Em “Mensagem Pra Você”, sob direção de Nora Ephron, Kathleen Kelly (Meg Ryan), dona de uma pequena livraria infantil, se apaixona por um homem que conhece pela internet sem imaginar que ele é Joe Fox (Tom Hanks), o executivo da rede de megastores que coloca seu negócio em risco. Kathleen vive praticamente dentro da Shop Around the Corner, livraria herdada da mãe e mantida há mais de quatro décadas no mesmo bairro. Ela conhece os clientes pelo nome, organiza leituras para crianças e trata cada livro como um encontro pessoal. O problema começa quando a Fox Books abre uma megaloja a poucos quarteirões dali, oferecendo descontos e estrutura que ela não tem como acompanhar. As vendas caem, o caixa aperta e a sobrevivência do negócio vira uma preocupação diária.
Joe Fox, por sua vez, representa exatamente essa lógica de expansão. Ele administra a nova unidade com segurança, aposta na variedade de títulos e no conforto do espaço amplo para atrair público. Para ele, trata-se de crescimento e estratégia. Para Kathleen, é uma ameaça direta. Quando os dois se encontram pessoalmente, a antipatia é imediata. Ela vê nele o símbolo da padronização que engole pequenos comércios. Ele enxerga nela resistência emocional a um mercado que mudou.
E-mails na madrugada
À noite, porém, a dinâmica é outra. Kathleen liga o computador e escreve para um amigo virtual que assina apenas com um pseudônimo. Ela fala das inseguranças, da livraria, das frustrações com o noivo Frank (Greg Kinnear), sempre mais interessado em debates políticos do que em escutá-la de fato. Do outro lado, Joe também desabafa sobre sua vida e suas dúvidas, mesmo estando comprometido com Patricia (Parker Posey).
Enquanto isso, no bairro, a tensão aumenta. Kathleen tenta mobilizar clientes fiéis, reforça eventos na livraria e aposta no atendimento próximo como diferencial. Ela luta para manter a identidade do espaço, mesmo vendo o fluxo de consumidores migrar para a megaloja. A ameaça deixa de ser abstrata e passa a impactar diretamente sua renda e suas decisões.
O que torna tudo mais envolvente é que, nas mensagens, eles são honestos e gentis. Sem o peso da disputa comercial, surge uma conexão baseada em escuta e humor. Nora Ephron conduz essa troca com leveza, usando o correio eletrônico como espaço de aproximação real. A cada mensagem enviada, cresce a intimidade e também o risco de uma descoberta que pode mudar tudo.
Choques no mundo real
Joe participa de reuniões e defende o modelo da Fox Books com argumentos práticos. Ele não age como vilão caricatural; acredita no que faz. Essa nuance dá ao filme uma camada interessante. Não há maldade explícita, há interesses conflitantes. E isso torna os encontros entre os dois ainda mais tensos, porque o embate é pessoal e profissional ao mesmo tempo.
A comédia aparece justamente nesses confrontos. Trocas de farpas, comentários atravessados e olhares desconfiados criam situações constrangedoras e divertidas. O público sabe mais do que Kathleen, e essa diferença de informação sustenta boa parte do charme da narrativa. Cada conversa pública carrega um subtexto que altera a posição de ambos no círculo social do bairro.
Quando a verdade se aproxima
Em determinado momento, Joe descobre quem é sua correspondente virtual. Ele percebe que qualquer passo precipitado pode destruir a confiança construída nas mensagens. Decide, então, adiar a revelação. Essa escolha muda o equilíbrio entre eles. Ele passa a ter uma vantagem silenciosa, enquanto Kathleen continua escrevendo sem saber com quem fala.
Essa decisão não é apenas romântica; é estratégica. Joe avalia o impacto que a verdade teria tanto na relação pessoal quanto na disputa comercial. O filme evita soluções fáceis e prefere acompanhar como cada gesto interfere na autoestima, no trabalho e na forma como ambos se veem.
“Mensagem Pra Você” funciona porque entende que amor e trabalho raramente caminham separados. A livraria não é só cenário, é sustento e memória. A megaloja não é apenas concorrência, é projeto de expansão. Entre prateleiras, caixas registradoras e mensagens digitadas na madrugada, Kathleen e Joe tentam equilibrar orgulho, desejo e sobrevivência.
Nora Ephron constrói uma história sobre encontros improváveis em um momento em que a internet ainda parecia território inocente. O romance cresce no intervalo entre o que é dito e o que é escondido. E cada novo e-mail enviado redefine confiança, expectativa e risco, mantendo os dois ligados por uma tela que pode aproximar ou separar de vez.
★★★★★★★★★★




