
Entre 2012 e 2014, enquanto eu circulava como pesquisador visitante pelos corredores solenes, pelas salas de aula temidas e pelas festas etílicas de Harvard, foi impossível ignorar o descompasso entre o mito e a cena real. Por trás da fachada austera e mítica da universidade, havia um território povoado por curiosidades, segredos ridículos, infâmias elegantes e vexames cuidadosamente encobertos.
Anos depois, essa experiência se transformou no “Uma Impostora em Harvard”, onde, pela via da autoficção, revelo histórias e situações desse microcosmo de vaidades, inseguranças e rituais caricaturados.
Como pesquisador e personagem, sofri com a síndrome do impostor, participei (e me dei mal) de embates teóricos, tive alguns dates constrangedores e me diverti (e sofri) bastante. Harvard (e todas as instituições) é um lugar paradoxal onde a excelência anda de mãos dadas com o ridículo, a formalidade tropeça na fragilidade e a genialidade se confunde com a mais absoluta banalidade. Aqui escrevo (ou invento?) 10 infâmias divertidas e polêmicas sobre Harvard que podem ser conhecidas mais a fundo (e de forma ainda mais sarcástica) no “Uma Impostora em Harvard”.
Os três rituais da formatura: grito, sexo e xixi
Para se formarem, os alunos de Harvard têm que cumprir três rituais: correr pelados pelo campus numa noite gelada, conhecida por Primal Scream, fazer sexo num dos corredores da Biblioteca Widener e urinar ao pé da estátua de John Harvard, local de peregrinação no qual os turistas tiram fotos acariciando esse (o)abjeto centenário-mijado. Adorava ficar rindo quando os turistas esfregavam esse pé.
A bíblia de Gutenberg e o ladrão que esqueceu o peso do conhecimento
A Biblioteca Widener tem cerca de 3,5 milhões de livros e foi construída em homenagem a Harry Elkins Widener, um ex-aluno que morreu no naufrágio do Titanic. São 92 quilômetros de prateleiras e 8 quilômetros de corredores. Dentre os livros raros, há um tesouro: a “Bíblia de Gutenberg”, avaliada em 5 milhões de dólares. Primeira grande obra impressa na Europa, o texto é a versão da Vulgata Latina de São Jerônimo preparada por estudiosos de Paris no século 13. Estima-se que a tiragem dessa Bíblia variou entre 70 e 270 exemplares, a maioria impressa em papel, porém, ao menos 45 cópias em pergaminho. Na entrada da Widener, uma das 23 cópias sobreviventes. Só o primeiro volume fica em exibição, por conta de uma tentativa de roubo. Na noite de 19 de agosto de 1969, um impostor devidamente equipado se escondeu no banheiro até fechar a biblioteca. De madrugada, desceu por uma corda quebrando uma das janelas da sala e, após arrebentar a vitrine onde ficava essa Bíblia, colocou os dois volumes na sua mochila. Porém, o palerma se esqueceu do “peso do conhecimento” (em torno de 20 quilos), e a corda não foi capaz de sustentá-los; o mentecapto caiu de uma altura considerável e, semiconsciente, foi preso pelo vigia do prédio por volta de 1h da manhã.
O Castelo Lampoon: feio por fora, genial por dentro
O Castelo Lampoon, um prédio histórico, de design esquisito que fica na 44 Bow Street, em Cambridge, é “um dos edifícios mais feios do mundo, que não faz nada além de assustar estranhos e parece uma bruxa montada numa vassoura”. Conhecido como a casa da “Harvard Lampoon”, uma publicação importante de onde saíram escritores e comediantes, foi projetado por Edmund Wheelwright e inaugurado em 1909. A Lampoon foi iniciada por sete graduandos inspirados em revistas populares como “Punch” e “Puck”, e se tornou bastante reconhecida. Seus membros viraram roteiristas do “Late Night”, “The Simpsons”, “Seinfeld”, “The Office”, “Beavis and Butt-Head”, entre outros programas de comédia. Fui convidado para uma festa bem especial deles!
O IgNobel: primeiro rir, depois pensar
O IgNobel, criado pela revista de humor científico “Annals of Improbable Research”, acontece todos os anos premiando autores de estudos inusitados em diversas áreas do conhecimento. Seu lema é “primeiro faça as pessoas rirem para depois pensarem”. No ano que estive lá, os premiados foram ridículos, como era para ser. Em Literatura, o vencedor desenvolveu um software para gerar um relatório sobre relatórios sobre relatórios que recomendava a preparação de um relatório sobre o relatório sobre relatórios sobre relatórios. Em Física, Joseph Keller, Raymond Goldstein, Patrick Warren e Robin Ball foram laureados por terem calculado os vetores de forças que descreviam o movimento de um rabo de cavalo humano correndo a uma determinada aceleração. Lisonjeados, subiram ao palco vestindo perucas dançantes. Já os premiados em Anatomia, Frans de Waal e Jennifer Pokorny, comprovaram que os chimpanzés podiam reconhecer outros chimpanzés apenas admirando as fotos de suas bundas.
A Brazil Conference e a palestrante que ninguém esperava
Todos os anos se realiza a Brazil Conference organizada por estudantes de Harvard e do MIT com o intuito de apresentar pesquisadores ilustres brasileiros. No bom estilo IgNobel, uma das palestrantes do ano 2025 foi Sabrina Sato. Um trecho de sua pequena biografia divulgada pelos organizadores do evento: “Sabrina Sato é sinônimo de carisma, autenticidade e versatilidade. Com mais de 20 anos de carreira, conquistou o público e se consolidou como um dos maiores nomes do entretenimento brasileiro”.
