Pio Vargas: há 30 anos o Brasil perdeu seu Rimbaud

Pio Vargas: há 30 anos o Brasil perdeu seu Rimbaud

É uma grande tentação comparar Pio Vargas com Rimbaud. Parece fácil e natural, quase uma obviedade. Os dois poetas foram garotos-prodígio, produzindo poesia de inegável qualidade, mesmo sendo muito jovens. A obra oficial de Rimbaud foi escrita, aproximadamente, entre seus 15 e 20 anos, a de Pio Vargas entre 15 e 25. Ambos saíram de cidades pequenas para se destacar na vida cultural de suas respectivas capitais. Os dois eram gregários, falastrões, iconoclastas e carismáticos. Compartilhavam o desprezo pelos medalhões da cultura. Foram ao mesmo tempo mestre e discípulo de poetas mais velhos, Paul Verlaine para um e Edival Lourenço para outro. Finalmente, ambos tiveram mortes precoces em função da vida de excessos. Os dois publicaram a obra-prima em vida e, de figuras incomodas, tornaram-se mitos literários póstumos.

É mesmo uma tentação. Mas é um equívoco. Um equívoco e uma injustiça. É certo que ser comparado à Rimbaud nunca será um demérito, pelo contrário. É bem mais do que boa parte de nossa numerosa fauna poética poderia almejar. Porém, se Pio Vargas for apenas e insistentemente comparado com Rimbaud, ele nunca poderá ser mais do que um “Rimbaud do cerrado”, um curioso genérico patropi. Sua personalidade individual jamais poderá ultrapassar a aparente boa intenção da comparação. Rimbaud é um monstro sagrado da literatura universal. Pio Vargas precisa ser recuperado. Já se tornou piada corrente o fato que na biblioteca pública que leva seu nome em Goiânia, capital de seu estado natal, não há todos os seus livros. Triste ironia essa do poeta estadual com estatura de poeta federal, não conseguir ser um poeta municipal.

Diagnóstico que se confirma quando lembramos que Paulo Leminski apontou Pio Vargas para sua sucessão. Morreu menos de dois anos antes dele. Houve sucessão ou vacância? Mais do que discutir o sexo dos anjos, esse tipo de questão é um verdadeiro “ofício de afagar efêmeros”. Portanto, deixemos as facilidades ensaísticas de lado. Pio Vargas, que escreveu os versos “Nenhum compêndio me compreende”, não é um problema solucionado. Não foi o Rimbaud brasileiro, tampouco o Leminski goiano, nem mesmo o Bukowski de Iporá.

Sua biografia é vaga. São poucas as informações disponíveis. Apenas alguns dados civis e uma coleção de histórias dispersas, contadas em diferentes ocasiões por seus amigos, sempre enfocando seu senso de humor demolidor, raciocínio rápido e língua ferina. O anedotário varguiano é vasto, mas precisa de um biógrafo para organizá-lo, dar-lhe forma orgânica e cronológica. Preencher as lacunas.

Pio Vargas em sua máquina voadora, 1989

O que se sabe com certeza é que Pio Vargas Abadio Rodrigues nasceu no município de Iporá, Goiás, Brasil, no dia 7 de setembro de 1964. Dia da Independência do Brasil. Consta que tinha pais severos. Recebeu pouca educação formal, tendo estudado apenas até o antigo primeiro grau na Escola Elias de Araújo Rocha. Não gostava de estudar, gostava de ler. Para isso recebeu o incentivo de dois professores. Sua “Dona-mãe-conselheira-e-confidente” Laurinda Barbalho, responsável pela educação de várias gerações de iporaenses, e Lázaro Faleiro, conhecido pelo gosto pela literatura beat. Parece que mesmo fora da escola, Pio Vargas continuou recebendo sua educação sentimental dos ex-professores, agora tutores. Por intervenção deles foi apresentado a poetas que carregaria consigo vida afora, como Drummond, Manuel Bandeira, Ferreira Gullar, T. S. Eliot, Maiakovski e, é claro, Rimbaud; além da Geração Beat.

