O cinema contemporâneo parece ter redescoberto o plano-sequência, recurso técnico-narrativo em que o espectador tem a sensação de ser tragado para dentro da cena, independentemente da sua vontade. Produções dos anos 1970 e 1980, a exemplo de “Uma Mulher sob Influência” (1974), dirigido por John Cassavettes (1929-1989), e “Hannah e Suas Irmãs” (1986), de Woody Allen, funcionam como uma espécie de torvelinho que surgem na tela e cuja força centrípeta, descomunal e inimaginável dada a leveza apenas sugerida de seus respectivos enredos, sugam o público, igualzinho nos desenhos animados. Em comum, mais do que a intromissão da câmera na vida de quem assiste, os filmes de Cassavettes e Allen se utilizam de muita gente num mesmo quadro, diálogos lançados como projéteis por uma metralhadora e a confusão intencional do discurso, que se apresenta de um jeito, mas deseja passar uma ideia diametralmente oposta.
“Pieces of a Woman” (2020), primeiro filme em língua inglesa do diretor húngaro Kornél Mundruczó, também parte de um plano-sequência milimetricamente estudado e da mesma forma que nos antecessores, as falas são disparadas a sangue frio sobre o público — e o mais contraditório (e genial) é que nenhuma é por acaso; tudo o que é dito na trama, em especial nos primeiros 25 minutos, tem uma razão especial de ser. A única diferença é presenciarmos aqui os momentos mais singulares e fundamentais da vida de um casal, acompanhado por mais uma mulher, três atores que preenchem uma imensidão de emoções.
Parto em casa e ruptura
Esses instantes são os mais significativos da vida de Martha Weiss, incorporada com total entrega por Vanessa Kirby, e seu marido, Sean, vivido por Shia LaBeouf, mas logo se vai ver que não serão os mais felizes — malgrado tivessem de sê-los, em a vida respeitando a lógica dos acontecimentos. Martha está dando à luz a filha deles, Yvette, em casa, assistida pela parteira Eva, de Molly Parker, mandada em substituição à obstetra, que tivera um compromisso de última hora. Os três se deslocam num périplo agônico por sala, quarto e banheiro, dizendo as coisas desconexas que se deve dizer em circunstâncias semelhantes, Martha mais do que os outros dois, decerto por causa da dor. Elogia a beleza do marido — lance de mestre do roteiro, uma vez que a protagonista está no auge de sua feminilidade e, ao mesmo tempo, de todo vulnerável a ele —, faz uma pergunta sobre os passos seguintes do procedimento, reclama do desconforto físico, urra. Os intervalos entre uma e outra contração se espaçam cada vez menos, a bolsa estoura, a pulsação cardíaca da criança acelera, o bebê é tirado do ventre da mãe. Martha mal consegue sentir o cheiro que a filha exala e Eva nota que alguma coisa vai mal. A recém-nascida não se comporta como alguém que logo terá de se haver com a dureza do mundo, não chora, não esperneia. A doula a examina: Yvette está morta, e junto com ela começa a morrer também aquela pequena família e o amor entre Martha e Sean.
Mãe, culpa e desintegração
Martha, além de enfrentar o maior drama de sua vida, terá de encarar a mãe, Elizabeth, da veterana Ellen Burstyn, seu verdadeiro carrasco. Elizabeth veio ao mundo em meio à barbárie nazista, enquanto seus pais ainda tentavam emigrar para os Estados Unidos fugindo da perseguição homicida de Adolf Hitler (1889-1945) aos judeus, o que degringolou no Holocausto, o maior genocídio da história. Não demora para que reste implícito que Elizabeth atribui o insucesso do parto de Yvette à própria Martha, evidenciando o relacionamento tóxico que as duas mantêm desde há muito. Não há sororidade possível no drama de Mundruczó: na primeira ocasião em que se reúnem após a tragédia, no cemitério, encomendando a lápide da menina, a mãe enlutada tem um entrevero com o marido por causa da grafia do nome da criança. Sean prefere não continuar a contenda, mas é justamente Elizabeth quem estica a corda, dando razão ao genro. Algum tempo depois, num jantar na casa de Elizabeth, dessa vez com a presença da irmã de Martha, Anita, personagem da comediante Iliza Shlesinger, e outros parentes e amigos, a anfitriã sugere a intenção de pagar para que Sean deixe a filha, o que não seria de todo mau. Em busca de orientação jurídica a fim de mover uma possível ação contra a parteira — iniciativa que a personagem central descartara de saída —, o marido de Martha procura Suzanne, a prima advogada, papel de Sarah Snook. Valendo-se da rejeição da mulher, Sean se permite seduzir por Suzanne, para quem chega a se declarar no encontro na casa de Elizabeth. Equilibrando-se entre a vontade de sucumbir à loucura e resistir e procurar um motivo qualquer para seguir em frente, Martha se desintegra ao ponto de nem ostentar mais qualquer coisa de humano. Torna-se uma criatura algo transcendental, como um espectro que ronda a matéria que lhe compunha, ansiando por voltar àquele corpo, impressões que a audiência só nota graças ao espantoso talento de Vanessa Kirby. O instinto de autopreservação, contudo, fala mais alto.
A maçã e a alegoria final
A metáfora da maçã, símbolo judaico-cristão que evoca a tentação, o fascínio do mal, mas também a fome de autoconhecimento, de sabedoria — além de amor e fertilidade, esses dois certamente os mais desejados por ela — é usada com lirismo por Mundruczó, que a partir de então passa a construir uma alegoria sublime. Como renascida do inferno da morte, Martha tem uma iluminação e se aprofunda em temas correlatos a jardinagem e cultivo doméstico de árvores frutíferas. Empenhada em se recompor do choque e deixar para trás um pouco de seu trauma, extrai as sementes da fruta e as faz germinar, cada qual no seu compartimento, como num berçário. À luz do “Gênesis” bíblico relido, no qual Martha encarna Eva, a primeira mulher da Criação, pena pelo mundo, tem sua filha à custa de dor e sacrifício, perde-a para a morte, e é, enfim, readmitida no Jardim do Éden, o diretor fala da resiliência de sua protagonista, que, na medida do possível, supera sua tragédia. A sequência final coroa a natureza épica da história: Martha Weiss é um dos retratos mais pungentes de um personagem em sua condição mental, uma mulher despedaçada que, paulatinamente, volta a se refazer, fiando-se na beleza maldita da vida, a mãe austera, mas zelosa, que não raro nos impinge um castigo muito maior do que nossas faltas, mas sempre empenha uma promessa de felicidade.
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