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No Globoplay, um dos filmes brasileiros mais sensíveis dos últimos anos fala de dor, afeto e futuro Divulgação / Magnolia International

No Globoplay, um dos filmes brasileiros mais sensíveis dos últimos anos fala de dor, afeto e futuro

A relação entre pais e filhos já é conflituosa por natureza, sobretudo a certa quadra da vida, quando pais querem continuar a exercer influência sobre seus rebentos, que por sua vez anseiam por criar asas e voar alto, para bem longe de seus cuidados — e de sua vigilância. Uma pessoa pode passar a vida inteira à procura da felicidade que não achou em casa, dispondo apenas do escasso auxílio que oferta a sorte, mas feliz por ser ela mesma a senhora de suas escolhas e de seu destino, uma jornada extenuante, mas sempre muito reveladora. Gabriel Martins mistura lirismo, política e crítica social e faz de “Marte Um” uma história cujo refinamento impressiona. O diretor-roteirista encontra em cada um dos quatro protagonistas um universo, pleno de belezas, feiuras, erros acertos, contradições. Humanidade, enfim.

Buraco negro 

Minutos depois da eleição de Jair Bolsonaro, fogos espocam na periferia de Contagem, na Grande Belo Horizonte. Alheio ao entusiasmo dos vizinhos, Deivid observa as estrelas e sonha acordado, sem saber se isso é bom. Como toda criança, Deivinho tem uma visão delirante das coisas, mas sabe que está a anos-luz da mais vã promessa de tornar-se astrofísico e um dia partir rumo ao Planeta Vermelho, na missão que dá nome ao filme. A irmã mais velha, Eunice, é mais realista e sua sangue para manter-se na faculdade de direito, mas o apoia, pretendendo em breve alugar um apartamento e cuidar de sua vida. Os pais, Tércia e Wellington, são uma diarista e um porteiro orgulhosos do que conseguiram e, claro, desejam para os filhos uma vida bem mais próspera. Sem muito floreio, Martins usa essa imagem para ganhar o coração de quem assiste, incluindo muitos outros detalhes.

Rabo de cometa

Depois de um prólogo meio arrastado, o filme vai assumindo sua veia dramática e aprofunda-se nos conflitos de Deivinho, Eunice e seus pais, em relatos intimistas e emocionantes. Wellington sabe da vocação do filho caçula, mas não abre mão que ele dedique-se ao futebol, menos por paixão que por vislumbrar uma chance de ascensão social mais rápida. Essa subtrama ocupa muito dos 115 minutos do longa, mas igualmente engenhoso é o jeito como o diretor elabora a homossexualidade de Eunice e a sabedoria estoica de Tércia, perita em equilibrar muitos pratos num só bastão. Na virada do segundo para o terceiro ato, um infortúnio no prédio onde Wellington trabalha escancara as fraturas mais íntimas dessa gente risonha e sofredora, e o elenco se supera. Cícero Lucas descobre o tom certo para Deivinho, assustado e algo incrédulo com o egoísmo do pai, interpretado por um vigoroso Carlos Francisco, de quem se sente raiva e até asco. Às mulheres cabe estancar o sangue e tratar as chagas; Rejane Faria e Camilla Damião entendem o recado e fazem de “Marte Um” uma ode à utopia, mas também ao perdão e à tolerância. Palavras cujo significado perde-se neste globo azul girando solto no infinito.

Filme: Marte Um
Diretor: Gabriel Martins
Ano: 2022
Gênero: Drama
Avaliação: 8/10 1 1
★★★★★★★★★★
Giancarlo Galdino

Depois de sonhos frustrados com uma carreira de correspondente de guerra à Winston Churchill e Ernest Hemingway, Giancarlo Galdino aceitou o limão da vida e por quinze anos trabalhou com o azedume da assessoria de políticos e burocratas em geral. Graduado em jornalismo e com alguns cursos de especialização em cinema na bagagem, desde 1º de junho de 2021, entretanto, consegue valer-se deste espaço para expressar seus conhecimentos sobre filmes, literatura, comportamento e, por que não?, política, tudo mediado por sua grande paixão, a filosofia, a ciência das ciências. Que Deus conserve.