Sujeito morre e encontra São Pedro na porta do Céu. Fica surpreso duplamente. Primeiro porque não achava que existia mesmo esse tal de Céu. E depois pelo teor da conversa que São Pedro puxou com ele.
— Seja bem-vindo. A gente já estava te esperando. Uma pena que a sua vida tenha sido tão medíocre!
— É? Nem tanto assim…
— Foi sim, bem fraquinha, né? Mas se você tivesse seguido o seu verdadeiro talento, a sua vida teria sido bem melhor!
— Eu tentei seguir o meu talento. Fui escritor, sempre gostei muito de escrever.
— Mas você era ruim, né?
— Não tanto assim.
— Ruim, bem ruim. Copiava, imitava, repetia as modas, sem talento.
— As pessoas gostavam dos meus livros.
— Mais ou menos. Os amigos elogiavam para te animar, mas definitivamente o seu talento não era escrever. Olha, eu vou te revelar uma coisa: todo mundo tem um talento especial. Você podia ter sido brilhante se achasse o seu verdadeiro talento.
— Eu achei que era ser escritor. Não sei se tenho talento para outra coisa.
— Bobagem. Todo mundo tem.
— Isso você diz retoricamente, certo?
— Não. É assim que funciona, o chefe programou assim.
— Chefe? Você quer dizer Deus?
— Você chama como quiser.
— Você está me dizendo que Deus faz com que todo mundo seja muito bom em alguma coisa?
— Sim, é isso mesmo. O seu trabalho era encontrar o seu talento, mas você não conseguiu.
— E você tem como saber qual era o meu talento?
— Claro! Deixa eu consultar aqui… Peraí, vai demorar um pouco porque o sistema está meio lento… Tá aqui…
— Qual era o meu talento?
— Críquete!
— O esporte?
— Sim, críquete. É o segundo esporte mais jogado no mundo!
— Mas isso é porque é o esporte nacional da Índia!
— Do Paquistão também.
— Fora desses países quase ninguém se liga nesse esporte…
— É verdade, ele é muito jogado na Índia e no Paquistão, mas também se joga na Inglaterra…
— Mas eu nasci no Brasil!
— Pois é, tinha esse problema…
— Isso tá muito malfeito!
— Você está criticando o Chefe?
— Não! De jeito nenhum!
— Você nunca foi à Índia?
— Não, nunca fui.
— Nem ao Paquistão?
— Também não.
— À Inglaterra você foi? Lá também se joga críquete.
— Fui uma vez a Londres, fazer turismo…
— Por que não assistiu a uma partida de críquete? Quem sabe se interessasse e então descobrisse o seu incrível talento para o críquete?
— Pois é, não estava no meu roteiro. Mas eu assisti a um jogo da Premier League.
— Mas futebol não era nem de perto o seu talento. Você era bem pereba, né? Já no críquete você seria cracaço!
— Puxa vida. Quem sabe na próxima…
— Não vai ter próxima não. Era só essa vida mesmo. E aqui no céu não tem críquete, o pessoal só joga buraco e dominó mesmo. Uma pena. Agora dá licença que eu preciso atender outra pessoa.


