Autor: Lara Brenner

O culto ao corpo e o atrofiamento dos cérebros bombados

O culto ao corpo e o atrofiamento dos cérebros bombados

Dando-se uma volta de três minutos no banheiro de alguma das (milhares de) academias por aí, tudo o que se ouve são projetos. O negócio parece escola de engenharia, até que se entenda a intenção por trás das falas: projeto-verão, projeto-Cancun, projeto-noiva, projeto-carnaval… É tanto projeto que Niemeyer morreria — de novo — de inveja. Uma voltinha nos aparelhos e já se pode produzir um artigo científico sobre termogênicos, esteroides, repositores energéticos, proteínas, vitaminas, pró-hormonais e hormônios.

A personalidade das palavras

A personalidade das palavras

Palavras têm personalidade, são voluntariosas, não se engane. Emprestam-nos seus corpos, mas os tomam quando querem. É preciso respeitá-las, e amá-las, e conhecê-las. São donzelas e senhoras que nos concedem danças honrosas e melífluas, mas, se irritadas, nos ferem o âmago com retumbantes faniquitos.

Gusttavo Lima e a hipocrisia dos sinalizadores de virtude

Gusttavo Lima e a hipocrisia dos sinalizadores de virtude

É tudo cancelamento. Cancelem todos esses homens e mulheres que absurdamente (!) carregam antivirtudes, mas que deveriam fingir santidade para agradar a quem nada de braçada na hipocrisia. E então, quando o ambiente for suficientemente asséptico e correto, façam uma “live” de unicórnios veganos e bonzinhos morando felizes em Nárnia. Quando a quarentena acabar, eles podem ser entrevistados no Programa da Fátima; será lindo.

O espírito não carrega excesso de bagagem. Tudo o que não servir mais, jogue fora

O espírito não carrega excesso de bagagem. Tudo o que não servir mais, jogue fora

Não sei você, mas tem hora que me sinto meio intoxicada. Abro as gavetas e só vejo bagunça, reparo um trincado feioso no vidro do celular, futrico as maquiagens e descubro que várias já passaram da data de validade. Esbaforida, percebo que o relatório prometido para a sexta passada está atrasado — de novo! — e que a visita ao centro de caridade que me comprometi a fazer acabou ficando para o mês que vem.

A insuportável presença de sua ausência

A insuportável presença de sua ausência

Tento me regozijar com o fato de que você já esteve aqui, mas isso só traz cólera e veneno. Antes não tivesse estado. Antes jamais tivesse me afundado nessa mescla de seda, e perfume, e faca, e fogo. Antes eu tivesse saído de perto, porque descobri a aniquiladora imortalidade em você. A imoralidade da imortalidade: talvez seja um bom livro.

Ode às humildes paroxítonas

Ode às humildes paroxítonas

Paroxítonas são a grande parte das palavras da Língua, força poderosa que define quase tudo o que dizemos e escrevemos. Imenso conjunto, mas pouco unido, plebe rude e talentosa que volta e meia abre mão de seus direitos em prol de oxítonas blasés (essa inodora classe do meio) e áticas proparoxítonas (essas políticas idílicas no Congresso do nosso léxico).

Como funcionam os neurônios de um apaixonado

Como funcionam os neurônios de um apaixonado

Gosto de beijar o canto do seu nariz, na junção com as bochechas. Você ri. Sabe que esse é nosso código de nada. É só um jeito que inventamos de passar o tempo diferentemente dos outros casais. Você franze o nariz, a gente brinda com um vinho quase bom, enquanto zomba do novo estagiário do seu trabalho e de como ele acha que a vida é séria.

A dor e a delícia de ser mulher

A dor e a delícia de ser mulher

Ser mulher é ouvir com abraço, sorrir com olhos, chorar com espírito e sonhar com ação. É franzir o cenho pra enxergar o que o outro tem de melhor, e a ele estender a mão (ainda que nem sempre a mereça). É ser inacreditavelmente leve, mas carregar um piano de culpa nas costas, movendo montanhas para tornar mais fácil o fardo do irmão.