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Na Netflix: Kevin Costner no auge em um épico de aventura que não envelhece — para ver e rever Divulgação / Warner Bros.

Na Netflix: Kevin Costner no auge em um épico de aventura que não envelhece — para ver e rever

Kevin Costner entra como Robin de Locksley sem preparo longo: a história o traz de volta e já o põe em movimento. Ele reage, corre, se esconde e atravessa espaços sem tempo para acomodar a própria volta. Sempre há alguém acima dele usando poder e violência para impor regra, e isso encurta qualquer pausa. “Robin Hood — O Príncipe dos Ladrões” escolhe acompanhar esse caminho mais simples de seguir: um homem retorna, encontra a casa quebrada, entende quem manda agora e precisa decidir se atravessa em silêncio ou se começa a juntar gente. A sessão rende quando a informação vem grudada no deslocamento, porque a urgência aparece no corpo e no fôlego.

O xerife de Nottingham puxa várias cenas para o mesmo ponto: mandar, punir, recolher e intimidar. Alan Rickman ocupa o papel controlando o tempo da sala. Ele estica falas, segura os outros no quadro e faz a cena esperar a próxima humilhação. Para o espectador, a ameaça fica clara rápido, mas o relógio também desacelera. Quando o filme volta ao gabinete de poder, a aventura freia; depois precisa de mais corrida para recuperar o ritmo da perseguição.

Gabinete de poder, relógio lento

Azeem entra como companhia fixa e, com Morgan Freeman, a forma de atuar de Robin muda de um jeito fácil de notar. Quando ele está em quadro, Robin não age só no impulso: precisa falar, explicar o que pretende e medir risco com alguém ao lado. O filme repete esse arranjo várias vezes — Robin puxa, Azeem observa, a conversa entra e a ação segue — e isso ajuda a manter a linha quando a história passa por decisões de grupo. O problema aparece quando a conversa cresce demais: o plano vira debate, o espectador espera o próximo deslocamento, e o filme perde minutos que tenta recuperar na correria.

A chegada à Floresta de Sherwood troca o tipo de ameaça. Em vez de um inimigo com autoridade formal, surgem ataques de camponeses que sobrevivem como dá, mirando os asseclas do xerife. A história repete a lógica de rua: falta comida, falta proteção, sobra perseguição. A cada emboscada, o público entende o gesto — chega gente armada, toma o que precisa, some — e também sente a repetição pesar quando a cena volta ao mesmo movimento sem acrescentar uma decisão nova. Quando o ataque vem com mudança de rumo, a atenção sobe; quando a ação repete o mesmo ciclo, a sessão cobra paciência.

A organização do bando acontece na base do trabalho: reunir, dividir tarefa, combinar horário, tentar coordenar gente que não confia em ninguém. O filme acerta quando deixa essa coordenação cobrar algo visível — reunião que alonga, discussão que atrasa a saída, deslocamento que exige silêncio, risco que obriga recuo. Sem alongar explicação, dá para notar como a liderança de Robin depende de não errar duas vezes seguidas, porque cada erro vira atraso e mais perseguição no caminho. Quando a montagem acelera demais para chegar ao próximo confronto, parte desse peso some, e a aventura fica mais leve do que vinha sendo.

Floresta e emboscadas na estrada

Marian entra como peça que tira Robin do ciclo “fugir e atacar” e o força a negociar tempo e exposição. Mary Elizabeth Mastrantonio trabalha com fala direta e postura firme; a relação aparece menos como pausa romântica e mais como conversa que muda o próximo passo. A cada encontro, o filme troca correria por diálogo e recoloca o risco de modo prático: estar perto dela implica se expor, deixar rastros, errar o tempo do próximo movimento. Quando o corte devolve rápido a perseguição, a sequência anda; quando segura demais na aproximação, o espectador volta a sentir a sessão alongar.

A missão de impedir a consolidação do Príncipe João e trazer Ricardo Coração de Leão de volta ao poder entra sempre como objetivo de sobrevivência, não como discurso. A disputa pelo trono aparece pelo efeito imediato: quem cobra, quem bate, quem manda prender. Toda vez que o filme lembra esse alvo, ele puxa os personagens para uma tarefa com prazo — organizar gente, escolher momento, evitar ser pego antes de agir. Ainda assim, a insistência em reafirmar o mesmo inimigo pode soar repetitiva, porque a sessão já deixou claro quem está armado e quem está vulnerável.

Perto do fim, o filme pesa quando alterna entre preparar ação e adiar ação. Há trechos em que ele segura conversa e preparação até o espectador ajustar postura na cadeira e esperar “agora vai”. Então vem a sequência que recompensa a espera com barulho, correria e gente se movendo de um lado para outro. Esse vai-e-volta cobra atenção: quando a cena entrega deslocamento, dá gosto de acompanhar; quando segura demais, a energia baixa e a sessão vira compromisso.

No conjunto, “Robin Hood — O Príncipe dos Ladrões” depende do que acontece na frente do espectador — gente se juntando, atacando, recuando, voltando a tentar — mais do que de qualquer volta elaborada de trama. Ele acerta quando mantém a ação ligada a consequência imediata: alguém se expõe, alguém perde tempo, alguém precisa correr mais do que queria. E tropeça quando o confronto vira fala prolongada, sobretudo do lado do poder, que prende o ritmo e pede esforço para não dispersar. Quando retorna à floresta e à coordenação sob risco, a cena volta a alternar corrida e pausa, sem dar ao espectador muita chance de descansar.

Filme: Robin Hood — O Príncipe dos Ladrões
Diretor: Kevin Reynolds
Ano: 1991
Gênero: Ação/Aventura/Drama/Romance
Avaliação: 8/10 1 1
★★★★★★★★★★