Lobistas se confundem com a própria política. Desde o século 17, esses senhores recendendo a fumo e uísque rondam os saguões dos hotéis de Washington, D.C. cavando oportunidades nem sempre republicanas, muitos sem nenhum pudor de exercitar o talento para fazer dinheiro, lícito ou não, e transformar a influência uma mercadoria rendosa. Quatro séculos depois, mulheres bonitas e mordazes como Margaret Elizabeth Sloane também aprenderam a transitar por esses terrenos pantanosos, valendo-se de predicados que a sua bela figura ostenta. Perfeccionista como sempre, John Madden faz de “Armas na Mesa” um brilhante estudo de personagem, tendo por pano de fundo o alcance da indústria bélica nos Estados Unidos. E vai além.
Branca de Neve e a bruxa
Mirando seu reflexo, a senhorita Sloane recita não o célebre “Espelho, espelho meu” — bem que poderia ser —, mas uma espécie de discurso para consagrar sua vitória no começo de mais um dia de trabalho. Workaholic assumida e orgulhosa, ela dorme pouquíssimo, não sossega enquanto tudo não esteja a seu gosto e para isso chega a ficar acesa por até dezesseis horas todos os dias, à custa das anfetaminas e barbitúricos que guarda numa caixa de prata na bolsa. Minutos depois, o roteiro de Jonathan Perera
mostra a protagonista diante do “vovô” Ronald Sperling, uma das raposas mais felpudas do Capitólio, tendo de detalhar sua atividade na Cole Kravitz & Waterman, um prestigioso escritório de representação comercial junto ao setor público, acusada de ter subornado burocratas e oferecido propina a parlamentares. Tudo encenação.
Onde tudo começou
Madden dedica boa parte do filme a remexer o passado de Sloane. Três meses e uma semana antes do depoimento ao Senado, ela decidira confrontar seu antigo empregador e transferir-se para uma organização bem menor, liderada por Rodolfo Schmidt, um sujeito meio bonachão e idealista, que defende aprimorar os mecanismos de comercialização de armas. A primeira das várias boas cenas de Jessica Chastain é justamente com Mark Strong, na saída de um convescote temático. Ela sabe do jeito mais inusitado com quem está falando e, a partir daí, Chastain vai costurando as subtramas, todas empenhadas em tentar imiscuir os universos paralelos da intimidade e do tanque de guerra que Sloane é como profissional. Além de viciada em pílulas, Sloane gosta de recorrer a piadas sobre padres lascivos e freiras burras quando alguém parece não saber do que está falando e contrata garotos de programa, fugindo das armadilhas da vida conjugal. Elizabeth Sloane é um caos ambulante.
Freios e contrapesos
“Armas na Mesa” não é tão feliz na exposição da tragédia do onipresente arsenal em todos os estratos da sociedade americana, mas é capaz de compensar essas fraquezas quando mira Sloane. O diretor de fotografia Sebastian Blenkov sublinha o contraste das roupas escuras e sóbrias da protagonista com sua pele alva, e desta com o cabelo ruivo e a boca vermelho-sangue, capturando a aura de fera e dama da personagem. Chastain dá o show habitual, sublinhando o cinismo de Sloane como a estratégia de defesa de uma mulher num ambiente e num negócio masculinos, no que, como mostra o desfecho, tinha razão. Sloane vence, mas só depois de perder tudo.
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