A história de amor na Netflix que vai te causar arrepios

A história de amor na Netflix que vai te causar arrepios

Se os homens não fossem responsáveis por suas atitudes; se não houvesse mesmo nada que pudéssemos fazer quanto a garantir que nossas escolhas se voltassem ao bem comum; e, pior, se ninguém jamais escolhesse nada e a vida apenas seguisse seu próprio rumo, por mais que nos esforçássemos; se até mesmo estar no mundo se resumisse a uma cornucópia sem fim de privações, “Um Amor Após a Vida” fizesse, talvez, algum sentido.

Harry Greenberger aposta num nonsense particularmente irracional a fim de defender uma ideia decerto criativa, mas cheia de brechas lógicas profundas demais, sinalizando para uma compreensão muito idiossincrásica do existir, da morte, do amor e da urgência da humanidade quanto a se pegar ao mais humano dos sentimentos para se ter uma chance, por mínima que seja, de salvar-se. Greenberger flerta com o ridículo e muitas vezes deixa que a história se retenha nas tantas imagens delirantes para que seu texto vá adquirindo firmeza. Não obstante, a falta de traquejo com assunto tão delicado compromete o todo.

Uma vez que o pão vira torrada, ele nunca mais volta a ser o pão que era. Essa é a primeira frase de um longo passeio retórico sobre a comédia de erros que é a natureza do homem, a mais desgraçada das espécies da Criação. Michael, o anti-herói encarnado por Andy Karl, compõe uma longa aparitmese, que principia com comentários quanto ao melhor caminho a se tomar, e acaba numa hipótese pouco cortês sobre uma menina ruiva. O diretor-roteirista movimenta com mais força o eixo de seu relato conforme Michael se dá conta de que seu tempo no plano da matéria chegou mesmo ao fim, e não resta-lhe nenhuma alternativa se não lidar com essa nova realidade, a despeito de tudo quanto pensa ainda ter por aproveitar na Terra.

Ele não sabe exatamente como foi sua morte, mas é certo que agora encontra-se um lugar nada acolhedor em sua exoticidade fria onde tudo funciona sem margem para escorregaduras e nenhuma regra pode ser rompida ou sequer adaptada. Essa sensação de crescente desconforto, visual inclusive, torna-se um intolerável suplício com a fotografia de Christopher Walters quase a estourar a cena com tons excessivamente claros durante a entrevista da nova alma penada com Scarlett, espécie de bedel do além-túmulo interpretada por Christina Ricci. É visível o empenho da dupla em alavancar a história, mas o exaustivo lero-lero fundado sobre a irrelevância de nossas decisões frente ao caos intangível do universo, como se não tivéssemos capacidade de nos levantar contra o que não nos agrada e embarga-nos o caminhar, não ajuda.

No terceiro ato, Greenberger parte para o tudo ou nada sacando pílulas do que Wim Wenders apresenta em “Asas do Desejo” (1987) e as amalgama com boa dose “Ghost” (1990), de Jerry Zucker, sem que o romance de Michael e Honey Bee, a mocinha atormentada de Nora Arnezeder, se pareça com um ou outro. No fim, não se sabe o que “Um Amor Após a Vida”, na Netflix, quis dizer ao cabo de mais de duas horas, restando ao espectador imaginar, imaginar, imaginar.


Filme: Um Amor Após a Vida
Direção: Harry Greenberger
Ano: 2020
Gêneros: Romance/Comédia
Nota: 7/10