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O filme mais subestimado de Darren Aronofsky, com Austin Butler, na HBO Max Divulgação / Columbia Pictures

O filme mais subestimado de Darren Aronofsky, com Austin Butler, na HBO Max

Existe um tipo muito específico de problema que começa com um “você pode me fazer um favor?”, e termina com alguém correndo pela própria vida sem entender exatamente por quê. É mais ou menos isso que acontece em “Ladrões”, filme dirigido por Darren Aronofsky e protagonizado por Austin Butler, que acompanha um sujeito comum sendo empurrado, sem aviso, para dentro de um jogo violento que ele não sabe jogar.

Hank Thompson (Austin Butler) não é exatamente o tipo de cara que chama atenção. Ex-promessa do beisebol no ensino médio, ele viu o sonho esportivo ficar para trás e hoje leva uma vida discreta em Nova York. Trabalha como barman, mantém um relacionamento estável com Yvonne (Zoë Kravitz) e se agarra às pequenas alegrias possíveis, como acompanhar o desempenho do seu time do coração. Nada extraordinário, o que, nesse caso, é quase uma vantagem. Ou seria, se a tranquilidade não fosse interrompida por um pedido aparentemente banal.

O vizinho Russ, prestes a viajar, pede que Hank cuide de seus gatos por alguns dias. Hank aceita sem pensar muito. É o tipo de gentileza automática, quase protocolar. Ele pega as chaves, entra no apartamento, alimenta os animais, verifica se está tudo em ordem. Mas há algo ali que não encaixa. Pequenos sinais indicam que aquele espaço guarda mais do que móveis e ração. E não demora para que a rotina simples se transforme em um ponto de partida para algo muito maior.

Virada de chave

A virada acontece quando Hank descobre que, escondida na jaula de um dos gatos, existe uma chave: pequena, aparentemente comum, mas que desperta um interesse desproporcional. Ele não sabe o que ela abre, nem por que é tão importante, mas percebe rapidamente que não é o único atrás dessa resposta. A partir daí, a vida dele deixa de ser previsível e passa a ser monitorada.

Logo surgem os primeiros sinais de que há gente observando. Estranhos aparecem com perguntas diretas demais, com uma insistência que não combina com curiosidade inocente. Hank tenta se esquivar, responde com cautela, mas cada interação só confirma que ele está no centro de algo que não compreende. E pior: algo que envolve pessoas dispostas a tudo para conseguir o que querem.

Entre esses interessados estão mafiosos russos, policiais corruptos e figuras que operam à margem de qualquer regra. A presença de personagens interpretados por Regina King, em um papel que mistura autoridade e ambiguidade, adiciona uma camada extra de tensão: não fica claro quem realmente está do lado de quem, e essa dúvida passa a guiar cada decisão de Hank.

Lutando com as armas que tem

Sem experiência em confrontos desse tipo, ele recorre ao que tem: observação, improviso e uma certa dose de ironia. Em alguns momentos, tenta usar o humor como forma de ganhar tempo, uma resposta atravessada aqui, uma piada deslocada ali. Nem sempre funciona, claro. Às vezes, só irrita ainda mais quem está do outro lado. Mas, em um cenário onde cada segundo conta, até um breve desconforto do adversário pode significar uma chance de escapar.

O problema é que fugir não resolve tudo. A cidade, que antes era apenas cenário, se transforma em um labirinto onde cada esquina pode esconder uma ameaça. Hank muda rotas, evita lugares conhecidos, tenta desaparecer no fluxo urbano. Ainda assim, a sensação de cerco só aumenta. Quem o procura parece sempre um passo atrás ou um passo à frente.

Yvonne percebe rapidamente que algo está errado. A relação dos dois, antes leve, passa a carregar uma tensão constante. Hank evita contar tudo, talvez para protegê-la, talvez porque ele mesmo ainda não entenda completamente o que está acontecendo. Mas o silêncio cobra seu preço. A distância entre eles cresce na mesma medida em que o perigo se aproxima.

Tudo pode piorar

O que “Ladrões” faz com eficiência é transformar um objeto simples em um gatilho para uma escalada de conflitos. A tal chave, que poderia passar despercebida em qualquer outro contexto, vira o centro de uma disputa que envolve poder, dinheiro e segredos. E Hank, que só queria ajudar um vizinho, se vê obrigado a tomar decisões que nunca imaginou.

Darren Aronofsky conduz a história com um senso de urgência constante, mas sem abandonar os momentos mais íntimos do personagem. Há uma preocupação em mostrar não apenas o que Hank faz, mas como ele reage, como hesita, como tenta manter algum controle em meio ao caos. Isso dá ao filme um ritmo que alterna entre tensão e respiro, ainda que esse respiro nunca seja completamente seguro.

“Ladrões” é menos sobre grandes planos criminosos e mais sobre o efeito dominó de uma escolha simples. Hank aceita um favor, entra em um apartamento, encontra algo que não deveria, e, a partir daí, tudo muda. O que resta para ele é tentar sair dessa situação com o mínimo de perdas possível, mesmo sabendo que, em jogos como esse, sair inteiro já é quase uma vitória improvável.

Filme: Ladrões
Diretor: Darren Aronofsky
Ano: 2025
Gênero: Ação/Comédia/Crime/Suspense
Avaliação: 9/10 1 1
★★★★★★★★★
Fernando Machado

Fernando Machado é jornalista e cinéfilo, com atuação voltada para conteúdo otimizado, Google Discover, SEO técnico e performance editorial. Na Cantuária Sites, integra a frente de projetos que cruzam linguagem de alta qualidade com alcance orgânico real.