Eu, Fernanda, repórter que vos fala, nasci em Goiânia em 1988, alguns meses após o acidente radiológico que transformou a cidade em cenário de caos e desespero. É engraçado que muitos jovens nascidos nos anos 2000 sequer tenham ouvido falar do que aconteceu. Na escola, era praxe passarem aquele filme com o Nelson Xavier, que dramatizava a tragédia. Quando eu era criança, lá pelos 7 ou 8 anos, quando ouvi pela primeira vez sobre isso, o episódio parecia um evento distante, tão longe quanto a Segunda Guerra Mundial. Era algo fora da minha realidade. Mal sabia eu o quanto estava próxima daquela situação, que acontecera a poucos quilômetros da minha casa de infância.
Cresci em um setor centralizado, a 5 minutos de onde tudo aconteceu. Meu marido nasceu e cresceu a apenas alguns metros do Mercado da 74, quase de frente para uma das casas contaminadas, que hoje é um vazio cimentado. É estranho pensar que da história ficou o vazio cimentado. E é isso que me passa aquela série nova da Netflix, “Emergência Radioativa”, que tenta reviver a tragédia.
Eu sei, muita gente já falou do assunto nas redes sociais. Goianienses protestaram pelo fato de ela ter sido gravada em São Paulo. Quem é de fora não dá a mínima e manda os goianienses se lascarem. É assim que funciona para quem está longe. O que importa é a qualidade do espetáculo. Se o show é bem feito, do que importa a história? A identidade das vítimas, o território, o pertencimento: tudo é retirado. Os atores imitam um sotaque estranho, quase irreconhecível. Só não mais irreconhecíveis que as ruas onde tudo é gravado, que não parecem nem um pouco com Goiânia, nem naquela época nem hoje.
Mas nem é esse o problema maior. Há várias coisas ruins ali. As vítimas são condensadas, despersonalizadas, recebem nomes diferentes. O que parecia ser uma tentativa de tratar com respeito vira um apagamento de quem precisa dessa visibilidade para chamar atenção do poder público, que sequer as recompensou pelos danos causados. Sim, os responsáveis pelo acidente radiológico não foram os dois catadores, mas quem abandonou, não fiscalizou e não controlou o material abandonado. Afinal, nenhuma pessoa comum é obrigada a saber o que pode ou não ser radioativo.
Um erro maior é a tentativa de não transformar a série em melodrama. Ao fugir do lado emocional, a série é esvaziada de humanidade. O que se vê são diálogos mecânicos, expositivos demais, repetitivos, técnicos, robóticos e superficiais. Vê-se que a qualidade técnica da produção se preocupa em entregar algo esteticamente cinematográfico, que aparenta a grandiosidade do cinema, mas carece de profundidade e trata o assunto de forma esquecível.
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