Vencedor do Oscar 2021, o filme que consagrou Mads Mikkelsen está na Netflix Vitrine Filmes / Synapse Distribution

Vencedor do Oscar 2021, o filme que consagrou Mads Mikkelsen está na Netflix

A partir de uma certa idade, a vida parece mover-se em uma frequência distinta e melancólica, relegando gradualmente ao esquecimento tudo aquilo que antes acreditávamos ser fonte de satisfação. Alguns resistem a essa invasão, enquanto outros se rendem, sem ver saída, mas, independentemente da postura adotada, permanece a sensação de que a existência escapa, deixando para trás algo entre a teimosia e a própria morte. Nesse contexto, toda forma de ajuda é bem-vinda, e métodos pouco convencionais ganham ares de ciência — pelo menos até que uma ideia melhor surja para resolver problemas que não podem esperar.

Muitos de nós já nos vimos refletidos nos protagonistas de “Druk — Mais uma Rodada”, a narrativa intimista dirigida por Thomas Vinterberg, onde o dinamarquês examina a vida de quatro amigos, todos professores do ensino médio, que, em uma busca quase proustiana, tentam recuperar um tempo perdido. Durante essa jornada, Vinterberg e o co-roteirista Tobias Lindholm conferem um verniz científico a uma descoberta perigosa (e excitante) feita por um dos amigos, que, embora inicialmente tratada com moderação cartesiana, acaba resultando em um caos social de proporções imprevisíveis.

Na abertura do filme, adolescentes participam de uma competição de tolerância ao álcool, que culmina em uma farra no metrô, onde um deles algema um segurança a uma barra de ferro. A narrativa ágil de Vinterberg salta de uma ação para outra, permitindo que o espectador preencha as lacunas, e o incidente é levado ao conselho de classe da escola onde o garoto estuda.

Enquanto isso, nas salas de aula, os professores ministram lições pouco inspiradoras, mas Martin é quem demonstra maior angústia, talvez porque seu mal-estar já estivesse prestes a transbordar. Mads Mikkelsen empresta ao protagonista uma dose de abatimento que todos nós experimentamos em algum grau em diversos momentos da vida. Martin é o mais afetado, a ponto de mal conseguir sair da cama, mas seus três amigos também enfrentam crises de meia-idade que impactam suas carreiras. Nenhum deles consegue mais sentir prazer em compartilhar com os alunos as inquietações que antes se transformavam em novas respostas e dúvidas, até que uma informação curiosa lhe dá uma fagulha de esperança.

Um estudo revela que o corpo humano possui uma deficiência congênita de álcool, e Martin conclui que essa injustiça da natureza precisa ser corrigida. Embora seja professor de história, ele vê na pesquisa a solução para seus problemas cada vez mais intrusivos, e decide manter sua taxa de álcool no sangue em 0,05% em todas as ocasiões, inclusive — ou principalmente — durante o expediente. Ele compartilha essa descoberta com os amigos, e a transformação de Mikkelsen é, sem dúvida, o ponto alto de um filme que assume um tom burlesco e caricato, ao qual Vinterberg reserva um final ao mesmo tempo messiânico e jocoso. Exatamente o que doses exageradas de álcool podem fazer conosco.


Filme: Druk — Mais uma Rodada
Direção: Thomas Vinterberg
Ano: 2020
Gêneros: Comédia/Thriller
Nota: 9/10