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Releitura sombria de conto clássico transforma princesa em justiceira, no Prime Video Divulgação / Sobini Films

Releitura sombria de conto clássico transforma princesa em justiceira, no Prime Video

“A Vingança de Cinderela”, dirigido por Andy Edwards, parte de um conto conhecido para fazer exatamente o oposto do esperado: em vez de acompanhar uma trajetória de salvação, acompanha uma ruptura. A Cinderela vivida por Lauren Staerck não está esperando um convite para o baile, ela está tentando sobreviver a uma rotina que mais parece um regime de controle doméstico. A madrasta, interpretada por Stephanie Lodge, não apenas impõe regras, mas administra cada detalhe da casa como se fosse uma autoridade incontestável. E, nesse ambiente, a jovem aprende cedo que obedecer não é escolha, é condição de permanência.

O início do filme deixa isso muito claro sem precisar de grandes discursos. Cinderela acorda, executa tarefas, evita confronto direto e, acima de tudo, observa. Há algo de quase clínico na forma como ela registra o comportamento da madrasta e das meias-irmãs: quem manda, quem reforça a ordem, quem apenas repete a crueldade por hábito. Esse olhar atento não é passividade, é preparação, ainda que nem ela mesma saiba disso no começo. Afinal, quando você vive sob pressão constante, entender o funcionamento do ambiente pode ser a única forma de não se perder dentro dele.

O ponto de virada não vem com música dramática nem com uma cena grandiosa. Ele chega como costuma acontecer na vida: no limite do suportável. Um episódio específico, mais um entre tantos, faz com que Cinderela perceba que continuar aceitando aquilo não vai levá-la a lugar nenhum. E é aí que o filme muda de eixo. Ela não foge. Não pede ajuda. Não espera. Ela decide agir.

A mudança começa pequena, quase imperceptível. Um atraso aqui, uma recusa silenciosa ali. Só que, dentro daquela casa, qualquer desvio de comportamento já é suficiente para acionar o alerta. A madrasta reage rápido, intensifica o controle, encurta ainda mais o espaço da protagonista. O que antes era um ciclo previsível de abuso passa a ser um jogo mais instável, onde cada movimento pode desencadear algo maior. E Cinderela entende isso, talvez melhor do que qualquer outro personagem.

É nesse momento que entra a Fada Madrinha, interpretada por Natasha Henstridge. Mas quem espera uma figura acolhedora, dessas que resolvem tudo com um toque de magia, vai se surpreender. A personagem chega com outra energia, mais dura, mais ambígua. Ela não promete conforto, promete possibilidade, o que é bem diferente. E, principalmente, deixa claro que qualquer ajuda terá um custo.

A relação entre as duas é construída quase como uma negociação silenciosa. Cinderela precisa de meios para reagir; a Fada Madrinha oferece, mas sem romantizar nada. Não há aqui a ideia de “final feliz garantido”. Pelo contrário: quanto mais a protagonista avança, mais evidente fica que ela está entrando em um terreno onde as regras são outras, e onde cada decisão pode cobrar um preço alto.

A partir daí, o filme assume de vez sua proposta mais sombria. Cinderela começa a agir com intenção clara. Não há impulsividade gratuita, mas também não há hesitação prolongada. Ela usa tudo o que aprendeu vivendo naquele ambiente para inverter, aos poucos, a lógica da casa. E isso é interessante porque não acontece de forma imediata ou triunfal. Existe erro, existe risco, existe a constante possibilidade de que tudo desmorone.

Em alguns momentos, há até um humor discreto, quase involuntário, aquele tipo de ironia que surge quando a dinâmica se inverte. A figura antes invisível começa a ocupar espaço. A pessoa que obedecia passa a escolher quando agir. Não é engraçado no sentido tradicional, mas há um certo desconforto curioso em ver quem sempre teve controle lidar, mesmo que por instantes, com a perda dele.

O filme também acerta ao não simplificar os antagonistas. A madrasta de Stephanie Lodge não é apenas cruel por ser cruel; ela sustenta um sistema que funciona para ela, e por isso resiste com força quando percebe que pode perdê-lo. As meias-irmãs seguem essa lógica, reforçando a estrutura que as beneficia. Isso torna o embate mais tenso, porque ninguém ali está disposto a ceder facilmente.

Ao longo da narrativa, a casa, que no início parecia apenas um cenário de opressão, se transforma em um campo de disputa. Cada cômodo, cada rotina, cada interação ganha outro significado. Cinderela deixa de ser alguém que apenas reage e passa a interferir diretamente no que acontece ao seu redor. Ainda há medo, ainda há risco, mas há também uma mudança concreta de posição.

E talvez seja esse o ponto mais interessante de “A Vingança de Cinderela”: ele não tenta suavizar essa transformação. Não há uma moral pronta, nem uma tentativa de tornar tudo confortável. O que existe é a exposição de um processo: duro, imperfeito e, em muitos momentos, incômodo de alguém que decide não aceitar mais o papel que lhe foi imposto.

Filme: A Vingança de Cinderela
Diretor: Andy Edwards
Ano: 2024
Gênero: Drama/Fantasia/horror/Mistério/Romance/Suspense
Avaliação: 7/10 1 1
★★★★★★★★★★