Comédia italiana protagonizada pelo filho de Vittorio De Sica, que acaba de chegar à Netflix, te fará lembrar Federico Fellini Loris T.Zambelli / Netflix

Comédia italiana protagonizada pelo filho de Vittorio De Sica, que acaba de chegar à Netflix, te fará lembrar Federico Fellini

“O Preço da Herança da Vovó”, sequência do engenhoso “O Preço da Família” (2022), continua a se valer das pequenas tragédias familiares que assolam gente rica, pobre ou remediada, da Sibéria a Catolé do Rocha, qualquer que sejam a fé, a cultura ou a religião.

Logo na passagem que rompe “Anna Kariênina” (1877), um dos romances fundamentais da literatura de todos os tempos, Liev Tolstói (1828-1910) fulmina quem ousa lê-lo dizendo que as famílias venturosas são muito parecidas umas com as outras; as colhidas por fracassos os mais aniquiladores, por outro lado, essas sim fazem da desdita sua própria natureza, o que as compõe e as torna únicas.

Tal como já fizera em seu trabalho anterior, Giovanni Bognetti captura a essência vesana de um casal, que consegue inspirar a piedade dos filhos, a exemplo do que se assiste em “O Preço da Família”, e agora se une no delirante plano com que intentam botar a mão numa fortuna que não lhes pertence, sendo obrigados a mostrar que são capazes de superar qualquer limite e dar cabo de um usurpador muito sagaz.

Protagonizado por Christian de Sica, o filho do grande Vittorio (1901-1974), o longa de Bognetti tem muito do calor afetuoso das histórias de uma era decididamente morta, lembrando as chanchadas de Federico Fellini (1920-1993), sobretudo “E La Nave Va” (1983) e “Amarcord” (1973), nessa ordem. Carlo, o personagem de De Sica, e Anna, a esposa interpretada por AngelaFinocchiaro, dão a entender que estão bem, não se importam mais com a maldisfarçadaindiferença dos filhos, Emilio e Alessandra, de Claudio Colica e Dharma MangiaWoods, que também parecem ter, afinal, tomado um rumo. Tudo nesse quarteto nada fantástico é como uma encenação sem hora para acabar, e só mesmo em Giuliana ainda pulsa uma gota de verdade, por mais que seu comportamento escandalize as suscetibilidades da família e sua moral elástica. 

O diretor-roteirista elabora o mote central, os seis milhões de euros recebidos por Giuliana de uma tia, de modo a extrair o máximo de estranheza que consegue. Nunzio, o namorado da matriarca, já teve um caso com Anna, por meio da qual chega a sua mãe num expediente pleno de manobras repulsivas. 

Fioretta Mari e NinniBruschetta materializam os lances mais absurdos e divertidos do longa, ela como um ex-atriz convencida a tornar aos palcos para ancorar uma versão feminista de “O Velho e o Mar” (1952), de Ernest Hemingway (1899-1961), ele incorporando o amante sempre disposto às mais saborosas loucuras, como se mudar com a companheira para Jericoacoara, no litoral do Ceará, em cujas dunas passariam o resto de seus dias com o amante fazendo amor. Como se vê na iminência do desfecho, ninguém realiza sonho algum, e “O Preço da Herança da Vovó” é uma alusão de que a voz cava das ruas está certa quando diz que nem tudo que reluz é ouro. 


Filme: O Preço da Herança da Vovó
Direção: Giovanni Bognetti
Ano: 2024
Gênero: Comédia 
Nota: 8/10

Giancarlo Galdino

Depois de sonhos frustrados com uma carreira de correspondente de guerra à Winston Churchill e Ernest Hemingway, Giancarlo Galdino aceitou o limão da vida e por quinze anos trabalhou com o azedume da assessoria de políticos e burocratas em geral. Graduado em jornalismo e com alguns cursos de especialização em cinema na bagagem, desde 1º de junho de 2021, entretanto, consegue valer-se deste espaço para expressar seus conhecimentos sobre filmes, literatura, comportamento e, por que não?, política, tudo mediado por sua grande paixão, a filosofia, a ciência das ciências. Que Deus conserve.