Dirigido por Tom Dey, “Armações do Amor” reúne Matthew McConaughey, Sarah Jessica Parker, Zooey Deschanel e Terry Bradshaw em torno de uma premissa que parece pronta para uma comédia romântica mais afiada. Tripp tem 35 anos, vende barcos, vive velejando e continua instalado na casa dos pais, Al e Sue, cercado por cama arrumada, comida servida e roupa limpa. Tudo parece fácil demais. Cansados de assistir ao filho ocupar o quarto como se o tempo não tivesse passado, os pais contratam Paula, especialista em convencer homens adultos a finalmente sair de casa. A ideia já nasce meio torta, porque troca uma conversa direta por um teatro sentimental.
Uma armadilha sentimental
Paula se aproxima de Tripp como quem cumpre um serviço, observando hábitos, repetindo interesses e dosando intimidade até o momento em que ele se abra. Tripp, por sua vez, não é tratado como um derrotado sem rumo, mas como um sujeito bonito, sociável e bastante confortável no lugar onde está, cercado pelos amigos Ace e Demo e pela rotina sem sobressaltos. O problema mora ali. Esse desenho dá ao filme uma base curiosa, já que o conflito não vem da falta de trabalho, dinheiro ou companhia, mas da recusa em abandonar uma casa que o protege de qualquer aperto. Quando Paula entra nesse espaço como isca paga, o romance carrega desde cedo um gosto de armadilha.
Tom Dey, porém, não mantém a história nesse terreno doméstico e constrangedor por muito tempo. Bicho demais, afeto de menos. A partir de certo ponto, o filme espalha no caminho chipmunk, golfinho, lagarto e mockingbird, como se toda cena precisasse de um susto físico para seguir em frente. No apartamento de Paula, Kit transforma sua guerra com um pássaro num pequeno espetáculo de irritação, barulho e desequilíbrio, e a famosa respiração boca-a-bico resume o quanto a produção prefere o absurdo imediato a qualquer observação mais fina sobre mentira, desejo ou acomodação.
Ataques e desvios laterais
Esse desvio pesa porque o filme tem bons rostos em volta do casal principal. Kathy Bates e Terry Bradshaw fazem de Al e Sue um casal de pais ao mesmo tempo carente, invasivo e disposto a qualquer humilhação para desalojar o filho, o que inclui cenas de intimidade doméstica tratadas como gag escancarada. Ninguém ali tem freio. Kit e Ace, por sua vez, acabam criando um movimento mais vivo do que o romance entre Tripp e Paula, seja pela secura dela, seja pela insistência meio tonta dele. Em vários momentos, “Armações do Amor” parece mais interessado nesses atritos laterais, no apartamento dividido e na casa dos pais, do que no encontro central que deveria sustentar tudo.
Quando a verdade sobre Paula se impõe e Tripp percebe que foi alvo de um plano armado por Al e Sue, a história precisa correr para remendar a fratura. A conversa vem tarde. Em vez de confiar na convivência que acompanhamos, nas saídas de barco, nas visitas à casa dos pais e nos pequenos gestos de aproximação, o roteiro escolhe apertar os personagens até que eles falem o necessário. É uma solução visível demais, como se o filme fechasse a porta de um cômodo porque já não soubesse como conduzir aquela reconciliação no espaço aberto onde tudo começou.
Visto hoje, “Armações do Amor” preserva com nitidez o verniz das comédias românticas de estúdio dos anos 2000, com estrelas fotogênicas, apartamentos impecáveis e conflitos embalados para não ferir ninguém por muito tempo. Ainda assim, o que permanece não é a promessa de amadurecimento de Tripp nem o vínculo construído entre ele e Paula, mas a sensação de que cada núcleo puxa a história para um lado diferente, da casa confortável de Al e Sue ao apartamento nervoso de Kit, das saídas de barco aos ataques de animais. O centro sentimental nunca some por completo. No fim, fica a imagem de um pássaro debatendo as asas num apartamento sem silêncio.
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