Discover
Com Julia Roberts, romance na Netflix ensina que mais importante do que amar alguém é amar a si próprio François Duhamel / CTMG

Com Julia Roberts, romance na Netflix ensina que mais importante do que amar alguém é amar a si próprio

Muita gente sonha em largar tudo quando percebe que está vivendo uma vida que não reconhece mais como sua. Em “Comer, Rezar, Amar”, Julia Roberts interpreta Elizabeth, uma escritora que aparentemente tem tudo organizado, mas sente que seu casamento e sua rotina em Nova York viraram uma espécie de contrato vazio. Dirigido por Ryan Murphy e baseado em uma história real, o filme acompanha a decisão radical de Elizabeth de pedir o divórcio, deixar o apartamento e tirar um ano para viajar por Itália, Índia e Bali, numa tentativa prática de se reconstruir. O conflito é simples e direto: ela precisa descobrir quem é sem estar definida por um relacionamento.

A primeira parada é Roma, onde Elizabeth decide que vai aprender italiano e, principalmente, reaprender a sentir prazer sem culpa. Ela se joga nos restaurantes, faz amigos, erra o idioma, ri de si mesma e, aos poucos, começa a relaxar uma rigidez que carregava havia anos. O dinheiro precisa durar, o tempo é contado e a dúvida sobre ter feito a escolha certa ainda aparece, mas ela insiste em permanecer. O humor surge nas pequenas situações do dia a dia, nas conversas atrapalhadas e na leveza dos encontros, e Julia Roberts sustenta essa fase com carisma e uma vulnerabilidade que aproxima o público.

Na Índia, o tom muda. Elizabeth entra em um ashram para meditar e tenta impor disciplina à mente inquieta que nunca para. A rotina é rígida, os dias começam cedo e o silêncio pesa. É ali que ela conhece Richard, personagem de Richard Jenkins, um homem direto, sarcástico e experiente o suficiente para enxergar as contradições dela. Ele provoca, confronta, aconselha. Elizabeth resiste, depois escuta. Essa convivência funciona como um espelho incômodo, mas necessário, e faz com que ela encare erros e padrões que antes preferia ignorar. Não há glamour nesse trecho, há esforço real, e isso dá ao filme um chão mais concreto.

Quando chega a Bali, Elizabeth já não é a mesma mulher que saiu de casa. Ela está mais consciente do que quer preservar e do que não aceita mais negociar. É nesse cenário que surge Felipe, interpretado por Javier Bardem, um homem maduro, também marcado por perdas, que se aproxima com cautela e interesse genuíno. O romance que nasce ali não é impulsivo nem idealizado; ele é construído em conversas, hesitações e limites claros. Elizabeth precisa decidir se consegue amar sem abandonar a própria autonomia, e Felipe também testa até onde está disposto a ir. A química entre Roberts e Bardem funciona porque há maturidade e fragilidade nos dois lados.

“Comer, Rezar, Amar” pode parecer, à primeira vista, um filme sobre turismo emocional, mas ele é mais sobre responsabilidade afetiva do que sobre paisagens bonitas. Ryan Murphy conduz a história sem pressa, permitindo que cada etapa tenha peso e consequência. Elizabeth não está fugindo apenas de um casamento fracassado; ela está tentando interromper um padrão que a fazia se moldar aos outros. O filme não entrega respostas mágicas nem transforma a protagonista em alguém iluminado de uma hora para outra. Ele mostra um processo, com avanços, recaídas e escolhas que custam alguma coisa.

É um drama com toques de comédia e romance que funciona melhor quando se mantém humano e imperfeito. Julia Roberts segura o centro com naturalidade, Richard Jenkins traz densidade nas cenas da Índia e Javier Bardem adiciona calor e equilíbrio na reta final. “Comer, Rezar, Amar” convida o espectador a pensar no próprio medo de mudar e no preço de continuar onde não se é feliz. E só por colocar essa pergunta em circulação, já vale a viagem.

Filme: Comer, Rezar, Amar
Diretor: Ryan Murphy
Ano: 2010
Gênero: Biografia/Comédia/Drama/Romance
Avaliação: 8/10 1 1
★★★★★★★★★★
Fernando Machado

Fernando Machado é jornalista e cinéfilo, com atuação voltada para conteúdo otimizado, Google Discover, SEO técnico e performance editorial. Na Cantuária Sites, integra a frente de projetos que cruzam linguagem de alta qualidade com alcance orgânico real.