Viagens Sem Limites” desenvolve mais dinamicamente quando abraça esse desconforto. Ele não tenta suavizar o absurdo da situação, nem oferecer respostas fáceis. Em vez disso, expõe uma dinâmica que já é familiar, só que levada ao extremo: a ideia de que existir online exige performance constante, e que parar pode significar desaparecer.
Kurt continua dirigindo, falando, tentando. A câmera segue ligada, os comentários continuam subindo, e ele permanece ali, entre a esperança de finalmente viralizar e o risco crescente de perder completamente o controle da própria história.
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