Autor: André J. Gomes

Da beleza imunda, fedorenta e luxuosa que nasce à noite no meio do lixo

Da beleza imunda, fedorenta e luxuosa que nasce à noite no meio do lixo

A esta hora da noite, o trânsito na cidade definha. Um a um, os carros seguem para longe dali, tragados por seus destinos em ruas, vielas, garagens. O mundo adormece na intimidade de cada casa, a cidade aquieta, esgotada, apagando suas luzes por dentro. Aqui fora, o caminhão branco, sujo e forte avança lento, furioso pela rua repleta dos entulhos do dia, seguido de perto por dois homens que correm de uma calçada a outra, recolhendo os enormes sacos de plástico negro para lançá-los ao estômago imenso do rinoceronte de aço e rodas que avança esganado e barulhento.

Do risco de ser gentil em tempos grosseiros

Do risco de ser gentil em tempos grosseiros

“Sobe”, grita o homem correndo para o elevador lotado, prestes a iniciar sua viagem rumo ao topo do prédio comercial de 20 andares. A essa hora da manhã, perder o elevador significa chegar atrasado ao trabalho, então ele corre mais rápido. Nenhuma das tantas pessoas já embarcadas faz qualquer esforço para ajudá-lo em sua empreitada. Ninguém segura a porta de aço, ninguém aperta o botão que retarda a partida da nave, ninguém sequer lhe dirige um olhar de solidariedade e torcida, “corre, pobre diabo, você vai conseguir, eu acredito em você”. Nada. Ninguém.

Casamentos são para sempre — até que a vida os separe

Casamentos são para sempre — até que a vida os separe

Em nome da felicidade dos casais, as cerimônias matrimoniais religiosas deviam ser radicalmente reconfiguradas. Tá aí uma medida para anteontem. A ladainha do “até que a morte os separe” é uma incorreção flagrante, um equívoco. No mínimo, uma brutal ingenuidade. Porque a morte não separa nada! Ao contrário, com duas ou três exceções, alguém que enviúva fica ligado para sempre à lembrança do cônjuge que partiu. Ser viúvo é uma espécie de tatuagem emocional, um estigma indelével, uma cicatriz que até se pode amenizar, mas nunca se apaga totalmente.

O melhor e o pior do Facebook. Ou a vida como ela não é

O melhor e o pior do Facebook. Ou a vida como ela não é

O almoço termina e é hora de dar um passeio. Fazer a digestão. Não na praça, não há mais praças. Ali mesmo, à mesa. É tempo de passear os olhos por sua “linha do tempo”. Cachorro perdido, gente desaparecida, cachoeira, pôr do sol, frase feita, cerveja na praia, piada velha, indireta para ex-namorado, fulana mudou foto do perfil, pose com celular no espelho, Clarice Lispector, Mussum, cachorro desaparecido, gente perdida, “diga não ao preconceito” aqui, “mais amor, por favor” ali, “todos contra a homofobia” acolá.

A saga do andarilho cibernético

A saga do andarilho cibernético

Depois do novo-rico, do novo-classe média e do cada vez mais comum novo-pobre, mais uma categoria se tornou clássica em terras que Cabral descobriu, Caminha divulgou e Bill Gates incluiu digitalmente: a do novo-enfezado. Segundo os especialistas em distúrbios de personalidade, isso acontece principalmente porque, como as pessoas que apresentam intolerância a lactose, glúten e outras substâncias, o novo-enfezado padece de uma severa alergia a tudo que contradiga o que seus heróis e dominatrixes determinam como bom e ruim.