A cátedra Norton: onde livros nasceram de conferências
A cátedra Charles Eliot Norton de poesia de Harvard foi fundada em 1925 para divulgar a beleza da “poesia no sentido mais amplo”. Personalidades do mundo das artes e das letras, como Nadine Gordimer, Linda Nochlin, Agnès Varda, T.S. Eliot, Igor Stravinsky, Jorge Luis Borges, Italo Calvino, Toni Morrison, Octavio Paz, Leonard Bernstein, Czeslaw Milosz e John Cage, já estiveram por lá. O evento é concorridíssimo e livros como “Esse Ofício do Verso”, de Borges; “O Romancista Ingênuo e o Sentimental”, do Pamuk; “Seis Passeios pelos Bosques da Ficção”, do Eco; e “Seis Propostas para um Novo Milênio”, do Calvino surgiram dessas conferências. Estive numa dessas conferências por sorte, já que queria comprar ingresso para o IgNobel.
Ferran Adrià e a laranja que humilhou Harvard
Uma palestra da série “Ciência e Culinária” foi ministrada por Ferran Adrià, inventor da cozinha contemporânea catalã e dono do restaurante El Bulli, três estrelas Michelin. Após uma breve apresentação, o convidado surgiu, levantou uma laranja e perguntou: “Vocês estão vendo que isso aqui é uma laranja, certo?”. Confirmamos com o devido rigor científico. O convidado, no entanto, advertiu: “Cuidado, prestem atenção, alguém por acaso sabe qual tipo de laranja é?”. Silêncio constrangedor. O convidado seguiu: “Bona, quantas frutas cítricas há no mundo?”. Um intelectual de suspensório se levantou: “Oitenta!” e foi refutado: “Amic, por pouco. Duas mil e quinhentas”. E ele prosseguiu: “Vocês sabem de onde a laranja é originária, certo?”. Novo constrangimento. Já perdendo a paciência, o chef comenta: “Bé, meus caros, da China! E sabem quem as trouxe para o mundo Ocidental?” Muitos responderam: “Marco Polo!” Após uma pausa sugestiva, Adrian dá uma bufada: “Os árabes, joder!”, e com um tom de repúdio, enxovalha: “É sério que estamos em Harvard?”. Foi divertido estar presente. No livro conto mais do que aconteceu!
Praça Inman e David Foster Wallace: pulsões, angústias e lagostas
Bem perto de onde eu morava, na Praça Inman, viveu um jovem repleto de pulsões, fúrias, angústias e lagostas. David Foster Wallace veio para Harvard em 1989 para fazer seu Ph.D. em Filosofia logo depois de ter concluído um mestrado em Artes na Universidade do Arizona. Conhecendo o epílogo de sua vida, é de se imaginar que o escritor passou por martírios. Wallace também havia desembarcado em abril, antes do começo do ano letivo, para tentar se habituar com a cidade. Seu início foi sofrido — seis meses depois de sua chegada, foi hospitalizado no McLean’s devido a uma crise depressiva e pelo abuso de álcool e medicamentos. Transtornos que se repetiriam ao longo da vida.
Lagostas: de frango de pobre a mistério evolutivo
Se você decidisse passear pela região de Massachusetts até início do século 20, iria se surpreender ao encontrar milhares de lagostas gigantescas. Porém, os habitantes daquela época iriam te encarar com desdém se você optasse por fazer um jantar com esse animal. Consideradas “frangos de pobre”, foram usadas como fertilizantes e oferecidas como ração para prisioneiros somente uma vez por semana (mais que isso era considerado crueldade). Casos de revoltas foram registrados pois empregados eram alimentados com lagosta. Atualmente, por ser uma iguaria, sabe-se pouco sobre o seu ciclo evolutivo, a expectativa de vida e o tamanho que poderiam alcançar. Especula-se, no entanto, que poderiam viver mais de cem anos e crescer indefinidamente. Uma curiosidade: nessa espécie as fêmeas assediam os machos. Não é necessário flerte ou noivado para a cópula; as fêmeas liberam um feromônio capaz de fazer com que os machos parem de brigar (e interrompam o bromance) e fiquem ludibriados pelos encantos da urina das fêmeas “optando” pelo sexo. David Foster Wallace escreveu um dos mais geniais textos sobre a lagosta: “Consider the lobster”.
A revista Philosophy and Literature e as passagens mais lamentáveis
Todos os anos a revista “Philosophy and Literature” realiza um concurso que nos lembra as bobagens escritas nas redações do Enem. Uma comissão de scholars analisa uma gama de artigos, pesquisas e livros acadêmicos e premia as “passagens mais lamentáveis”. A única condição para concorrer a essa láurea (que, em tese, ninguém deseja receber) é que os trechos destacados não sejam propositalmente irônicos e paródicos, afinal, serão esses os fragmentos ridicularizados pela posteridade. Em 1998 a revista premiou: “Dois dos estudiosos do campo literário mais populares e influentes do mundo estão entre os que escreveram os mais incognoscíveis trabalhos vencedores deste ano: Judith Butler e Homi Bhabha”. O segundo lugar do professor e consultor sênior do Presidente de Harvard se deu pelo seguinte texto: “Se, por algum tempo, o ardil do desejo é calculável para os usos da disciplina, logo em seguida a repetição da culpa, da justificação, das teorias pseudocientíficas, da superstição, das autoridades espúrias e das classificações, pode ser vista como o esforço desesperado de ‘normalizar’ formalmente a perturbação de um discurso de cisão que viola as exigências racionais, esclarecidas, de sua modalidade enunciatória”.


