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Comédia levinha que vai dar férias para sua cabeça, na Netflix Divulgação / Netflix

Comédia levinha que vai dar férias para sua cabeça, na Netflix

Quando um grupo de amigas decide interromper a rotina para celebrar um aniversário redondo em meio aos vinhedos da Califórnia, a expectativa é simples: descansar, rir e lembrar por que ainda vale a pena estar juntas. É exatamente esse o ponto de partida de “Entre Vinho e Vinagre”, dirigido por Amy Poehler, que também assume o papel de Abby, a organizadora obstinada dessa viagem a Napa Valley. Ao lado de Rachel Dratch, que interpreta Rebecca, a aniversariante, e Ana Gasteyer, como a workaholic Catherine, o filme acompanha esse reencontro que começa leve, mas rapidamente se complica, porque ninguém chega aos 50 anos sem bagagem.

Abby planeja cada detalhe da viagem como quem tenta garantir que nada dê errado. Casa alugada, agenda de degustações, jantares marcados, tudo pensado para que Rebecca tenha um aniversário memorável. Só que a realidade não costuma seguir roteiro. Catherine não consegue se desconectar do trabalho, respondendo mensagens no meio das conversas, enquanto Naomi (Maya Rudolph) carrega o cansaço de uma rotina familiar intensa. Val (Paula Pell), recém-saída de uma cirurgia, tenta manter o bom humor enquanto lida com seus próprios limites físicos, e Jenny (Emily Spivey) observa tudo com um olhar mais silencioso, mas nem por isso menos atento.

O que começa como um encontro descontraído ganha outra camada conforme o vinho circula. E aqui o filme acerta ao não romantizar demais esse tipo de reencontro: o álcool solta a língua, mas também derruba filtros. Pequenas provocações viram comentários mais diretos, e logo fica claro que aquelas amizades, embora sólidas, não estão imunes ao tempo. Abby insiste em manter o controle da situação, como se pudesse administrar emoções da mesma forma que organiza horários, mas percebe — ainda que tardiamente, que não há cronograma que dê conta de sentimentos represados.

Rebecca, que deveria ser o centro das atenções, tenta não transformar a viagem em algo sobre si mesma. Só que isso também cobra um preço. Em alguns momentos, ela parece deslocada dentro da própria celebração, como se estivesse assistindo ao próprio aniversário de fora. É quando as outras começam a projetar nela suas próprias frustrações que a dinâmica muda. E o filme encontra aí um ponto interessante: o aniversário deixa de ser apenas um marco pessoal e vira um espelho coletivo, onde cada uma enxerga o que fez, ou deixou de fazer, com a própria vida.

Há um humor constante, mas ele não vem de grandes situações mirabolantes. Ele aparece nos detalhes: no desconforto de uma conversa que vai longe demais, na tentativa de manter o clima leve quando tudo já está um pouco pesado, ou naquele comentário atravessado que arranca um riso meio constrangido. Amy Poehler, como diretora, entende bem esse tipo de comédia, aquela que nasce do reconhecimento, não da piada pronta.

Catherine, por exemplo, representa um tipo muito específico de pessoa que todos conhecem: aquela que nunca desliga. E isso não é tratado como simples defeito de caráter, mas como uma escolha que tem custo. Naomi, por outro lado, verbaliza o desgaste de quem vive para os outros e começa a se perguntar onde ficou o espaço para si mesma. Val traz uma perspectiva mais física, quase prática, lembrando que o corpo também impõe limites que não podem ser ignorados. E Jenny, com sua postura mais contida, acaba funcionando como uma espécie de termômetro do grupo, intervindo quando percebe que as coisas podem sair do controle.

O ponto de virada não vem com um grande evento, mas com uma sequência de pequenas tensões acumuladas. Um jantar, algumas taças a mais e, de repente, ninguém está mais disposto a fingir que está tudo bem. Abby perde o controle do que tentou organizar, Rebecca assume uma posição mais firme, e o grupo precisa lidar com o desconforto de dizer coisas que talvez tenham sido guardadas por tempo demais.

Ainda assim, o filme não transforma esse momento em ruptura definitiva. Pelo contrário, ele sugere que há algo de necessário nesse tipo de confronto. Não como solução mágica, mas como ajuste de rota. Abby começa a ceder, deixando de tentar comandar tudo, enquanto as outras também recuam um pouco, reconhecendo seus próprios excessos. Não é uma reconciliação perfeita, e talvez seja justamente por isso que dá certo.

“Entre Vinho e Vinagre” não está interessado em respostas grandiosas. Ele observa, com certa honestidade, como amizades de longa data precisam ser constantemente renegociadas. Não basta ter história em comum; é preciso atualizar esse vínculo conforme a vida muda. E isso, como o filme deixa claro, nem sempre é confortável, mas é o que mantém essas relações vivas.

A viagem termina sem grandes resoluções dramáticas, mas com pequenas mudanças de postura que fazem diferença. Abby relaxa o controle, Catherine tenta se fazer mais presente, Naomi encontra espaço para falar sem ironia, Val respeita seus limites e Rebecca finalmente ocupa o lugar que sempre foi dela naquele grupo. Nada disso resolve tudo, mas já é suficiente para que elas voltem para casa um pouco diferentes, e, de certo modo, mais próximas do que estavam quando chegaram.

Filme: Entre Vinho e Vinagre
Diretor: Amy Poehler
Ano: 2019
Gênero: Aventura/Comédia/Drama
Avaliação: 8/10 1 1
★★★★★★★★★★