Aos 17 anos conheceu o bancário e, então, “escritor diletante” Edival Lourenço, futuro autor do romance “Centopeia de Neon”. O interesse por livros os aproximou. Tornaram-se amigos, parceiros e, principalmente, mútuos influenciadores. Lourenço escreveu que “até hoje muitas pessoas dizem que fui uma espécie de pai literário de Pio Vargas, que fui seu orientador, a pessoa que o conectou com a poesia considerada de boa qualidade. Eu mesmo cheguei a alimentar essa ilusão por algum tempo. (…) Na verdade, se há um pai literário nessa relação, eu é que sou filho de Pio Vargas”. Com essa confissão, pretendeu dizer que o entusiasmo juvenil de seu amigo inflamou-o. Seus planos, os livros que pretendia escrever, suas altas pretensões artísticas, tiraram-no da letargia na qual as responsabilidades da vida profissional o colocaram.

Certamente, Pio Vargas não foi um jovem comum. Mas não era um proscrito. Não poetizava pelos cantos, chutando latas e escondendo versos em gavetas trancadas com cadeado. Pelo contrário, a publicação de seu primeiro livro, “Janelas do Espontâneo”, foi viabilizada pelo Movimento de Apoio à Cultura Popular de Iporá — Goiás, em 1983, o que mostra o quanto era engajado nos círculos culturais. Culturais e políticos. Foi membro do PMDB Jovem, onde, pela habilidade retórica e facilidade de fazer amigos, duas qualidades importantes em um animal político, ganhou certa projeção, chegando a dividir mesa com o Senhor-Diretas Ulisses Guimarães, presidente da Constituinte de 1988.

Pio Vargas era um “movimento”, vivia cercado de amigos. Dez, quinze, vinte de cada vez. Sabia reconhecer o quanto devia a eles. “Janelas do Espontâneo” é dedicado a seis pessoas físicas, mas “também àqueles que comungam comigo o amor à igualdade e liberdade” e “às crianças, que por tudo e, contudo, ainda conseguem acreditar nos homens!”. O livro é pródigo em agradecimentos e referências a amigos e parentes. Conta até com participações especiais. O amigo Ruy Jr. compareceu com dois poemas na abertura no volume e participou, sem conhecimento prévio, da composição a seis mãos do último, ao lado de Pio Vargas e Márcio Cedro. A técnica de escrita coletiva foi um hábito que Pio Vargas sempre cultivou. Chegou a iniciar um nunca concluído livro em parceria com Edival Lourenço, que deveria ser assinado com o pseudônimo Gaspar do Valle.

Tinha 19 anos quando lançou “Janelas do Espontâneo”. Considerado uma promessa, sua estreia chamou atenção. Abriu portas. Mudou-se para Goiânia, para trabalhar na extinta Caixego (Caixa Econômica do Estado de Goiás). Logo foi empossado como assessor geral da Secretaria de Cultura do Estado. Paralelamente, assumiu cargo na diretoria da União Brasileira de Escritores (UBE), seção Goiás. Casou-se cedo, com Edilene Naves, que chamava de uma das “naves” de sua vida.

A mudança para capital e as novas responsabilidades pessoais e profissionais não afetaram seu gosto pela boêmia. Frequentador assíduo de bares e casas noturnas, apenas começava sua doce vida felliniana. Não se acomodaria a uma pacata vida burguesa, do tipo burocrata de dia e poeta amador à noite. Não pretendia ser mais um em Goiânia. A cidade fundada como símbolo do progresso do governo do outro Vargas, o Getúlio, tinha e têm fama nacional de “fazenda asfaltada”, porém, vivia um momento de efervescência cultural, nas artes plásticas, no teatro e também na literatura. Pio Vargas queria entrar no olho do redemoinho, fazer acontecer. Escreveu que “ao contrário do Drummond, eu sempre gostei de dar autógrafo”.

Pio Vargas: Poesia Completa (Organização de Carlos Willian Leite, 2010) — edição esgotada

Promovia os mais diversos eventos, desde concursos e recitais de poesia até festivais de música. Colaborou no periódico “Espaço Livre”. Coordenou o Varal de Poesia da UBE-GO. Em parceria com o artista plástico Edney Antunes, criou o Projeto Graffiti-Poemas, espalhando murais multicoloridos, salpicados com versos, pela cidade. Além de produzir e participar como jurado, frequentemente concorria em concursos de poesia falada. Era conhecido como um ótimo recitador, sabendo dosar muito bem a entonação da voz e o ritmo dos versos.

