Conforme o clima de incerteza e tensão entre as potências globais permeia o cotidiano até mesmo do cidadão comum, a arte cinematográfica reflete esse cenário, explorando a temática de formas distintas. Por vezes, o foco recai sobre debates sociopolíticos, enquanto em outras prevalece a estética visual, com amplos recursos da computação gráfica para ilustrar narrativas de impacto.
A proposta de “Steel Rain” não se ancora na análise minuciosa da geopolítica asiática, marcada há mais de sete décadas pela rivalidade entre as Coreias. Desde a Guerra da Coreia (1950-1953), concluída por um armistício, as tensões persistem. Sem que nenhum dos lados tenha reivindicado vitória formal, a desigualdade entre as nações se intensificou, com a Coreia do Sul consolidando uma supremacia tecnológica e econômica enquanto o Norte se mantém isolado, guiado pelo regime autoritário de Kim Jong-un.
Entre acusações mútuas, o diretor Yang Woo-seok adapta sua webtoon em um enredo que mescla política, espionagem e dilemas pessoais. A história acompanha um agente de inteligência do Norte, um personagem multifacetado, e um conselheiro presidencial do Sul, cujas falhas humanas contrastam com sua dedicação quase compulsiva ao trabalho, tecendo uma trama que evoca memórias da Guerra Fria e reflexões sobre o atual contexto global.
Em 2017, ano de lançamento de “Steel Rain”, as provocações nucleares entre Donald Trump e Kim Jong-un simbolizavam o auge de uma retórica beligerante. Nesse contexto, Yang constrói sua narrativa ao explorar a paranoia de um colapso global. Jung Woo-sung interpreta Cheol-u, um oficial norte-coreano encarregado de eliminar ameaças internas ao regime. Após presenciar uma explosão, sua jornada o coloca em uma complexa relação com Kwak Cheol-woo, secretário de Segurança Nacional sul-coreano. A interação entre os dois, carregada de contrastes e tensões, conduz a narrativa com força, potencializada pela dinâmica entre os atores.
A trama avança com uma reviravolta: o ditador norte-coreano, ferido em um atentado, é levado por Cheol-u a um refúgio improvável, onde o médico é obrigado a atuar sob coação. A partir daí, os eventos se intensificam, com perseguições, alianças improváveis e dilemas éticos que revelam as nuances dos personagens. Yang aproveita a oportunidade para abordar as desigualdades culturais e econômicas entre as duas Coreias, sem poupar críticas aos regimes de ambos os lados. O roteiro explora fragilidades humanas, como o distanciamento familiar do conselheiro sul-coreano e os traumas do agente norte-coreano, enquanto mantém um ritmo envolvente.
O trabalho de edição de Lee Gang-hee destaca-se, conferindo equilíbrio entre cenas de ação eletrizantes e momentos de introspecção dramática. Combinando sátira sociopolítica e um tom leve de nonsense, “Steel Rain” se sobressai por sua abordagem criativa, representando o melhor da produção cinematográfica sul-coreana e reafirmando a capacidade do país em mesclar crítica e entretenimento de maneira singular.
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