Literatura de merda

Literatura de merda

Será preciso muita paciência para ler. As coisas fogem um pouco do controle depois que se enche a lata de álcool. Não estávamos exatamente bêbados, mas, certamente, embriagados de felicidade. Ainda estávamos ali, sãos e salvos; mais salvos do que sãos, é bem verdade. Gozávamos de uma loucura controlada. Refletíamos sobre o terrível período de isolamento social compulsório. Apesar daquele tipo de medo que jamais sentíramos, havíamos sobrevivido a uma pandemia que perdurara por quase dois anos, uma praga impensável que tinha deixado de luto o planeta, de cabo a rabo, de mamando a caducando; mais caducando do que mamando, diga-se de passagem.

Era a primeira vez que nos reuníamos desde que o governo local tinha decretado o fim do lock down. Ainda estávamos meio lock, meio down. Nada que bebida, música e sexo — não necessariamente nessa ordem — não resolvessem. Se Jesus tinha transformado tonéis de água em vinho, por que não haveríamos de transmutar a tristeza em alegria? Foi exatamente o que fizemos. Chutamos o pau da barraca; alguns o chuparam, o que se há de fazer, assim é a natureza das coisas. Brincadeiras às favas, havia muita ansiedade represada e afeto enrustido. Fazia tempo que não nos abraçávamos com tanto desvelo. Estávamos colados. Transparecia o desejo inominável de trespassar os poros mutuamente, a pretensão inconteste de adentrar por osmose uns nos outros, de fundir fraternalmente a matéria viva das carnes, como se fosse possível moldarmo-nos num só corpo. Pulsávamos. Vibrávamos. Estávamos vívidos como uma manhã de sol. Éramos sobreviventes da peste, algo para se contar aos netos, se ainda houvesse amanhã.

À certa altura da resenha, a conversa descambou de tal forma que já se falava sobre assuntos jocosos, hilários e inconcebíveis, como — vejam só — os intestinos. Nunca pensei que fosse conversa plausível numa confraternização. Abriram-se as caixas pretas. Quem ia ao banheiro em dias alternados. Quem ia todo santo dia, como se fosse um reloginho — um reloginho de merda, convenhamos. Quem vivia enrolhado e só desentupia às custas de reza brava, de Lacto-Purga ou quando Deus dava bom tempo. Por falar no tempo, dei uma espiadela no relógio de pulso que há séculos não usava. Marcava trezentos e cinquenta fios de cabelo. Parecia a hora certa de cair fora. Só que não.

Estava tão bom. Estava tão leve. Estava tão divertido. Estava tão bobo. Alguém me saiu com a pérola de que as confidências colo-proctológicas, a despeito de soarem abjetas, eram mais do que naturais e comuns a toda gente, uma vez que todo e qualquer ser humano normal evacuava como os pombos. Intervi fortemente, informando aos presentes que mulheres de beleza estonteante como a Scarlett Johansson possuíam asas e nunca mais fizeram uso de um vaso sanitário para aliviar as tripas, desde que adentraram na puberdade e na imaginação de marmanjos. Tomei uma vaia generalizada e achei a reação bastante natural, como um peido.

Já que era assim, partindo do pressuposto da naturalidade dos fenômenos fisiológicos, propus então que nos ativéssemos ao ronco, à apneia do sono, aos flatos, aos perdigotos, aos corrimentos vaginais e à masturbação como prática psicossocial de autoconhecimento; enfim, temas muito mais irrelevantes e claramente inadequados para serem discutidos em confraternizações de qualquer espécie. As mulheres viraram o rosto de lado e bebericaram gim com tônica. Não fazia ideia de como se chegava a Bagdá, mas, posso lhes assegurar que já estávamos a três coqueirinhos para lá do Faina, um dos lugarejos famosos mais desconhecidos do planeta depois do famigerado Ponto G. Estava lá um assunto verdadeiramente misterioso e intrigante para conversarmos: o ponto G.

Tentei mudar o rumo da prosa, mas, ninguém me deu bola. Insistia-se nas cacas. Alguém garantiu que só conseguia afrouxar a arruela se ficasse completamente nu, inclusive, sem as meias. Uma das mulheres perguntou se a gente tinha visto o desfile do Luciano Szafir na São Paulo Fashion Week. Ousado, o ator fez questão de expor a bolsa de colostomia pregada no seu abdome de tanquinho. Só para me irritar — já que eu padecia de uma relutante cinturinha de jiboia-depois-de-engolir-uma-paca — as mulheres suspiraram desbragadamente e levantaram as suas taças num brinde ao galã. Não tinha como não me emocionar e concordar com a mulherada, ainda que fosse o Luciano Szafir, um rival antigo que tinha namorado com a Xuxa no meu lugar. Depois de um longo período de internação, acometido gravemente pelo vírus da Covid-19, ele tinha dado uma banana para a morte.

Nada tinha mudado. Estava tudo ali. A beleza aparente dos corpos. A disfarçada falibilidade humana. Os temores comuns que a gente sentia, mas, raramente admitia, ainda mais, numa roda de amigos. Alguma coisa como chorar, como ficar doente, como ver a cara da morte e lhe dar bananas. Brindamos ao Luciano Szafir, às amizades longevas e à vida. E a festa prosseguiu, mesclando choro, riso e um indisfarçável contentamento por permanecermos vivos. Depois de tudo, era delicioso nos abraçarmos. A despeito dos intestinos.