Seu principal projeto foi a criação das Edições Divagar e Sempre, também chamadas de PN, Porranenhuma, feitas em fotocopias preto e branco, com o objetivo principal de divulgar novos valores nas letras do estado. Eventualmente, publicava textos de sua lavra. Muitas vezes dividindo autoria. Seus poemas na série PN costumavam ser àqueles aos quais considerava de difusão urgente, quase sempre em tom polêmico, comentando o momento. Um tipo de cordel goiano, politizado e semierudito. Um exemplo dessa produção é o longo poema “ódio ao 7 de setembro”, escrito em parceria com Edival Lourenço. A coincidência entre a odiada data cívica e seu aniversário acabou provocando um curioso efeito irônico. A alegre dupla de desaforados escreveu:

Não se iludam:
cada povo
tem a nova república que merece.
A perestroika
é apenas uma prima distante
que só deu certo
porque foi longe
transar com Gorbachev.
E não confundam Sarney
com a última praga do apocalipse.
Depois dele virão outros,
outros, outros, outros.
Enquanto isso, vamos armazenando
independência ou morte,
ordem & progresso,
domingão do faustão, xou da xuxa,
roberto carlos, amados & odiados
— A vida brega é uma barra! —
batistas, católicos, pentecostes
e a solidão de sermos
um povo sem igual no mundo.

Política internacional, política brasileira, monarquia musical, proselitismo religioso, domingões sonolentos, marias-chiquinhas, Dengue e Praga. Por esse fragmento, apesar da fama de transloucado e irresponsável, construída pelos bares da vida, Pio Vargas dificilmente poderia ser chamado de alienado. No panfleto original o texto está datilografado. Só podemos especular se a pouca preocupação em colocar letras maiúsculas nos nomes próprios é estilo, opção estética, imperícia com a máquina de escrever ou simples desprezo pelos donos dos mesmos. O ex-presidente Sarney mereceu seu S maiúsculo.

Peemedebista histórico, como chamou a si mesmo diante do peemedebista “pré-histórico” Ulisses Guimarães, Pio Vargas não misturou sua última praga do apocalipse com ídolos pop.

A despeito da reputação de inconsequente, Pio Vargas era cuidadoso com sua obra. Alimentava planos de estabelecer um projeto poético sólido, construído passo a passo. Sabia que precisava se preparar, lapidar o próprio talento. Consta que escreveu em alguns exemplares de “Janelas do Espontâneo” que o livro “não merece ser lido”. Autocomplacência não combinava com seu caráter ironista. Portanto, descontando a possibilidade bastante concreta de que o poeta fazia charme, essa explosão de autocrítica só pode ser interpretada como perfeccionismo.

Escrevia muito, cotidianamente, distribuindo a produção em volumes de aprendizagem como “Sabor da Palavra”, “Os Engenhos do Vão” e “Pura Púrpura”. Em 1989 publicaria o livro que marcaria sua maturidade artística: “Anatomia do Gesto”. Tinha 25 anos. A obra foi vencedora da edição de 1988 do Prêmio Bolsa de Publicações José Décio Filho, promovido pela UBE-GO em parceira com o CERNE (Consórcio de Empresas de Radiodifusão e Notícias do Estado). Foi sua obra-prima.

Obviamente é impossível saber se permaneceria sendo sua obra-prima. Artistas que morrem jovens tornam-se eternas incógnitas. Ficamos imaginando o que poderiam ter realizado se vivessem mais. O que escreveria Rimbaud se não tivesse abandonasse tudo para ir traficar armas na África? Lorca se tornaria um poeta do/no exílio se não tivesse se tornado um mártir político? Se Marlowe não brigasse naquele bar poderia ser um rival à altura de Shakespeare? O que mais poderia ter feito a soberba poeta Sylvia Plath se a artista tivesse sobrevivido à histérica clássica freudiana?

