Gilberto Gil, o Super-Homem da música popular brasileira

Gilberto Gil, o Super-Homem da música popular brasileira

É bom ter amigos. Dinheiro emprestado. Um cargo comissionado no governo. Porres homéricos. Diversão com prostitutas. Alguém para trocar a fralda geriátrica, para esvaziar o saco de bostas, para avisar à enfermeira de plantão que o soro da veia já era ou que o coração parou de bater. No meu caso, fui agraciado com um lindo par de ingressos para o show de Gilberto Gil. Foi muita sorte a minha. Os preços estavam impraticáveis. E não foi por culpa do Gil. Coisas de mercado. Eu entendo. Para “ganhar os ingressos”, os clientes interessados tinham que comparecer a um determinado shopping da cidade e consumir tresloucadamente para receber, como bônus, “entradas grátis” para o espetáculo. Não gastei nem um puto. Gastar grana gera gastura à minha própria pessoa. Por sinal, ando a latir no quintal para economizar cachorro. Mas, a maturidade e o meu amor pela música dobraram o meu orgulho. Confiante num famigerado tráfico de influências — pequei, sim, confesso que pequei; minha culpa, minha máxima culpa —, solicitei ao meu editor na Revista Bula que cavasse bilhetes para mim. Credenciais da imprensa, ainda que eu não fosse um membro da imprensa.

Sentindo-se prensado, conseguiu as entradas. Mas, não existe almoço de graça. Acabei incumbido de entrevistar o baiano Gilberto Gil nos bastidores, a serviço da Bula, uma das revistas eletrônicas mais desprezadas e odiadas pelos sacripantas das redes sociais na internet. Topei a empreitada, não sou bobo e nem nada. Entrei no camarim carregando uma fedorenta sacola de pequis, com um bilhetinho pregado nele, onde ia advertido que nunca, jamais, nem se a vaca tossisse, Gilberto Gil e seus asseclas deveriam morder o caroço do pequi, sob pena de encherem a língua de espinhos, as minúsculas espículas que ficam no miolo. Chupar, podia. Gil achou a recomendação hilária, perguntou se pessoas hipertensas como ele podiam comer a iguaria, puxou uma cadeira e pediu, com a gentileza de sempre, que eu me sentasse.

Revista Bula — Fizeste um show incrível nesta noite. Confesso que me emocionei e até chorei.

Gilberto Gil — OK… OK… OK… Não chore mais.

Revista Bula — Fazia muito tempo que eu ansiava ver-te cantar num palco, com teu carisma e tua malemolência. Ainda mais, depois do perrengue terrível que padeceste, não faz muito tempo. Tua superação opera em mim milagres de esperança. Pois, vejo o mundo com tantas reservas, com tantas reticências…

Gilberto Gil — A gente precisa ver o luar. Amarra o teu arado a uma estrela. Pula, caminha. Realce. Quanto mais purpurina, melhor.

Revista Bula — Durante o show, depois de cantar “Andar com fé”, alguém da plateia te presenteou com um terço, adereço típico da igreja católica. Humildemente, tu guardaste o regalo e disseste, brincando: “Mesmo a quem não tem fé”. O que quiseste dizer com aquelas palavras?

Gilberto Gil — Se eu quiser falar com Deus, tenho que ter mãos vazias, ter a alma e o corpo nus.

Revista Bula — Quais as maneiras mais eficazes de se aproximar de Deus?

Gilberto Gil — Procissão. Retiros espirituais.

Revista Bula — Não faz muito tempo, tu passaste maus bocados, acometido por uma hipertensão arterial grave que evoluiu para uma insuficiência renal. Tive medo que tu morresses. Hoje, aos 77 anos, aparentas ótima saúde, encantas a plateia, comandas com categoria e esmero a tua banda de músicos notáveis, espocas os teus tradicionais agudos, falsetes, gritinhos, como se fosses um garotão. Qual o segredo da tua vitalidade, da tua energia? Por acaso, possuis um cérebro eletrônico? (risos)

Gilberto Gil — A paz. Eu aprendi a só ser. Eu vim da Bahia. Não tenho medo da vida. Não tenho medo da morte.

Revista Bula — Aceitas chiclete com banana?

Gilberto Gil — Quatro pedacinhos. Tenho sede.

Revista Bula — Traz um copo d’água para o Gil, por favor. Obrigado, Madalena. Atualmente, onde tu moras?

Gilberto Gil — Sítio do Pica-Pau Amarelo.

Revista Bula — Pelo nome, deve ser um lugar mágico.

Gilberto Gil — Superbacana. Esotérico. A coisa mais linda que existe.

Revista Bula — Qual trem se pega até lá?

Gilberto Gil — Expresso 2222.

Revista Bula — E quem tu levas contigo, habitualmente?

Gilberto Gil — Ela. Flora. Minha senhora. Musa cabocla.

Revista Bula — Onde ela está agora?

Gilberto Gil — Nos barracos da cidade. Esperando na janela.

Revista Bula — Já faz muito tempo que estão casados?

Gilberto Gil — Desde que o samba é samba (risos). Eu só quero um xodó.

Revista Bula — A música popular brasileira parece enfrentar um recesso criativo abissal. O que há de novo e de bom para se ouvir hoje?

Gilberto Gil — Sargento Pimenta e a Banda Solidão.

Revista Bula — Nunca ouvi falar. Não os conheço.

Gilberto Gil — Cada macaco no seu galho.

Revista Bula — O que eles cantam?

Gilberto Gil — Cantigas de quem está sol.

Revista Bula — Tu já foste Ministro da Cultura. Na tua opinião, como está hoje o empenho estatal em prol da cultura no país?

Gilberto Gil — Quarto mundo. O sonho acabou.

Revista Bula — Como tu vês as atitudes do presidente Mojo Filter?

Gilberto Gil — Pessoa nefasta. Homem de Neandertal.

Revista Bula — Os filhos o atrapalham muito, não?

Gilberto Gil — Outros bárbaros.

Revista Bula — A política no Brasil tem jeito, Gil?

Gilberto Gil — Funk-se quem puder. Vamos fugir (risos).

Revista Bula — O melhor lugar do mundo ainda é aqui?

Gilberto Gil — Aqui e agora. Ninguém segura este país.

Revista Bula — Quando será o teu próximo show?

Gilberto Gil — Domingo no parque. Back in Bahia.

Revista Bula — Foi uma honra ter conversado contigo, por meio da música. Manda preparar o pequi ao molho, com galinha caipira. Fica uma delícia. Obrigado por me receber, meu amigo, meu herói.

Gilberto Gil — Só chamei porque te amo. O Rio de Janeiro continua lindo como Goiânia. Aquele abraço.