— Corra que Jesus vem aí, meu chapa.
Não estava nem um pouco disposto a ouvir as pregações sebosas do Piolho àquela hora da manhã. Apesar de não ter sido convidado, puxou uma cadeira e se sentou ao meu lado, na Lanchonete da Tia Nair, fazendo que eu me sentisse o mais desafortunado dos homens.
— Jesus, quando voltar, virá com uma faca entre os dentes.
O comentário jocoso fez-me lembrar de Rambo, o personagem de Sylvester Stallone. Achei a hipérbole digna de ser incluída no meu próximo livro. Então, tomei nota no maço de Jeronimo’s para não me esquecer. Minha memória secava como merda no asfalto. A fala fanática utilizada pelo Piolho era uma espécie de variação da icônica frase de Guimarães Rosa em “Grande Sertão: Veredas: “Deus, quando vier, que venha armado”. Rosa foi um escritor incrível, o maior de todos. Era pouquíssimo provável que Piolho fizesse uma alusão consciente ao romance de Rosa, tendo em vista que ele repelia a leitura de livros, com exceção dos sacros. Eu achava tudo aquilo um saco, enquanto ele curtia a atmosfera violenta e intolerante do Velho Testamento, só para se ter uma ideia.
— Recuperou-se da descarga elétrica, Merval?
Piolho não gostava de ser chamado de Piolho. Então, chamei-o pelo nome de batismo. Ele estava entre as dezenas de vítimas do raio que caiu sobre a multidão na capital federal, durante uma manifestação política pela anistia do ex-presidente Mojo Filter e pela volta imediata dos militares ao Forte Apache, quer dizer, pela volta imediata dos milicos ao poder central da nação.
— Nem doeu. Sapequei os cabelos, a ponta das orelhas e ficou nisso. Nada de grave, graças a Deus. Pior de tudo foi perder os meus coturnos, sabe? Não é de ver que eles explodiram nas pontas, deixando os meus dedos para fora, chamuscados, fumegantes, subindo uma fumacinha que nem nos desenhos animados?
Imaginei a cena e não me contive.
— Não ria, doutor. É pecado caçoar da desgraça dos outros. Eu vi a cara feia da morte. Foi horrível.
— Desculpe. Não tive a intenção. Você escapou por pouco. A descarga elétrica proveniente de um raio é imensurável.
— Hein?
— Descomunal. Intensa. Foi muita sorte sua.
— Não se trata de sorte, caro comuna.
— Nunca fui comunista, Merval. Não que isso fosse um problema. A única criancinha que eu comi tinha 20 anos de idade. Rendeu-me um baita estrogonofe.
— Você é um caso perdido, doc. Mesmo assim, não vou deixar de ser seu amigo. Me paga um lanche, prezado?
— E eu tenho escolha? Peça o que quiser, mas não abuse.
— Ter sobrevivido ao acidente elétrico foi um verdadeiro milagre, sabia?
— Por que vocês não voltaram para casa, Merval? Era uma tempestade anunciada. Todo mundo sabe que raios e relâmpagos são frequentes nessa época do ano. Ainda mais num vasto descampado como aquele.
— Verás que um filho teu não foge à luta.
— Joaquim Osório Duque-Estrada.
— Quem é esse?
— Não importa. Prossiga. E não toque mais no meu lanche, por gentileza.
— Preste atenção, camarada. O meu corpo está fechado, ungido pela igreja, se é que você compreende o significado desse tipo de coisa, tendo em vista que é um ateu declarado até sofrer a primeira cólica de rins.
Sentia uma vontade danada de urinar, mas aguentei firme e mordisquei o misto-quente.
— O gigante adormecido acordou, cara pálida — pensei que ele falasse do próprio falo. Vamos tirar os esquerdopatas do governo, nem que seja a pontapés.
— Melhor esperar as próximas eleições, Merval. Insurreições antidemocráticas estão sendo tratadas com rigor pelo poder judiciário. Tem muita gente em cana por ter atentado contra a constituição.
— Velhos. Velhinhas. E a pobre mulher do batom. Que palhaçada. Vivemos numa ditadura, senhor. Só não enxerga quem não quer. A vontade do povo deve prevalecer.
— Nesse ponto, concordamos. É preciso respeitar a vontade popular e o resultado das urnas.
— Dessas urnas adulteradas? Você acredita mesmo que as últimas eleições foram limpas?
— Não tenho motivos para duvidar. Afinal de contas, veja só como ficou o congresso nacional com a eleição dessa cambada de deputados. Deve ser o pior parlamento de todos dos tempos.
— Pior só ser for pra você, parceiro. Não acredita em Deus, mas acredita em urna eletrônica. Quanta hipocrisia.
— Piolho, a conversa está ruim, mas eu preciso ir andando.
— Não gosto que me chamem de Piolho.
— Desculpe, Merval. Não vai acontecer novamente. Adeus. Passe bem.
— Paga o meu lanche?
— Eu já tinha dito que pagaria.
— Antes de sair, quer ouvir um poema que eu escrevi depois do raio, dentro da ambulância? Chama-se “Pátria que me pariu”.
— Muito criativo. Mas, creio que já ouvi isso em algum lugar. Tome os seus remédios, Merval. E fica na paz.
— Vá pela sombra, doutor. Mas, vá depressa. Fique esperto. Corra que Jesus vem aí.
Piolho gargalhou de forma histriônica, esparramando perdigotos até onde a vista alcançava.


