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Duas pessoas trocando saliva é gostoso de se ver

Duas pessoas trocando saliva é gostoso de se ver

Duas Pessoas Trocando Saliva. Adorei o título desse curta-metragem de produção franco-americana, que venceu o Oscar 2026 na categoria Melhor Curta Metragem, empatando com o ótimo “The Singers”. Empates em premiações do Oscar são ocorrências extremamente raras. Assisti a “Two People Exchanging Saliva” na plataforma YouTube, onde está disponibilizado gratuitamente aos internautas. Tudo no curta encantou-me, inclusive, a ambientação numa distópica Paris, certamente, a mais bela cidade que os meus olhinhos ordinários já tiveram o privilégio de vislumbrar. Senti-me arrebatado com os 36 minutos da trama que foi filmada em preto e branco, sob o charmoso áudio das personagens no idioma francês. Sem dúvida, o ponto alto de “Deux Personnes Échangeant de La Salive” — título original — é a criatividade dos roteiristas Natalie Musteata e Alexandre Singh ao conceberem uma história surreal na qual, dentre outras situações surpreendentes, a moeda-corrente é o “tapa na cara”, ou seja, produtos consumidos são regiamente “pagos” com o estapeamento da face. Da face do comprador. Dez “reais”? Dez tapas na cara do freguês. Não será por acaso que a maior parte das pessoas circula pela Paris imaginária com a cútis tomada por hematomas, constituindo uma alegoria jocosa, formidável. Da mesma forma, nesse contexto extraordinário, as demonstrações de afeto por meio do beijo, não apenas são vedadas, proibidas, como punidas com a própria morte dos beijoqueiros. Aqueles que ousam quebrar o paradigma, são delatados, perseguidos, capturados pela polícia, imobilizados, atados, colocados dentro de caixões de papelão e atirados vivos do alto de um despenhadeiro. Sei que muitos leitores poderão se queixar dos spoilers, mas, fiquei tão fascinado — e esperançoso, por que não — com Duas Pessoas Trocando Saliva que não resisti ao impulso de revelá-los, como forma de incentivo. Relevem a minha falta de modos. Inseridos num mundo contemporâneo tomado pela velocidade da informação, pelo consumismo exacerbado, pela frivolidade e pelo culto à ignorância, depararmos com produções inusitadas e inteligentes que nos façam refletir sobre temas sensíveis, como a intolerância e o estado “policialesco” é um verdadeiro ébano para quem busca sobreviver à mediocridade. Sendo curto e grosso: esse curta é genial. Não percam. Percam-se na fantasia. Enquanto as demonstrações de afeto ainda não estão proibidas na maior parte do mundo, aceitarei beijinhos como retribuição. Não vou cobrar pela dica. De tapa na cara, já basta o que a maior parte dos políticos, de forma desavergonhada, submete o povo brasileiro. Viva o cinema. Viva a arte. E viva o beijo.

Eberth Vêncio

Eberth Franco Vêncio, médico e escritor, 60 anos. Escreve para a “Revista Bula” há 15 anos. Tem vários livros publicados, sendo o mais recente “Bipolar”, uma antologia de contos e crônicas.