China e suas ambiguidades: alta tecnologia, com uma sociedade que se coça em árvores

China e suas ambiguidades: alta tecnologia, com uma sociedade que se coça em árvores

Em julho de 2011, parece que foi ontem, embarquei rumo à China, sem passagem de volta. Desde então, vivo o período mais incrível da minha vida. Usando a China como base, tive a oportunidade de conhecer algumas dezenas de países, que normalmente estão fora da rota turística dos brasileiros. Pude aprender novos idiomas e conviver com pessoas inesquecíveis.

A comunidade brasileira é ínfima na China. Afinal, é muito longe, muito diferente e tida como uma sociedade fechada. Depois de um ano morando na capital Pequim, onde, com certo esforço é possível encontrar algum brasileiro, tive um convite de trabalho para me mudar para cidade de ZhuZhou, na província de HuNan. Nunca tinha ouvido falar da cidade. Resolvi consultar alguns amigos chineses. O primeiro nunca tinha ouvido falar, o segundo, tampouco e o terceiro, que por coincidência era nascido na mesma província, me disse logo para tirar aquilo de ideia, “você não vai se mudar para um vilarejo, né”. Já pensando em ligar e dispensar tal oferta, resolvi consultar o BaiDu (Google Chinês). Qual não foi minha surpresa: a tal vilinha tinha apenas 4 milhões de habitantes. Bem… Aqui estou, residindo desde 2012. Fora eu e minha mulher, não se consegue encontrar outro brasileiro, nem para remédio. Há dois anos, com a chegada do meu filho made in China, contribuí em 50% para o aumento da comunidade brasileira, residente na cidade.

As diferenças de padrões e a habilidade dos chineses de viver em um ambiente de ambiguidade são alguns dos fatores que mais me atraem no China. A China por si só já é ambígua. Afinal, uma nação que se chama “país do meio” (China em Chinês é 中国 Zhong Guo, que quer dizer Nação do Centro) e que, historicamente, fechou-se nas limitações de seus muros. No entanto, hoje tem a cultura expansionista mais ativa do planeta. O milagre do desenvolvimento econômico chinês tem caminhado par a par com o desenvolvimento tecnológico. O país tem metas claras de, até 2025, liderar a corrida da inteligência artificial. É engraçado ver que mesmo em uma população altamente tecnificada, vários ainda mantêm hábitos ancestrais de coçarem as costas nas árvores cascudas nos parques e vias públicas.

A língua chinesa é de uma ambiguidade extraordinária. A musicalidade do Mandarim tem várias modulações. Uma mesma palavra, dita numa outra entonação, altera consideravelmente o significado. Por exemplo, em chinês ocidentalizado (pinyin), o som “bi” pode ter diversos significados: caneta, moeda, em comparação, dever, fechado, prostituta e até mesmo órgão sexual feminino. Para quem, na infância, divertia-se com as entonações da palavra sabiá, sábia, sabia, o Mandarim se tornou para mim uma Disneylândia vocabular. Isso quando aplicado a praticamente todas as palavras, cria-se um caos de ambiguidade na comunicação, mesmo entre os nativos. Veja a palavra “mai”, aplicada corriqueiramente, dentre tantos outros sentidos, ela pode significar “comprar” e ao mesmo tempo “vender”, dependendo apenas da entonação. Já imaginou a confusão que isso causa?

Como é de conhecimento geral, a China é um país politicamente comunista, em que o controle social e o poder centralizador do partido único são incontestáveis. No entanto, a liberdade de iniciativa econômica é mais cristalina do que em qualquer nação puramente capitalista. Desde 1978, quando o presidente Deng XiaoPing promoveu as reformas rumo à abertura econômica e disse que “enriquecer é glorioso” e que “não importa a cor do gato, desde que ele cace rato” em uma referência ao Comunismo x Capitalismo, os chineses levaram esse conceito ao pé da letra e vêm tentando, com toda veemência, enriquecer-se. Enriquecer na China tornou-se uma espécie de religião laica.

Por falar em religião, esta é outra ambiguidade que me fascina. Por influência da filosofia de Confúcio, que disse que problemas de vida se resolvem em vida, não num campo metafísico, os chineses, de um modo geral, são ateus. Em conversa com eles não se nota qualquer traço de preocupação com culpas religiosas ou salvação da alma num processo de juízo final. O cidadão de bem, é do bem porque acredita que, em se fazendo o bem, fomenta uma sociedade boa para se viver. Já o camarada com inclinações perversas vai pensar duas ou três vezes antes de praticar o mal por cisma de levar bala na nuca. E por falar em Mao (e não mal), hoje o culto a personalidade de Mao TseTung está transformando-o em uma espécie de Deus. Está aí exatamente a grande ambiguidade religiosa. Mesmo sendo ateus, os chineses promovem romarias, nos moldes das de Aparecida do Norte, em adoração ao mausoléu do líder em Pequim, assim como ao seu casebre de nascimento, no distrito de ShaoShan, que diga-se de passagem, fica a meia hora da minha casa.

Por fim, uma das ambiguidades mais curiosas é o lazer favorito do chinês comum, que é frequentar um espaço que se divide entre ambiente de convivência familiar e bordel. Isso ocorre nos karaokês, também chamado de KTVs. É impressionante o quanto os chineses se divertem cantando. Existem mais KTVs nas cidades chinesas do que botecos em Belo Horizonte. No mesmo ambiente, as famílias vão celebrar seus eventos como aniversários, casamentos e vitórias pessoais, enquanto na sala ao lado estão homens sedentos com as suas KTV Girls.

Mesmo depois de sete anos vivendo na China, continuo fascinado por suas ambiguidades.