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Wes Anderson reúne Gene Hackman, Anjelica Huston e Gwyneth Paltrow em comédia inteligente e profunda, na Netflix Divulgação / Touchstone Pictures

Wes Anderson reúne Gene Hackman, Anjelica Huston e Gwyneth Paltrow em comédia inteligente e profunda, na Netflix

Em “Os Excêntricos Tenenbaums”, dirigido por Wes Anderson e estrelado por Gene Hackman, Anjelica Huston e Gwyneth Paltrow, Royal Tenenbaum volta para casa fingindo estar gravemente doente para impedir que a ex-esposa se case e para recuperar o lugar que perdeu dentro da própria família.

Royal, vivido por Gene Hackman, já foi o centro das atenções. Carismático, irresponsável e cheio de histórias, ele abandonou a mulher e os filhos quando ainda eram jovens promessas. Anos depois, retorna com um diagnóstico alarmante e um pedido direto: quer passar seus “últimos meses” ao lado da família. O problema é que ninguém ali confia nele. Ao conseguir entrar novamente na casa, ele recupera o teto, mas não a autoridade.

Etheline Tenenbaum, interpretada por Anjelica Huston, construiu uma rotina estável sem o ex-marido. Elegante e prática, ela está prestes a se casar com Henry Sherman, o contador paciente vivido por Danny Glover. Henry não levanta a voz, não faz grandes cenas, mas ocupa o espaço com constância. A presença dele transforma o retorno de Royal em uma disputa silenciosa. Royal quer reabrir uma porta; Henry já está sentado na sala.

Filhos que cresceram cedo demais

Chas Tenenbaum, papel de Ben Stiller, virou um adulto obcecado por segurança. Antigo gênio das finanças, ele administra cada risco como se o mundo fosse prestes a desabar. Depois de uma perda dolorosa, muda-se com os filhos para a casa da mãe e impõe regras rígidas. A volta de Royal ameaça essa organização. Chas vigia cada passo do pai, exige explicações e deixa claro que qualquer deslize pode significar expulsão. A convivência vira um campo minado.

Margot Tenenbaum, interpretada por Gwyneth Paltrow, é a filha adotiva, escritora celebrada ainda na adolescência. Sempre reservada, ela parece viver à parte do barulho familiar. O retorno de Royal a força a encarar memórias que ela preferia manter arquivadas. Ele tenta se aproximar com conversas íntimas e lembranças do passado, mas Margot controla o que revela. Ao manter distância emocional, ela preserva poder dentro da casa.

Richie Tenenbaum, vivido por Luke Wilson, foi um prodígio do tênis. O brilho da juventude ficou para trás, e ele carrega no olhar um tipo de tristeza difícil de disfarçar. Royal aposta na nostalgia para reacender o entusiasmo do filho, fala de troféus e partidas antigas, tenta reanimar o herói esportivo. Richie escuta, mas não se deixa empurrar com facilidade. O reencontro cria proximidade, mas não apaga anos de ausência.

Humor como estratégia de sobrevivência

A comédia nasce da maneira como Royal tenta reconquistar espaço. Ele exagera histórias, provoca situações embaraçosas e age como se ainda fosse o líder natural da família. Em vários momentos, seu comportamento é imprudente, quase infantil. A graça está no contraste entre a seriedade dos filhos e a leveza irresponsável do pai. Cada piada bem-sucedida aproxima as crianças dele; cada excesso reforça a desconfiança dos adultos.

Wes Anderson organiza essa dinâmica com precisão visual. A casa funciona como um palco onde todos são vistos o tempo inteiro. Quando Royal ocupa o centro das cenas, parece recuperar importância. Quando é colocado à margem do enquadramento, sua fragilidade fica evidente. A forma como os personagens se distribuem no espaço deixa claro quem está ganhando terreno e quem está recuando.

Disputa por afeto e autoridade

Henry Sherman avança sem alarde. Ele conversa com Etheline sobre o futuro, mantém compromissos e demonstra estabilidade. Royal, percebendo que charme sozinho não basta, intensifica seus gestos dramáticos. Ele não diz claramente que está com medo de ser substituído, mas cada tentativa de sabotagem revela essa insegurança. Ao exagerar na encenação, ele coloca em risco a pouca confiança que começava a reconstruir.

Chas decide confrontá-lo quando as inconsistências aparecem. Margot observa em silêncio. Richie evita tomar partido. A casa, que já foi símbolo de genialidade precoce, vira cenário de acertos de contas. Cada conversa altera o equilíbrio interno: quem fala mais alto, quem impõe limites, quem escolhe permanecer.

“Os Excêntricos Tenenbaums” mistura melancolia e ironia com uma franqueza desconfortável. Não há discursos edificantes, apenas pessoas tentando negociar espaço depois de muitos erros. O filme acompanha esse embate até o ponto em que Royal precisa provar, com atitudes concretas, que merece ficar. O resultado não é uma reconciliação fácil, mas uma reorganização real de papéis, onde permanecer sob o mesmo teto deixa de ser direito automático e passa a ser conquista diária.

Filme: Os Excêntricos Tennenbaums
Diretor: Wes Anderson
Ano: 2001
Gênero: Comédia/Drama
Avaliação: 9/10 1 1
★★★★★★★★★
Fernando Machado

Fernando Machado é jornalista e cinéfilo, com atuação voltada para conteúdo otimizado, Google Discover, SEO técnico e performance editorial. Na Cantuária Sites, integra a frente de projetos que cruzam linguagem de alta qualidade com alcance orgânico real.