Crônica

Eu sei como alimentar o silêncio com os meus olhos

Eu sei como alimentar o silêncio com os meus olhos

Mas já me agraciaram com o diploma de estranha. Eu como com os olhos. Eu lambo com a testa. Faço a nau conforme o rio, gostosinho e sem frescura. Quem me navega já sabe que eu mais rio do que choro. Ainda assim, sou boa companhia para a solidão porque sei como alimentar o silêncio com os meus olhos. Já pari menino. Já dei de mamar. As minhas tetas despencaram. Não me falem em silicone. Tenho os pés pequenos e tantos caminhos a percorrer que até eu duvido. Se eu quisesse morrer eu já tinha morrido.

Eusébio — ou as lições de um bonsai que repousa sobre minha mesa de trabalho

Eusébio — ou as lições de um bonsai que repousa sobre minha mesa de trabalho

Tenho um bonsai em cima da minha mesa e é para ele que olho toda vez que exerço uma pausa entre uma linha escrita e uma linha pensada. Tenho angústias, como sói acontecer com pessoas da minha idade, da minha profissão, da minha condição estrangeira, da minha natureza. O bonsai não é angustiado: exala calma, sossego, inércia. É da sua natureza. É sua natureza. É natureza.

Sobre crianças e crocodilos

Sobre crianças e crocodilos

Sem disfarçar o constrangimento, a mãe acorreu, afastou a criança e pediu desculpas pelo transtorno. Assustado, o garoto explicou que só queria saber por que a mulher de muletas tinha uma perna a menos do que todo mundo ali. Não se preocupe, senhora. Eu não me incomodo. Venha até aqui. O pequeno hesitou, olhou para a mãe e ela acabou assentindo. O menino de olhos vívidos permaneceu calado, na expectativa da revelação.

Adi e Oto

Adi e Oto

O homem se contorcia todo, girava sobre si mesmo. Pecha e pose de viajante influenciador digital. Esticava o braço alguns milímetros a mais do que o corpo permitia, era isso que deixava clara sua expressão facial, entre o êxtase e o desespero. Ao seu lado, a mulher parecia lamentar as férias, a companhia, o casamento.

Querem tomar o lugar do Seu Osvaldo?

Querem tomar o lugar do Seu Osvaldo?

Na rodoviária de Quiprocó da Serra de Santo Grande do Sul, Seu Osvaldo resiste à modernidade com o mesmo quepe alinhado e o orgulho de quem ainda oferece um “bom dia” e um cafezinho. Enquanto os aplicativos tomam conta das passagens, ele observa, descrente, o avanço das telas e das inteligências artificiais que não sabem olhar nos olhos. Entre gargalhadas secas e suspiros nostálgicos, Seu Osvaldo se pergunta: se o mundo mudou tanto, será que ainda há lugar para quem trabalha com alma?