O filme da Netflix que é um dos mais assustadores da história do cinema

O filme da Netflix que é um dos mais assustadores da história do cinema

Uma peste sempre traz em seu bojo reflexões sobre como o homem chega a certo estado e estas, por sua vez, podem levar à possibilidade de mudança. Esse poderia ser um dos raciocínios por trás do lançamento de “Host”, de Rob Savage. Tudo começou a dar ainda mais errado com o mundo a partir de março de 2020. Dias depois, antes mesmo do fim daquele mês, a humanidade foi tragada por uma espiral de medo e paranoia e paralisada por alguma coisa que não conhecia, sobre a qual não tinha o menor conhecimento e, pior, que a impelia rumo a uma nova apreensão da vida, estranha, rude, perversa.

Tivemos de criar um jeito novo de nos relacionarmos com o mundo, aliás, não exatamente criar, mas readaptá-lo e colocá-lo em funcionamento o mais depressa possível, a fim de evitarmos que a catástrofe atingisse outros níveis. A arte se constitui por natureza numa ponte — do homem para consigo mesmo, para com o outro, para com a existência —, ao mesmo tempo que reflete o que se passa na sociedade, catalisa essa tendência e subverte o processo na medida em que se depara com falhas na construção da história. Expoentes de manifestações artísticas as mais diversas tiveram de ressignificar, antes de mais nada, o que queriam dizer a partir de então e qual a relevância de seu discurso mediante uma realidade tornada, literalmente do dia para a noite, ainda muito mais austera.

Fomos jogados numa espécie de abismo, fundo, escuro, lodoso, em que nada era mais o que sempre fora e ninguém sabia o que poderia fazer. Incontinente, palavras para as quais nunca havíamos atentado antes — “pandemia”, isto é, uma epidemia que se alastra pelo planeta como um todo; “quarentena”, a necessidade de guardar distância, mesmo de pessoas com as quais convivíamos desde sempre; “confinamento”, já incorporada ao vocabulário das massas por causa da pobreza dos tais reality shows — dominaram o cotidiano. Outrossim, vocábulos e ideias a exemplo de tédio, tempo livre, ócio, degeneração, loucura, amplamente cristalizadas em qualquer grupo social da face da Terra, se valeram do flanco aberto pela peste para se disseminar com força redobrada, também este um contágio de potencial ofensivo inestimável.

“Host” (2020), do realizador britânico Rob Savage, não faria o menor sentido se filmado num contexto que não remetesse ao do isolamento compulsório que o flagelo do coronavírus suscitou. Obrigados a se manterem cada um em sua casa, depois de algum tempo, seis amigos percebem que estão se deixando vencer, não pela infecção, mas por todos os males colaterais que ela fatalmente acarretaria, e resolvem sacudir um pouco o marasmo em que a vida tinha se transformado. Se a sugestão era mesmo dar um basta na rotina, o lógico seria fazer qualquer coisa totalmente inusitada, como invocar espíritos virtualmente com a consultoria de uma médium tarimbada. Haveria algo mais original?

Originalidade não é bem um dos maiores predicados do média-metragem de Savage. O expediente de se desenvolver um thriller de horror com o uso de equipamento caseiro — que, a depender da marca e de quem o opera, não deixam muito a dever a tantas produções milionárias homólogas (e até dão origem a filmes que as superam exatamente pela natureza inovadora do resultado) — já fora aplicado em outras ocasiões ao longo da história do cinema. O caso mais emblemático, sem dúvida, foi “A Bruxa de Blair” (1999), em que os diretores Daniel Myrick e Eduardo Sánchez contam a saga de três estudantes de cinema rodando um documentário amador sobre a habitante da floresta de Burkittsville que, no século 18, desaparecera sem deixar vestígio — tudo filmado por três câmeras de mão, cada uma conduzida por um ator. No caso de “Host”, passada mais de uma vintena de anos, a tecnologia fez seus progressos e o que se assiste é infinitamente superior à produção americana do ponto de vista técnico. No que diz respeito à narrativa, aqui, assim como em “A Bruxa de Blair”, o recurso do found footage, que enaltece o caseiro do filme, por óbvio também se faz presente, e mesmo o emprego de elementos do universo sobrenatural — lá, a bruxa; neste, um espírito preso ao mundo físico — se repete. A grande isca para a audiência em “Host” é a vivência comum do terror encarnado pelo vírus, um desconhecido que nos ameaça a todos. Já irremediavelmente apavorados pela evidência real da morte batendo às portas de vizinhos, de atores, de jovens, de velhos, os seis amigos da trama — e, por extensão, nós mesmos — se impressionariam facilmente ao se depararem com uma inócua falha de conexão e o pânico terminaria por se instalar.

Todo indivíduo que tenha uma prática espiritual qualquer sabe que o diabo não é tão feio quanto o pintam. Incorporações, fantasmas, demônios que se apossam de corpos humanos e falam por suas bocas, existem, mas são, além de raros, fenômenos que tocam mais a realidade à luz do inconsciente do que o fantástico, o extraterreno ou o maligno propriamente dito. A grande habilidade de Rob Savage é se utilizar de um elenco azeitado a fim de fazer o espectador acreditar que eles estão mesmo presenciando uma manifestação hiperfísica, quando são meras vítimas da histeria coletiva que nos assaltou na vida real, a uns mais que outros. Quando se dá conta disso, não nada mais a se fazer: a audiência já se rendeu ao ímpeto da história, que tem o poder de assustar mesmo.

“Host” é mais uma prova de que o gênero humano está mais perdido, vulnerável, desesperançado, aviltado do que nunca. Até do mais inocente entretenimento podem-se extrair grandes lições.