Em “Upgrade: As Cores do Amor”, dirigido por Carlson Young, Ana (Camila Mendes) trabalha como estagiária numa galeria de arte em Nova York e tenta, diariamente, provar que merece ficar. Quando sua chefe, Claire (Marisa Tomei), a inclui de última hora numa viagem profissional a Londres, Ana enxerga ali um acesso raro a um espaço que sempre lhe foi negado. A decisão de aceitar não vem sem custo: ela viaja sem preparo, sem status claro e com a pressão direta de não errar diante de alguém que controla seu futuro profissional.
Durante o voo, Ana conhece William (Archie Renaux), um passageiro carismático e confortável naquele universo de luxo e conexões. Um mal-entendido simples muda a forma como ele a enxerga, e Ana opta por não corrigir a impressão inicial. O gesto parece pequeno, quase inofensivo, mas cria um novo risco: sustentar uma imagem que não corresponde à sua posição real. A partir dali, cada conversa passa a ter peso maior do que deveria, porque envolve acesso social e expectativas que ela não sabe se consegue cumprir.
Já em Londres, Ana precisa dividir atenção entre compromissos de trabalho, eventos ligados ao mundo da arte e encontros com William, que se tornam mais frequentes. A cidade funciona como vitrine e teste ao mesmo tempo. Claire observa cada passo da estagiária, enquanto o ambiente elitizado expõe rapidamente quem pertence ali e quem está apenas tentando entrar. O tempo curto da viagem transforma decisões simples em apostas que podem afetar sua posição dentro da galeria.
Claire, vivida por Marisa Tomei, não é apenas uma chefe rígida, mas uma figura que impõe autoridade de forma clara e direta. Ela cobra resultados, atenção aos detalhes e postura profissional, deixando pouco espaço para erros. Para Ana, isso significa viver sob vigilância constante, tentando corresponder a expectativas que parecem sempre um pouco acima do que ela pode entregar naquele momento. Cada deslize ameaça não só a viagem, mas a continuidade de sua carreira.
O envolvimento com William cresce em meio a encontros agradáveis e conversas leves, mas sempre condicionado pela imagem que Ana escolheu manter. Ele representa tanto um alívio emocional quanto um novo tipo de pressão. A relação não surge como fuga do trabalho, mas como algo que se mistura a ele, exigindo escolhas que impactam reputação, confiança e futuro. O filme evita idealizar esse romance, tratando-o como parte do problema, não como solução imediata.
A comédia aparece justamente nos momentos em que Ana tenta sustentar situações maiores do que ela. Reuniões formais, eventos sofisticados e diálogos cheios de códigos sociais viram fonte de humor porque expõem o contraste entre aparência e realidade. O riso surge do esforço constante de adaptação, não de piadas fáceis, e sempre deixa claro que cada tentativa de “se virar” cobra um preço concreto logo adiante.
Sem entregar desfechos, o filme acompanha Ana enquanto ela avalia até onde vale a pena manter certas versões de si mesma. O conflito não está apenas no romance ou no trabalho, mas na dificuldade de alinhar desejo pessoal e reconhecimento profissional. “Upgrade: As Cores do Amor” observa esse percurso com leveza, sem cinismo, mostrando que crescer rápido demais pode custar mais do que parece quando o acesso vem antes da segurança.
O que fica é a sensação de que cada passo dado por Ana tem efeito direto sobre sua posição no mundo que ela quer ocupar. O filme fecha seu arco atento às consequências práticas das escolhas feitas ao longo do caminho, sem transformar isso em lição moral ou conto de fadas, mantendo o foco em decisões humanas, imperfeitas e reconhecíveis.
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