Apesar de tentadoras, essas especulações são intelectualmente desonestas, além de inúteis. Na prática, a obra de um artista fica completa no momento em que ele não pode ou não deseja mais acrescentar. O tempo de vida nem sempre é determinante nessa equação, vide o fator Salinger. A expectativa do público é sempre alta e, realmente, não sei se “O Castelo” teria ficado melhor se Kafka tivesse completado a frase.

Biblioteca Estadual Pio Vargas

O fato é que com “Anatomia do Gesto”, Pio Vargas deu seu primeiro passo para romper seu Rubicão, o Paranaíba, rio que separa Goiás do sul maravilha, Rio de Janeiro e São Paulo. Na quarta capa do livro, Paulo Leminski escreveu que: “Pio Vargas tem um ‘eu’ coletivo tão forte que chego a vê-lo muitos. De sua poesia consigo extrair a certeza do que digo, insistente: há uma geração recente que usa e abusa da modernidade, fazendo dela o principal elemento a interferir na criação. Este Pio Vargas me trouxe uma poesia fascinante que não se atrela a falsos modelos de invenção, mas flutua, inventiva, com os mais amplos e possíveis signos do fazer poético”. Descontadas as naturais e quase obrigatórias amabilidades típicas de prefaciadores, o texto de Leminski deixava entrever que Pio Vargas despontava como algo novo no cenário brasileiro. Alguém que estava sendo observado de perto.

Justamente por isso, sua morte foi notícia de destaque na imprensa. Morreu em um quarto de hotel na cidade de Turvelândia, a 218 km de Goiânia, no dia 8 de março de 1991, aos vinte e seis anos, vitimado por um ataque cardíaco. Uma meia verdade. Pudicos, os jornais da época omitiram o fato da falência do coração ter sido provocada por uma overdose de cocaína injetada direto na veia. Talvez tenha sido venerável respeito ao luto da família. Talvez tenha sido uma operação abafa. Não importa mais. O fato é que a figura de Pio Vargas era demasiadamente conhecida nos círculos letrados para passar incólume, sem julgamento público. As reações foram as mais diversas. Crônica de uma morte anunciada, diriam os moralistas: encontrou o que procurava. Quase um clichê beat, sugeriram os mais cínicos: pé na estrada, droga pesada, quarto de hotel barato.

O jornalista e compositor Carlos Brandão, amigo de copo e de versos, conseguiu sintetizar toda essa gama de sentimentos em um gesto extremo de amor e ódio. Conta que “quando o corpo do Pio já estava em Goiânia, tive a oportunidade de ficar a sós com ele. Eu dei um murro nele e fui embora. Achei safadeza o Pio ter morrido numa época em que as coisas estavam acontecendo para ele”. Apesar de indignado, acredito que Brandão desconfiava que seu amigo Vargas, assim como o outro Vargas, o Getúlio, sairia da vida para entrar na História.

Pio Vargas fechou “Anatomia do Gesto” com os versos: “deve haver uma forma / de concluir sem finalizar”. Sem planejar, foi o que fez. Deixou um livro no prelo: “Os Novelos do Acaso & O Ofício de Afagar Efêmeros”, vencedor do Prêmio Bolsa de Publicações Hugo de Carvalho Ramos, de 1990, promovido pela Prefeitura de Goiânia. A edição póstuma saiu no ano seguinte. Essa obra continuou o projeto estético iniciado em “Anatomia do Gesto”.

Mas qual projeto foi esse? Qual linha criativa relaciona o iniciante de “Janelas do Espontâneo”, o franco-atirador das Edições Porranenhuma e o poeta maduro de “Anatomia do Gesto” e “Os Novelos do Acaso”?

Pio Vargas foi poeta de muitos temas, mas alguns ele perseguiu repetidamente ao longo de sua produção. O estranhamento ao mundo, uma visão não condescendente do amor, a boêmia como resistência a mediocridade, o combate ao provincianismo, o elogio do caos, os limites do corpo e da alma e, sobretudo, a obsessão pela morte, apontada às vezes como solução. No poema “Liquidação”, de “Janelas do Espontâneo”, encontramos quase todos juntos:

A mesma cerveja
em copos vazios
simples resultado
de algum refrigerante.
Tomo caninha,
leite-café,
soda-limonada,
Eu, beberrão torpe
alimento sua sede
sem idade, sem sonho…
Me faço líquido
na solidez do teu corpo.
Voltemos
ao bar (guia)
vamos tomar alguma coisa!

