Um dos melhores romances americanos de que você nunca ouviu falar

Um dos melhores romances americanos de que você nunca ouviu falar

Por que ler 314 páginas sobre a vida de um professor universitário, que, do nascimento até a sua morte, nada de louvável realizou?’’

Antes de iniciar a leitura de “Stoner’’, do autor americano John Williams, o leitor é advertido com uma sinopse honesta e quase desestimulante sobre a obra. Trata-se da vida de um homem, William Stoner, filho de camponeses humildes, que descobre a paixão pela literatura e abandona o trabalho rural para tornar-se professor universitário.

A partir disso, sua vida desdobra-se como o fio de um novelo sem grandes deformações ao longo de acontecimentos banais na trajetória de um homem contaminado pelas convenções do século 20, como a ascensão profissional, o matrimônio e a paternidade. Os eventos da vida de Stoner são capitulados de forma cronológica através de uma narrativa seca que preza pela precisão formal.

“Stoner’’ mostra-se como uma obra essencial, esculpida nos detalhes mais difíceis de pôr em palavras e retrata o poder da literatura em elevar todos os tipos de existência — dos gloriosos até os mais banais.

Antes de iniciar a leitura de “Stoner’’, do autor americano John Williams, o leitor é advertido com uma sinopse honesta e quase desestimulante sobre a obra. A partir disso, sua vida desdobra-se como o fio de um novelo sem grandes deformações ao longo de acontecimentos banais na trajetória de um homem contaminado pelas convenções do século 20, como a ascensão profissional, o matrimônio e a paternidade.
Stoner, de John Williams (Rádio Londres, 314 páginas)

A sedução que “Stoner’” exerce nos leitores é gerada, também, pela sua trôpega e curiosa trajetória editorial. O livro foi publicado em 1965 e não obteve grande repercussão na época — alcançou apenas uma tiragem de 2 mil exemplares. Mas, em 2003 a obra passou a ser reconhecida e traduzida em diversos países. O jornal britânico “The Guardian” considerou-o uma das leituras obrigatórias em 2013 e no mesmo ano, a “New Yorker” descreveu-o como o melhor romance americano de que você nunca ouviu falar. Esse hiato de quase 40 anos de esquecimento conferiu tons de tesouro perdido à obra. Algo outrora maculado e hoje, exaltado.

Mas, por que em tempos de barulho e exibicionismo, uma narrativa banal como a de “Stoner” chama a nossa atenção? A resposta é simples. “Stoner” é um descanso. Um consolo. É real em todas as esferas. É uma vida sem muitos picos e depressões, mas que contém os infortúnios que são íntimos a todos nós. Definir Stoner como sujeito é difícil. Sua personalidade está localizada nos contrastes existentes entre a resignação e a mediocridade. Entretanto, seria equivocado colocá-lo como um fracassado, pois a prerrogativa do fracasso é a tentativa e Stoner não tenta. Apenas aceita. Ele apresenta-se como algoz e vítima da sua mudez perante os acontecimentos.

Muitas vezes, ele pressente o infortúnio de suas ações antes delas se concretizarem. Quando decide se casar com Edith, por exemplo, Stoner já enxerga a empreitada como um grande fracasso e mesmo assim, continua.

“Em um mês, ele entendeu que seu casamento era um fracasso. Em um ano, deixou de ter esperanças de que iria melhorar. Aprendeu o silêncio e não insistiu em seu amor. Ainda assim, eles se obstinavam em compartilhar a mesma cama.”

A prosa límpida e sem arroubos é um fator que realça a obra.  O autor prima pela ausência de qualquer excesso estilístico e constrói uma arquitetura suave das palavras, que, indiretamente, confere acabamento à vida simplória de Stoner. Há alguns momentos em que o livro toma um fôlego de súbito e torna-se irrespirável. Essa aceleração narrativa ocorre mais visivelmente no momento em que Stoner participa do exame oral para a admissão de Charles Walker, um aluno nitidamente preguiçoso e desonesto, mas protegido pelo seu orientador.

Durante a arguição, Stoner realiza perguntas simples e diretas ao aluno.

“Você tem familiaridade com os poemas de Lord Byron?”

 “Você poderia me dar o nome de algum drama significativo de Shakespeare?”

Charles, por sua vez, não responde de forma objetiva. Faz rodeios, floreia, articula, ironiza e deforma as respostas, o que causa irritação em Stoner. O autor consegue traduzir essa tensão de tal maneira, que, durante todo o longo e penoso processo de defesa, a sala de aula incorpora ares de arena romana.

A vaidade velada no meio acadêmico está presente durante toda a jornada de Stoner, porém, mesmo com críticas pertinentes à docência, o livro evoca a importância da educação na formação do indivíduo. Ao fim da trajetória de William Stoner, damos adeus à sua vida com a tristeza de quem se despede de um amigo íntimo, justamente porque Stoner é um anti-herói concebido através de distâncias: longe de si, mas sempre perto do leitor.