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Uma das maiores tragédias conhecidas: aula de história em forma de filme, no Prime Video Divulgação / KIT Film Studio

Uma das maiores tragédias conhecidas: aula de história em forma de filme, no Prime Video

Quando a explosão do reator nuclear em Chernobyl rompe o controle das autoridades soviéticas, em 1986, na então União Soviética, um grupo de trabalhadores comuns é empurrado para uma missão quase suicida: conter o avanço de um desastre que pode devastar grande parte da Europa, e eles fazem isso porque ninguém mais pode fazer no tempo necessário.

Em “Chernobyl: O Abismo”, dirigido por Danila Kozlovskiy, a tragédia histórica ganha um recorte íntimo e direto, centrado em Alexey, bombeiro vivido pelo próprio Kozlovskiy. Ele não é apresentado como herói desde o início, muito pelo contrário. Alexey parece mais preocupado em reorganizar a própria vida, especialmente sua relação com Olga (Oksana Akinshina), do que em assumir qualquer grande responsabilidade coletiva. Mas a explosão da usina muda completamente o eixo da sua vida, e não há espaço para hesitação.

A partir do momento em que o acidente ocorre, o filme abandona qualquer possibilidade de calma. A rotina vira emergência. Alexey é convocado para atuar na linha de frente, lidando com incêndios e consequências imediatas da explosão. Ao mesmo tempo, engenheiros como Valery (Filipp Avdeev) tentam entender o que ainda pode ser feito para evitar algo ainda pior. E “pior”, aqui, não é exagero: existe um risco real de uma segunda explosão capaz de tornar regiões inteiras da Europa inabitáveis.

É nesse ponto que o filme encontra seu eixo dramático mais forte. A solução encontrada, drenar a água acumulada sob o reator, parece simples no papel, mas na prática é uma sentença de risco extremo. A água, que deveria ajudar, pode reagir com o núcleo derretido e provocar uma nova catástrofe. Para evitar isso, alguém precisa entrar nos corredores inundados da usina, localizar válvulas específicas e abrir caminho para o escoamento. Não há mapa confiável, não há tempo para treinamento, e o ambiente está se tornando mais hostil a cada minuto.

Alexey aceita a missão ao lado de Valery e de Boris, um mergulhador militar experiente. A decisão não vem acompanhada de discurso heroico, vem com aquele silêncio pesado de quem sabe exatamente no que está se metendo. O trio se organiza com o que tem à mão: equipamentos limitados, lanternas que podem falhar e informações incompletas. O plano não é elegante, mas é o único possível dentro do prazo.

A descida aos corredores inundados é onde o filme realmente prende. A água não é só um obstáculo físico; ela é uma ameaça constante. A visibilidade é quase nula, o calor aumenta de forma perceptível, e cada passo exige cálculo e improviso. Boris assume a dianteira quando a profundidade exige técnica, enquanto Valery tenta manter alguma lógica na direção que seguem. Alexey funciona como o elo entre os dois, equilibrando ação e comunicação, mesmo quando o cenário parece conspirar contra qualquer tentativa de controle.

Fora desse núcleo, Olga tenta lidar com a ausência e o risco iminente de perder Alexey. E o filme acerta ao não transformar isso em melodrama excessivo. A relação entre os dois é construída em pequenos gestos, conversas diretas, até com certa aspereza. Há um toque de humor aqui e ali, especialmente na forma como Alexey evita dramatizar o próprio perigo, como se minimizar a situação fosse uma forma de continuar andando. Mas o subtexto é claro: ele sabe o tamanho do risco, e ela também.

O ritmo da narrativa acompanha essa pressão crescente. Não há grandes discursos explicativos nem pausas confortáveis. As decisões são rápidas, às vezes incompletas, e quase sempre tomadas com base em informações que chegam tarde demais. E isso dá ao filme uma sensação constante de urgência real, não fabricada.

Tecnicamente, a direção de Kozlovskiy evita transformar o desastre em espetáculo vazio. A câmera muitas vezes mantém o espectador dentro do espaço limitado dos personagens, reforçando a sensação de confinamento. A água turva, os corredores estreitos e o som abafado criam um ambiente onde cada movimento importa. A tensão não vem de sustos fáceis, mas da percepção de que qualquer erro pode ser definitivo.

O mais interessante é que o filme nunca tenta romantizar o sacrifício. Esses homens não entram naquela água porque querem ser lembrados; eles entram porque alguém precisa fazer aquilo imediatamente. E isso muda completamente o tom da história. O heroísmo, se existe, aparece quase como um efeito colateral da necessidade.

“Chernobyl: O Abismo” tem essa abordagem mais humana e menos grandiosa. Ele não tenta explicar tudo nem resolver todas as dimensões da tragédia. Em vez disso, escolhe acompanhar um grupo específico em uma tarefa concreta, e mostra, com clareza, o peso de cada decisão tomada sob pressão extrema.

É um filme que entende que grandes desastres são feitos de pequenas ações urgentes. E que, muitas vezes, o que separa uma catástrofe ainda maior de um dano contido é simplesmente alguém decidir seguir em frente quando recuar seria mais fácil.

Filme: Chernobyl: O Filme
Diretor: Danila Kozlovskiy
Ano: 2021
Gênero: Drama/História
Avaliação: 8/10 1 1
★★★★★★★★★★
Fernando Machado

Fernando Machado é jornalista e cinéfilo, com atuação voltada para conteúdo otimizado, Google Discover, SEO técnico e performance editorial. Na Cantuária Sites, integra a frente de projetos que cruzam linguagem de alta qualidade com alcance orgânico real.