A influência da estética beat é inegável. Mas, diferente de Kerouac, Pio Vargas não exercitava o método de escrita automática de “Pé na Estrada”. Segundo Edival Lourenço, seu amigo era “insistente. Era capaz de voltar sobre um poema, sobre um verso diversas vezes, até conseguir o efeito que queria”. Estilista, não se permitia fazer mera caricatura. Sabia que não seria levado a sério se simplesmente resolvesse encarnar, em pleno cerrado, um anacrônico rebelde estadunidense da década de 1960. Soube colocar-se em perspectiva. Seu cenário não é a GO-060 maquiada como Rota 66, mas um boteco interiorano. A fuga não é exterior, é interior. A presença esmagadora do mais trivial cotidiano é sentida, convivendo ao lado da rica subjetividade do eu lírico. É nítido o embate entre o homem comum que bebe água-ardente e o artista que bebe néctar dos deuses, no mesmo copo, no mesmo bar, ao mesmo tempo.

“Janelas do Espontâneo” é composto por poemas esparsos. Exercícios de espontaneidade como apregoa o título. Os poemas são curtos e, quase sempre, apresentam títulos individuais e fechados, atestando a independência de cada um. Não há um conjunto orgânico. Não há um plano sistemático que ligue uma composição a outra. Talvez por isso, como o próprio Pio Vargas achava, o livro é melhor nas partes do que todo. Verdadeiras pérolas postas ao lado de demonstrações explícitas de ingenuidade juvenil, revelando a pouca idade do autor, seu afã de fazer acontecer. Exemplos: abre o volume usando a surrada construção “Prefácio / pré-fácil” e o encerra com uma platitude: “Dedico este livro especialmente a você que suportou me suportar em cada verso”.

Mas Pio Vargas sabia que o principal inimigo de sua poesia era justamente a ingenuidade ou, melhor dizendo, a falsa ingenuidade, ou ainda a ingenuidade conveniente. O provincianismo poético. Não seria mais um poeta que escreve sem consciência de obra. “Anatomia do Gesto” é seu manifesto contra esse “cotidiano agrário”, essa ordem redutora da qual não quer fazer parte.

Mantenho obtuso meu traço

a memória constrói
espúmeos fantasmas
com os quais divirto
o inverno do meu plasma.

esse cotidiano agrário
foi o que sobrou como futuro
o meu sangue sem calvário
regando vales no escuro.

É um livro de construção rigorosa. O beat tornou-se um engenheiro, ao estilo de João Cabral de Melo Neto. Os cinco longos poemas que compõem o livro não apenas dialogam como se completam. Pela inspiração, Melo Neto, mestre-de-obras maior da literatura brasileira, é homenageado.

no momento
o corpo adejando nos espelhos
e o jeito espesso
de avistar luz no fim do túnel
ao sabor inerme
de verbos enormes.

a vida como vitrola antiga
cantiga e roteiro para filme de buñuel

— o silêncio tramando no escuro
o quase claro do caos sem plumas.

O cão sem plumas de um torna-se o caos sem plumas do outro. O que indica que amadurecimento não significou mudança de interesses. Pio Vargas sofisticou-se, mas não abandonou seus temas. “Anatomia do Gesto” trata dos limites do corpo, quando exposto a toda sorte de provações, do tédio à violência a reações a substâncias entorpecentes. O poeta Valdivino Braz, que escreveu o prefácio da primeira edição, decifrou a Esfinge afirmando que “com arte, com instrumental metafórico, o poeta exercita uma dissecação do corpo (carne e verbo), por partes, estrutura, aspectos, minudências. Vemo-lo doente de si mesmo (desde a infância perdida), em face do tédio, do silêncio das coisas, dos disfarces da vida e dos engodos da própria linguagem. E acompanhamos um quadro clínico em todas as suas fases, desde os sintomas à ‘cura’, entre aspas”.

