A joia rara na Netflix que é um diamante para olhos, ouvidos e alma Divulgação / Les Films Primatice

A joia rara na Netflix que é um diamante para olhos, ouvidos e alma

A sensibilidade dos artistas parece estar sempre alguns tons acima do que pode sentir a vã filosofia dos simples mortais. Indivíduos dotados de um talento impensável para a imensa maioria dos outros seres humanos, escritores, portas, pintores e, sobretudo, músicos certamente vivem numa outra dimensão, revestidos de um halo dourado que os impede de se contaminar com a imundície do homem vulgar, ainda que sua razão de existir seja dar o alento possível para esse homem. Mas e quando a bolha se rompe?

O amor para gente como os artistas, tão suscetível à influência das emoções, pode ser perigoso, tanto mais quando, por um ou outro motivo, se acaba. Essa poderia ser o resumo de “A Última Nota” (2019), em que o canadense Claude Lalonde se debruça sobre a vida de Henry Cole, vivido com toda a dignidade por Patrick Stewart, que compõe o retrato muito bem-acabado de um pianista obrigado a encarar o fim. A morte da mulher desencadeia para ele uma pletora de outros ciclos que também se aproximam do fechamento: sua carreira, instável por natureza num segmento tão específico, experimenta pela primeira vez o abalo de um bloqueio criativo que o desespera, e como tudo o que há de pior na vida, o círculo vicioso se retroalimenta, até que surge uma possibilidade de reversão do quadro.

Para muitos, soa completamente inverossímil o amor na velhice, ainda mais se uma mulher quase 40 anos mais nova se vê envolvida por um homem que, por mais interessante que seja, faz questão de deixar claro que não pode lhe corresponder o sentimento, a despeito da idade — ou seja, uma ter 41 anos e o outro, 79, passa longe do problema central da relação. A Helen Morrison de Katie Holmes é o contraponto exato para a amargura atávica de Cole. Morrison, repórter da revista americana “The New Yorker”, inicialmente centrada apenas em escrever um perfil sobre um dos maiores virtuoses em atividade, percebe que a admiração pelo músico rapidamente cede lugar a um afeto maior, à medida que consegue furar o cerco em torno dele e verdadeiramente penetra em sua intimidade, não sem alguma resistência de Cole. A hipótese do par romântico entre os personagens de Stewart e Holmes vai caminhando num fio tênue ao longo da narrativa, não se podendo nunca ser taxativo quanto à sua concretude. Ao passo que Morrison sinaliza que está, sim, irremediavelmente seduzida pelo charme torto do pianista, este se mostra cada vez relutante, alheio, até apático em muitos momentos, mesmo quando, no banco de um zoológico, a jornalista se declara e tem como resposta alguns esgares de surpresa e um agradecimento protocolar, seguidos de um silêncio perturbador.

Os silêncios, aliás, são uma parte fundamental em “A Última Nota”, bem como os takes de Nova York feitos de cima, evidenciando que esses escapes narrativos terão cada vez mais lugar na indústria, uma vez que equipamentos como drones substituem parafernálias exponencialmente mais caras e de mais difícil instalação e logística mais complexa, a exemplo de gruas e helicópteros — e é de se questionar até onde o empenho por prender o espectador mediante o uso indiscriminado da tecnologia é benfazejo para o cinema. Nunca é demais voltar, de quando em quando, ao que foi apresentado por diretores do quilate do britânico Compton Bennett (1900-1974), cujo “O Sétimo Véu” (1945) aplica vale, ainda que colateralmente, o argumento da música para falar de amor e de seus conflitos, com os papéis trocados. No filme de Bennett, Nicholas, o pianista de James Mason (1909-1984), é quem ajuda Francesca, de Ann Todd (1909-1993), a superar um trauma, e tanto numa como na outra história, o sentimento amoroso não se completa.

É patente na trama o desinteresse pela personagem de Holmes, que serve de mera escada para Stewart. Não se sabe quase nada acerca de Morrison — se já fora casada, se tem filhos, se já sofrera por amor, se é feliz no trabalho, indagações que justapostas ao que já se conhece a respeito do músico, poderiam enriquecer muito o arco dramático dos personagens, e o filme como um todo. Quando a repórter passa a acompanhar de mais perto a turnê de Cole pela Europa, viajando com o staff comandado pelo empresário do pianista, Paul (de um sempre tedioso Giancarlo Esposito), imagina-se que “A Última Nota”, vá, enfim, dar a guinada por que se anseia. Esse desejo, e mais, essa torcida do público se perde em meio à indecisão do protagonista, agravada pela má condução da subtrama por Lalonde. Esse seria o momento da virada para a personagem de Katie Holmes que, repita-se, tem o talento desperdiçado. Desde que surgiu no cenário artístico, no drama “Tempestade de Gelo” (1997), de Ang Lee, e se tornou mundialmente famosa graças ao seriado teen “Dawson’s Creek”, no ano seguinte, Holmes vem se burilando como atriz, contando com o auxílio de diretores atentos, como Karen Leigh Hopkins, com quem compôs uma bela parceria em “A Justiceira” (2014), e apresentando uma Mary Meadows tocante em sua flutuação emocional. O trabalho de sua vida, até agora.

O fato dos louros de “A Última Nota” terem sido todos reservados a Patrick Stewart não chega a se constituir um problema incontornável na produção. O veterano faz o espetáculo acontecer com a mestria que o caracteriza, e é uma experiência revigorante — para o público e, certamente, ainda mais para o ator — verificar seu desempenho em tipos um pouco mais próximos do chão da vida, deixando de lado o fantástico de composições como o Professor Xavier, da série “X-Men” (2000), ou, mais ainda, do Capitão Jean-Luc Picard, da saga “Star Trek” (1987), primeiro na tevê, e depois eternizada na tela grande. Stewart se utiliza de uma pretensa deficiência do roteiro a fim de construir um grande personagem, tão ou mais mítico que nas séries de heróis. Só faltou ser dada a Katie Holmes oportunidade igual.


Filme: A Última Nota
Direção: Claude
Ano: 2019
Gênero: Drama
Nota: 9/10