Um estudo de personagem, “Marcas da Violência”, de David Cronenberg, é um thriller curto e sólido, inicialmente baseado na premissa da HQ da Vertigo, escrita por Vince Locke e John Wagner, mas com seu cerne narrativo completamente reconstruído em parceria com o roteirista Josh Olson. Lançado em 2005, o longa traz Viggo Mortensen no papel de Tom Stall, dono de uma lanchonete em uma pequena cidade fictícia chamada Millbrook, no interior de Indiana. As filmagens, no entanto, foram realizadas em Ontário, no Canadá.
Tom é um cidadão aparentemente comum: tranquilo, pai de família, trabalhador e respeitado pela comunidade. Essa normalidade é rompida quando dois criminosos invadem sua lanchonete e ele os mata com frieza, precisão e método. Da noite para o dia, Tom se transforma em herói local e passa a ocupar espaço nos noticiários nacionais. A exposição atrai um grupo de criminosos da Filadélfia. O líder deles, Fogarty (Ed Harris), afirma reconhecer Tom como Joey Cusack, um antigo associado do crime organizado. Segundo ele, o passado de Tom está longe de ser pacífico. Tom nega, insiste que se trata de um engano e reafirma a identidade que construiu.
Em casa, Tom vive com a esposa Edie (Maria Bello), a filha pequena e o filho adolescente Jack (Ashton Holmes), vítima constante de bullying na escola. Após testemunhar o pai agir com violência extrema, Jack encontra coragem para enfrentar seus agressores e descobre na força física um novo meio de conquistar respeito. A violência, antes distante, passa a reorganizar as dinâmicas familiares. Enquanto isso, Fogarty e seus homens seguem pressionando Tom, certos de que ele não é quem diz ser.
Spoilers a partir daqui
À medida que o cerco se fecha, Tom é forçado a confrontar não apenas os criminosos, mas a própria identidade que tentou enterrar. Para proteger a família, ele permite que Joey Cusack volte à superfície. Não como explosão descontrolada, mas como algo que sempre esteve ali: contido, funcional, à espera. O filme deixa claro que Tom mentiu, mas também que ama sua família. Sua nova vida não é uma farsa vazia, é uma tentativa real de domesticação.
“Marcas da Violência” expõe uma verdade perturbadora: não conhecemos verdadeiramente ninguém. A sociedade aceita aquilo que deseja enxergar, assim como Edie aceita a versão de Tom que lhe oferece segurança e afeto. Quando essa narrativa se rompe, a reação não é compreensão, mas rejeição.
A revelação do passado destrói a imagem pública de Tom e o recoloca no centro de um mundo violento do qual tentou escapar. Ainda assim, o filme deixa claro que ele não mata por prazer, nem por psicopatia. Tom se importa com sua moral, com os filhos, com o exemplo que oferece. Sua violência é precisa, estratégica, quase mecânica. Ela surge apenas quando a sobrevivência e a proteção da família exigem.
A cidade o rejeita ao perceber que o herói não era tão puro quanto imaginavam. A família, ferida e ressentida, permanece. Em um lar marcado por silêncios e fraturas, Cronenberg sugere que, no fim, só existe um verdadeiro espaço de pertencimento: a família.
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