Autor: Mara Luquet

O dinheiro ou a vida

O dinheiro ou a vida

A viagem havia sido paga com muita antecedência. Quando entrasse no avião, tudo já estaria devidamente quitado ao feitio dos guias de finanças pessoais: passagens, estadias, passeios e refeições. Ela, sua parceira no gosto por planejar e economizar, ganhara dele a viagem, o hotel e todas as despesas pagas. Finalmente conheceriam a Chapada Diamantina e, para maior deleite, sem nenhuma dívida a lhes perturbar enquanto estivessem caminhando pelas trilhas, subindo e descendo montanhas. Só esforço físico, nenhum sofrimento financeiro que lhes tirasse o sono. O encanto da viagem estava em muito caminhar e depois repousar o corpo como recompensa.

Tudo à vista

Tudo à vista

Temia prestações, crediários. Tudo que comprava pagava à vista. A bem da verdade, não comprou muita coisa na vida. Não era movido a impulsos; pensava mil vezes e, quase sempre, desistia do negócio. Estavam casados há mais de três anos e não tinham, nem mesmo, uma mesa de jantar. O apartamento, que era grande, teria que ser mobiliado aos poucos, sem prestações pelo caminho.

Rico e preocupado

Rico e preocupado

Como de costume, sentou-se à mesa de seu escritório e conferiu, no computador, suas planilhas. Não havia dúvida, era um homem rico. Tinha muito mais que o necessário para viver, confortavelmente, mais de uma vida. Mas não conseguia abandonar a dura rotina a que se impôs. Desde a falência da mal gerida empresa do pai, adotou uma vida espartana.

Um refúgio em Jane Austen

Um refúgio em Jane Austen

Ele lhe disse poucas e boas. Não economizou palavras. Ela ouvia, cabisbaixa, enquanto lágrimas lhe corriam sobre a face. No entanto, ele se mantinha impávido; era só certeza e arrogância. Disse-lhe que nunca teria nada na vida; que era irresponsável; que não tinha respeito ao dinheiro. Desfiou o costumeiro rosário de acusações.