Pio Vargas sempre gostou de promover labirintos linguísticos, jogos de sentido, desconstrução de expressões conhecidas. Alguns versos exemplares são: “ficaram sombras dum tempo de pré-juízo”, “a carne é um viço no ser viço”, “limusine do instinto /o acaso é clã / destino” e “da matéria que dissolve / o signossexo da essência”.

Regularmente, incluía sons inesperados em suas criações, como que introduzindo intrusos, palavras pretensamente não-artísticas, em meio a elaboradas construções poéticas, produzindo um efeito surpresa no leitor. Como as “marmitas” do poema que segue:

alguém fugindo
nos moldes abissais do meu sangue
no acaso sem sentido
entre os portais do dia,

no silêncio concreto dos edifícios
ou no frio ventre das marmitas.

Em “Os Novelos do Acaso”, o projeto de estabelecer uma poesia rigorosamente construída continua. O que transparece em alguns de seus subtítulos. “Tear do Imaginário”, no livro I, e “Engenhos de dentro”, no livro II, indicam o desejo de produzir versos mais pela transpiração do que pela inspiração. Trabalhar no tear, em Goiás e na Grécia Antiga de Penélope, é sinônimo de labuta dura, que exige habilidade e paciência. Engenho, na gramática de Melo Neto, é mais o espaço do trabalho e menos da engenhosidade voluntariosa. Um engenho localizado dentro, imagino, existe para transformar, por meio de longos processos técnicos, a matéria-prima rústica, o verso improvisado servindo de cana-de-açúcar, em produto refinado, agradável ao paladar do leitor gourmet.

Em meio ao laborioso processo de composição dessa obra, pela primeira vez, Pio Vargas recebeu visitas da musa de Homero. São visitas tímidas, é verdade, mas significativas. Indicavam uma tendência que, talvez, fosse seguida dali em diante. Começou a fazer citações de elementos da cultura clássica em seus poemas: Hades, Narciso e, principalmente, Dédalo; citado duas vezes.

Segundo Pierre Grimal, autor do clássico “Dicionário da Mitologia Grega e Romana”, Dédalo “é o protótipo do artista universal, simultaneamente arquiteto, escultor e inventor de recursos mecânicos. A ele se atribuíram, na Antiguidade, as obras de arte arcaicas, inclusive aqueles que têm um caráter mais mítico que real”. Arte mais mítica e menos real, ou o mundo mítico invadindo o real. A poesia de Pio Vargas parecia seguir nessa direção, visto que incluía em seus versos, além de heróis e deuses, também entidades elementais como duendes e gnomos. Passa a escrever “moldando o real em gelatina”.

Mas, aparentemente, a verdadeira preocupação de Pio Vargas nesse momento ainda é o Hades. De acordo com Grimal, “nos infernos, Hades reina sobre os mortos. É um amo impiedoso que não permite a nenhum de seus súditos que voltem ao mundo dos vivos. É assistido por demônios e vários gênios que estão sob as suas ordens”. Analisando em retrospecto sua vida de artista, escreveu:

E sei
que preciso perdoar-me
antes que seja aberto
o leque sem retorno
da sentença
antes que o silêncio
clausura sem alarme
seja inimigo
para a guerra que me vença

É inútil habitar conflitos
É nada povoar saudades
Fique o ilívido momento
não combustão de nosso hades

“Nosso Hades”. O medo e o fascínio pela morte que todos sentem. Em Pio Vargas esse sentimento foi combustível poético desde o início de sua obra. De todos os seus temas, o tema da morte foi o mais frequente e multifacetado. Morte violenta, morte em vida, lenta, em martírio, de velhice, suicídio…

Em “Janelas do Espontâneo” escreveu: “Sobre tudo a Morte / Sepultada em versos”. Mas o pessimismo ainda não era dominante. Ironicamente, um dos mais belos poemas do livro, dos poucos sem título, tem como tema a vitória sobre a morte. A arte seria uma forma de resistência ao curto tempo da vida humana.

