Favorito ao Oscar 2022 e um dos filmes mais emocionantes da década acaba de chegar ao Amazon Prime Video

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Pode-se pensar que “Coda” (No Ritmo do Coração) (2021) é mais um dos tantos filmes sobre universos que seguem determinada ordem, pautados pelo amor e pela união entre pessoas que se querem bem, ainda que haja uma diferença que pode por tudo a perder. O filme da diretora Sian Heder fala disso, mas fala também de sonho, de tolerância, de emoções à flor da pele, de amor, sem ser completamente original e, mesmo assim, fugindo do clichê.

Por mais que pareça, Sian Heder não se propõe a fazer de “Coda” uma releitura de outros sucessos do gênero. Malgrado seu filme repise, sim, a fórmula segura e bem-sucedida do coming-of-age que se debruça sobre uma personagem cheia de particularidades, a história, afetuosa, prova que tem seu próprio caminho. O que Heder faz para dar a seu trabalho a natureza capaz de distingui-lo de qualquer outro semelhante é mudar a perspectiva acerca do que pode resultar dessa história, conferindo a cada um dos tipos que compõem seu enredo um jeito novo de entender que mensagem se está querendo transmitir. Aliás, mensagem é a palavra ideal para se falar de uma trama em que a comunicação anda lado a lado com o sentimento, a começar do título.

Coda é um acrônimo para “child of deaf adults” (“filho de pais surdos”, em tradução livre). Antes mesmo de receber um nome, essa já uma condição que vai acompanhar Ruby para o resto de sua vida. Interpretada com sensibilidade e perspicácia por Emilia Jones, a protagonista é uma garota de dezessete anos, talentosa, doce, que experimentou da vida um grande milagre. Nem passa pela cabeça de Ruby demonstrar qualquer atitude que ao menos sugira que não é grata, à vida, que permitiu que escapasse de uma sina que lhe era mais que natural; aos pais, com quem tem se dado às mil maravilhas, apesar dos probleminhas e problemões típicos da adolescência; e à comunidade em que vivem, que sempre lhe teve empatia. E essa passa a ser mais uma variável para explicar o caos em que sua vida pode se transformar, realidade da qual não pode nem quer se esgueirar: ninguém abdica da própria essência.

Livremente adaptado do francês “A Família Bélier” (2014), dirigido por Eric Lartigau, “Coda” igualmente partilha de outras produções que registraram a surdez como impedimento, em maior ou menor nível, quanto a se obter um cenário harmonioso, ou sua aparição repentina sob a forma de um desafio quase inexpugnável, e tanto pior quando se depende da audição perfeita para se ganhar a vida. “O Som do Silêncio” (2020), de Darius Marder, toca o assunto de maneira surpreendentemente madura, concisa, até científica em boa proporção, ao expor a agonia de Ruben Stone, o baterista vivido por Riz Ahmed que fica progressivamente surdo devido às descargas excessivas e constantes de ruído com que o trabalho o obriga a lidar todos os dias. Como se vê, definitivamente o argumento defendido no roteiro da própria diretora não é nenhum portento à genialidade, mas “Coda” tem seus pulos do gato, e o maior deles quem dá é o elenco. Se em “A Família Bélier” quase todos os atores são ouvintes — e “O Som do Silêncio” nem pode fazer parte dessa equação, uma vez que a deficiência do protagonista é adquirida e, portanto, só se manifesta a dada altura da história —, à exceção de Luca Gelberg, no filme de Heder acontece o inverso: Jones é a única não surda numa equipe invulgar, que reúne Marlee Matlin, ganhadora do Oscar por “Filhos do Silêncio” (1986), levado à tela por Randa Haines, Troy Kotsur e Daniel Durant, que, mesmo sem usufruir do mesmo prestígio profissional de Matlin, mostram a que vieram e entregam um desempenho cujo realismo impressiona.

A Ruby de Jones é um capítulo à parte. Prestes a concluir o ensino médio, é comovente o ar de desamparo da garota frente às tantas decisões de que terá de se ocupar em breve. Por mais que saiba que pode contar com o apoio da família, a personagem sente que não teria dos pais a orientação mais imparcial quanto a tomar o rumo que julgar mais conveniente para sua vida, em especial se isso implicar em deixar Gloucester, cidadezinha que integra o Cabo Ann, a nordeste de Massachusetts. Ali, ela se acostumou a trabalhar desde cedo, também servindo de intérprete aos pais e ao irmão. A família tem um barco de pesca e a rotina de Frank Rossi, o pai interpretado por Kotsur; Leo, o irmão vivido por Durant; e Jackie, a mãe, de Matlin, é árdua (Heder é hábil em fazer com que o espectador absorva a dureza por trás daquelas vidas), e a de Ruby é ainda mais exaustiva, já que tem de estar presente em todas as situações em que possam carecer dela. Reuniões de negócios, encontros com os vizinhos e consultas médicas dos parentes são compromissos inarredáveis para ela, quando em muitas ocasiões ela só queria ter preocupações de uma garota comum, sem mencionar o cotidiano na embarcação, onde sempre deve haver um ouvinte, para interpretar os sinais sonoros e os avisos da guarda costeira. Além, por óbvio, de defender sua família da maldade alheia, cuja sombria nunca deixou de os rodear.

A reviravolta de “Coda” é tão singela quanto potente. Ruby descobre que tem um talento musical raro, o que lhe confere, finalmente, uma identidade. Como se se revelasse em sua natureza algo só seu, de que seria cruelmente injusto abrir mão — consigo mesma, inclusive —, a personagem de Emilia Jones está decidida a concretizar esse sonho, e a matrícula na Berklee College of Music de Boston, uma das instituições mais conceituadas do mundo em educação musical, é o passo decisivo, e apenas o primeiro obstáculo. Os horários de seus ensaios não são compatíveis com as atividades na pequena empresa dos pais e para tornar as coisas ainda mais intrincadas, surge em seu caminho Miles. O personagem de Ferdia Walsh-Peelo, um colega por quem se interessa e que a admira em segredo, é mais um estímulo a empurrá-la para a vocação que se lhe impõe, ao passo que, por essa razão, começa a imaginar que as aulas pudessem ser só um capricho, a que o primeiro amor trata de imprimir uma fachada de vital importância, de alguma coisa sem a qual não seria feliz. Tudo sempre muito subjetivo.

Eugenio Derbez é a nota dissonante no grupo coeso de “Coda”. Seu personagem, o professor Bernardo Villalobos, macula a naturalidade com que o filme vinha sendo conduzido; seu texto, forçado, não colabora, e o resultado impacta o todo em alguma medida, por mais que se deseje relevar o mau passo em favor de um filme cativante, pleno de lições e de sutileza ao lidar com um tema árido, tratado com leveza que nunca descamba para o humor grosseiro, caricato, sem os estereótipos e as piadinhas sobre surdos que infestam certas histórias. “Coda” é, primeiramente, uma história de gente comum, simples, que nem se lembra de imperfeição alguma quando tem de trabalhar, e, claro, é também uma história que suscita a fantasia, que fomenta o sonho e a necessidade de sonhar. Bem ao gosto da Academia.


Filme: Coda (No Ritmo do Coração)
Direção: Sian Heder
Ano: 2021
Gênero: Drama/Coming-of-age
Nota: 9/10