Ser rico e famoso, para pessoas esvaziadas de moralidade, significa o apagamento das linhas que delimitam a barbárie. Muitas celebridades, influenciadores e donos de grandes fortunas passam a agir como se estivessem acima do bem e do mal. O caso Epstein é emblemático: um emaranhado de crimes hediondos e monstruosos praticados por políticos, ricos e famosos, sustentado por redes de proteção, silêncios convenientes e cumplicidade institucional. Há também alguns casos de influenciadores que desfilam em seus Porsches, atropelam pessoas comuns e seguem ilesos após o pagamento da fiança. Ou garotos riquinhos que assassinam brutalmente um cãozinho comunitário. Ou um certo piloto que, antes mesmo de deixar sua mais recente vítima em coma, já havia sido registrado diversas vezes em comportamentos truculentos, violentos e selvagens, e ainda assim parece permanecer intocável.
O dinheiro e a fama produzem uma espécie de analgesia moral. Essas pessoas passam a acreditar que são deuses ou semideuses, autorizadas a ditar valores do alto de seus tronos de vaidade, sem jamais se submeter às mesmas regras que regem todos nós outros.
“O Acidente do Piano”, de Quentin Dupieux, ilustra bem esse sistema que protege seus ídolos mesmo quando eles rompem o pacto social, atravessam o território da civilidade e passam a operar em um palco onde tudo pode ser experimentado. A protagonista vivida por Adèle Exarchopoulos, Magalie Moreau, é uma influenciadora digital que sofre de insensibilidade congênita à dor. Desde o nascimento, ela é incapaz de sentir dor física. Ainda criança, ao assistir a episódios de “Jackass” ao lado do pai, tem a ideia absurda de testar em si mesma experiências que seriam insuportáveis, e potencialmente fatais, para qualquer outra pessoa. Ao registrar essas experiências em vídeo, Magalie alcança fama na internet.
Milionária e cercada por uma legião de fãs, ela se torna cada vez mais impulsiva e disposta a realizar testes mais extremos, colocando sua ambição muito acima da segurança de quem a rodeia. Durante uma gravação, um acidente grave acontece, e Magalie recorre ao dinheiro, à manipulação e à influência para escapar das consequências. O surgimento da jornalista Simone Herzog (Sandrine Kiberlain), que conhece os bastidores do ocorrido e ameaça expor a verdade, coloca em risco essa impunidade cuidadosamente construída. A partir daí, Magalie elabora um plano para silenciar Simone, mas acaba se envolvendo em uma sucessão de erros que evocam o humor cruel e o encadeamento trágico-farsesco típico de um roteiro dos irmãos Coen. Um momento em que ela beberica leite do vidro na geladeira é um eco de “Laranja Mecânica“, de Stanley Kubrick. Os marginais de condomínio só mudaram de forma.
Apesar do tema sério, Dupieux recorre à comédia para estruturar suas críticas a uma sociedade que transforma pessoas em celebridades não por mérito, mas por exposição excessiva. A fama deixa de ser consequência de talento ou relevância e passa a ser um produto moldado por algoritmos, choque e repetição. Exarchopoulos surge irreconhecível, caricata e ao mesmo tempo perturbadora, flertando constantemente com o terror. Desde o início, Magalie é uma figura intragável, e o filme não faz qualquer esforço para torná-la simpática. A ausência de empatia é deliberada: o espectador é forçado a encarar o vazio moral da personagem sem o conforto da identificação.
O filme dialoga diretamente com episódios reais de violência e brutalidade envolvendo figuras públicas que, mesmo após expostas, continuam desfrutando de prestígio e admiração. Dinheiro e fama, operando em conjunto, anestesiam a consciência e suspendem a culpa. Talvez o verdadeiro acidente a que o filme se refere não seja aquele registrado em vídeo, mas o colapso ético silencioso que permite que essas pessoas continuem sendo admiradas, seguidas e consumidas como entretenimento. Enquanto não forem punidas, vão continuam ultrapassando linhas cada vez mais distantes da civilidade.
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