Em determinados momentos, a arte tem a capacidade de refletir com uma precisão impressionante as grandes deficiências de uma sociedade. O isolamento de uma população, motivado por fatores culturais, políticos, religiosos ou uma combinação desses elementos, cria uma complexidade social difícil de ser compreendida. Esse isolamento transforma-se numa verdadeira esfinge, que ameaça devorar aqueles que tentam decifrá-la.
“Milagre na Cela 7”, um drama que narra a história de um pastor de ovelhas com deficiência intelectual que precisa provar sua inocência após ser preso por um crime que não cometeu, oferece um vislumbre sobre a sociedade turca, especialmente no que diz respeito ao sistema jurídico e carcerário do país. Lançado em 2020, o filme, roteirizado por Özge Efendioglu e Kubilay Tat e dirigido por Mehmet Ada Öztekin, é uma adaptação de uma dramédia sul-coreana homônima de 2013, sublinhando a urgência em discutir o tema central da obra.
No filme, Memo, um pai solteiro interpretado por Aras Bulut Iynemli, cria sua filha Ova, vivida por Nisa Sofiya Aksongur, com a ajuda da avó, Fatma, personagem de Celile Toyon Uysal. Memo luta contra uma doença mental que o aprisiona num mundo paralelo, incapaz de provocar qualquer ato violento. Em um dia fatídico, Memo se encontra sozinho com a filha de um oficial do vilarejo onde vivem, na Anatólia. Em um acidente trágico, enquanto brincam perto de um precipício, a menina cai e morre. Sem testemunhas, Memo é imediatamente culpado pela morte e preso em flagrante. Posteriormente, ele é condenado à morte e aguarda sua execução na prisão, enfrentando a hostilidade e violência dos outros detentos, que se veem como menos culpados ao comparar seus crimes com o suposto delito de Memo.
A trama apresenta um maniqueísmo que sugere o pai da menina morta como o grande vilão, por ser uma figura poderosa. No entanto, Memo, um personagem carismático, rapidamente ganha a simpatia dos colegas de cela, que percebem sua inocência. A relação de Memo com os outros presos evolui, e eles passam a vê-lo como um ser frágil e inofensivo, quase como um mascote.
A história não detalha por que Memo se vê criando sozinho a filha, sugerindo apenas que a mãe de Ova casou-se com ele para evitar a vergonha de ser uma mãe solteira. Após a morte da avó, Ova é cuidada pela professora Mine, interpretada por Deniz Baysal, trazendo um toque de doçura ao enredo. Enquanto isso, Memo começa a se relacionar com os outros presos, especialmente com Askorozlu, um mafioso interpretado por Ilker Aksum, que muda sua opinião sobre Memo após ele salvar sua vida.
A trama se desenrola em torno de temas como a fragilidade da vida, a importância da liberdade e o cuidado com pessoas com limitações cognitivas. A sequência final, onde uma Ova adulta segura um presente de um dos prisioneiros, sugere que Memo conseguiu fugir e refazer sua vida em outro país, deixando uma mensagem de esperança.
“Milagre na Cela 7” aborda questões profundas sobre a injustiça e a luta pela dignidade em um mundo dominado pelo poder. A história comove e inspira, ao mesmo tempo em que denuncia a necessidade de atenção e cuidado para com os mais vulneráveis na sociedade.
Filme: Milagre na Cela 7
Direção: Mehmet Ada Öztekin
Ano: 2023
Gênero: Drama
Nota: 8/10