Esporádico,
meu espírito paira naquela campina.
E meu corpo
se prepara,
embevecido
para voltar a viver.

Seis anos depois, em “Anatomia do Gesto”, admite que

cada um se mata
o suficiente
para continuar vivo.

cada um possui
a duopção de fogo e tédio,
esses alheios do alívio.

contudo,
na dor e seu compêndio,
resta saber
quem existirá depois do incêndio.

Qual incêndio? Incêndio na grande biblioteca universal? A arte por si só já não é mais garantia de sobrevivência?

Após a morte física do poeta, em seu livro póstumo, “Os Novelos do Acaso”, o eu lírico varguiano, num intervalo de sua escalada ao Olimpo, reafirma-se inspirado pelo espírito beat

Tenho razões indizíveis
para acreditar em nada
e apenas ficar por perto

por certo apenas
como se a vontade
fosse descartável
e isso de insônia
tivesse pouco a ver
com a didática fome
de memória inadiável

Sei-me de fato:
a geração de suicidas
que optou
por adiar o ato.

Adiou o quanto foi possível. Em dia incerto de julho de 1989, Pio Vargas escreveu uma longa carta de despedida aos “incontáveis amigos” e familiares. Os cita nominalmente. Dezenas de nomes. Agradece a alguns, pede perdão a outros. Escreveu que “eu gosto de pedir perdão. E como gosto. Sim, porque o perdão não repara o erro, mas restaura a certeza de que é possível acertar da próxima vez”. Não acredito em premonições, mas é certo que o poeta sabia-se, por seu estilo de vida, no fio da navalha. Entre reflexões e reparos de mal-entendidos, pede que não deixem as Edições Porranenhuma acabarem e reclama que “a inteligência sempre serviu à mediocridade”. Infelizmente, as Edições PN acabaram e a inteligência continua servindo à mediocridade. Algumas coisas nunca mudam.

Outro dos elementos mais citados da mitologia varguiana é o fato do poeta ter escrito seu epitáfio precoce. Trata-se do “Poema 999 (ou: concepção tumular pra que ninguém alegue ignorância)”:

Quando eu morrer
escrevam no meu túmulo:
aqui dorme pio
que era poeta nas horas vagas.
O que distanciou de tudo
pra continuar mudo
com suas amarras

Aqui dorme alguém
que era de todos
e pertenceu a ninguém
que imaginava muito
mas só tinha um corpo
que casualmente se tem
que fatia poemas
só para esquecer os dilemas
do que era um e quis ser cem.

Pensando bem
escrevam mais:
aqui dorme pio
o que em sendo um
foi quase mil.

Os versos “Quando eu morrer escrevam em meu túmulo: aqui dorme pio que era poeta nas horas vagas”, em diferentes níveis, representam as chaves interpretativas do poema. A mais superficial faz menção ao jogo sonoro entre pio, sem P maiúsculo por discreto esquecimento, vagas e Vargas. Num outro nível, o pio torna-se “piedoso” em latim. Pio é cognome de papa. De muitos papas. O poeta goiano não se permitiria usá-lo sem prestar contas. Até porque os piedosos papas pios formaram uma linhagem com tradição na poesia. Pio II (1458 – 1464), além de ter sido um importante mecenas, recebeu a coroa de “poetas laureatus”, poeta laureado, de Frederico III, da Saxônia. Pio XII (1939 – 1958), o mais recente, foi o primeiro papa pop.

Poeta que era de todos, sem ser de ninguém. Poeta que queria ser cem e foi quase mil: 999. O número do título, inverso do macabro 666, é, na tradição esotérica, o número dos anjos. O que se torna um poeta no pós-morte? Virgílio tornou-se mensageiro, do latim angelus, e guia para Dante. Justiça poética na acepção da palavra. Irrequieto como era, Pio Vargas não ficaria estacionado no inferno, no purgatório ou no paraíso. Se precisasse pularia muros no além. Teria que fazer um tour. Talvez guiado por Rimbaud em pessoa, especialista que é em estadias no inferno. Verlaine definiu-o como ange et démon, anjo e demônio. Dividindo uma garrafa de fada verde, os dois eternamente jovens poetas teriam muito o quê conversar.