Deve haver algum lugar onde repousam os amores atrofiados, fracassados, mortos. Sentimento talvez o mais controverso a pautar a vida, o amor muitas vezes arrasta uma avalanche de outras emoções, completamente desconexas entre si. Duas pessoas que se amam podem despender um tempo deveras precioso com discussões em que cada qual defende um ponto de vista, como se o amor fosse um campeonato de falsas certezas, a que os amantes se dedicam pensando estarem, um e outro, dotados de uma razão insustentável em essência. Ao contrário, quando uma relação amorosa se finda, extingue-se junto qualquer indício de razoabilidade, a prova cabal de que, para existir, o amor se basta. Levando ao extremo essa premissa, “Vidas Passadas” é uma das produções mais felizes em retratar as complexidades de uma relação que se imaginava eterna. Celine Song compõe uma ode ao verdadeiro amor, que até pode acabar, uma vez que a vida mesma acaba, mas que deixa recordações, as boas e as nem tanto — e ainda assim, há quem queira se desfazer delas, como se amar fosse uma distração. Song demonstra que isso é coisa de gente imatura, que não só não tem a menor ideia do que seja o amor como não o merece.
Girassóis da Coreia
Na Young é uma menina comum vivendo as experiências comuns de alguém na sua idade, sonhando acordada e sem nenhuma culpa. Ela tem sua primeira paixão por Hae Sung, um garoto da sua classe, mas pouco depois de poder admitir para si mesma que está num momento inédito e auspicioso da puberdade, seus pais decidem ir para o Canadá. Cria do teatro, a diretora-roteirista transforma em poesia o que acontece com os personagens, obtendo cenas tão simples como antológicas, feito a que mostra Na e Hae separando-se pela primeira vez, ela subindo uma longa escadaria e o ex-futuro pretendente indo embora, cada qual tomando um rumo. Perspicaz, Song usa suas memórias para galvanizar o eixo da narrativa, e tem o condão de dar a um flashback uma cadência dolente, mas que também empolga, retrocedendo 24 anos e avançando doze no intuito de fazer o espectador participar da história. Claro que o bom elenco a ajuda nisso.
Uma lição
O tempo corre, a vida passa, Na e Hae vão mudando, mas não aceitam a despedida. Na vira Nora, uma aspirante a dramaturga agora radicada em Nova York, ao passo que Hae estuda engenharia em Seul, e em comum apenas o fato de nunca terem esquecido uma ao outro. Pouco depois, casada com Arthur, Nora mantém longas conversas com seu namoradinho coreano por videochamadas, embora os dois saibam que a vida não volta e, mais importante, não estão dispostos a abrir mão do que já têm e do que ainda podem conquistar. Numa estreia arrebatadora, Song assinala sua vocação de destrinchar mazelas dos relacionamentos, dom confirmado em “Amores Materialistas” (2025). Greta Lee e Teo Yoo são a cereja de um bingsu refrescante, entre o doce e o ácido, que traz a lição óbvia de não bater de frente com o colérico destino.
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