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Houve um tempo em que Stephen King era fascinado por crianças. Certo, em 2020 o Rei do Terror publicou “If It Bleeds”, coletânea de histórias curtas que inclui “Rato”; “Se Sangra”, que dá nome à publicação em inglês; “A Vida de Chuck” e “O Telefone do Sr. Harrigan”, descrevendo a relação de um garoto de oito ou nove anos com o mundo a sua volta, um lugar que se revela dia a dia mais hostil. Dirigido por John Lee Hancock, “O Telefone do Sr. Harrigan” (2022) também virou filme, e o caso é que “Chamas da Vingança” junta em uma história as obsessões habituais do escritor a um ligeiro mal-estar diante de infâncias traumáticas, remetendo o espectador de imediato a sucessos do calibre de “O Iluminado” (1980) ou “Carrie, a Estranha” (1976), as adaptações fílmicas para dois best-sellers kinguianos, a cargo de Stanley Kubrick (1928-1999) e Brian De Palma, respectivamente. Aqui, Keith Thomas reacende “A Incendiária” (1980) empenhado em disfarçar a impressão de que se trata apenas de honrar um contrato desfavorável, bem-amparado pelo roteiro de Scott Teems.

Uma bebê de menos de um ano é ninada no berço pelo pai e pouco depois o espectador tem o primeiro dos muitos sustos que fazem parte da natureza dos contos de terror de King. Alguns anos mais tarde, Charlene McGee é uma garota dotada da piromania que não pode controlar, herdado do pai, Andy. Tal como no longa de 1984, protagonizado por Drew Barrymore e David Keith, Ryan Kiera Armstrong e Zac Efron monopolizam as atenções, dividindo o público quanto à relação dos dois.

O desconforto cresce nas sequências em que Charlie ataca a mãe, Vicky, de Sydney Lemmon, num ataque telecinético esteticamente perturbador graças à computação gráfica da equipe supervisionada por Kristy Hollidge. John Rainbird, o caçador de fantasmas vivido por Michael Greyeyes, promete dar cabo da maldição dos McGee, porém alguns outros episódios inexplicáveis, como explosões cuja razão só Charlie e Andy compreendem, dificultam bastante o seu trabalho.

“Chamas da Vingança” talvez seja a menos impactante das produções baseadas nos romances de Stephen King. Assim mesmo, a direção segura de Keith Thomas tem o condão de garantir um ou outro gancho com os sucessos incontestáveis paridos da obra do autor, frisando a ideia-força de que crianças são universos onde cabem todas as emoções, as conhecidas e desejáveis, mas, principalmente, as ocultas e perigosas. E quem duvida?


Filme: Chamas da Vingança
Direção: Keith Thomas 
Ano: 2022
Gêneros: Terror/Ficção científica
Nota: 8/10

Giancarlo Galdino

Depois de sonhos frustrados com uma carreira de correspondente de guerra à Winston Churchill e Ernest Hemingway, Giancarlo Galdino aceitou o limão da vida e por quinze anos trabalhou com o azedume da assessoria de políticos e burocratas em geral. Graduado em jornalismo e com alguns cursos de especialização em cinema na bagagem, desde 1º de junho de 2021, entretanto, consegue valer-se deste espaço para expressar seus conhecimentos sobre filmes, literatura, comportamento e, por que não?, política, tudo mediado por sua grande paixão, a filosofia, a ciência das ciências. Que Deus conserve.

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