“Kate & Leopold” é uma comédia romântica que parte de uma premissa fantasiosa, mas se sustenta no choque muito concreto entre tempos, hábitos e expectativas. Leopold (Hugh Jackman), um duque inglês do século 19, surge na Nova York contemporânea como alguém educado demais para um mundo apressado, prático e pouco disposto a gentilezas prolongadas. Do outro lado está Kate McKay (Meg Ryan), uma executiva de publicidade que vive sob prazos apertados, cobranças constantes e pouco espaço para desvios emocionais. O encontro entre os dois não é tratado como destino inevitável, mas como um atrito contínuo entre rotinas incompatíveis.
Hugh Jackman constrói Leopold sem caricatura. Ele não joga o personagem para o exagero cômico fácil, preferindo uma elegância contida que faz o humor nascer do contraste, não da piada óbvia. Cada tentativa de adaptação do duque ao presente carrega um pequeno custo: estranhamento social, dependência de terceiros ou simples inadequação prática. Isso dá peso às situações e impede que a fantasia vire apenas enfeite. Leopold precisa aprender rápido, observar mais do que falar e aceitar que boas maneiras nem sempre garantem passagem livre.
Meg Ryan, por sua vez, ancora o filme na realidade. Kate é apresentada como alguém competente, cansada e constantemente pressionada. A presença de Leopold desorganiza sua rotina, interfere no trabalho e obriga decisões que ela claramente preferiria adiar. Ryan faz esse conflito aparecer em gestos simples, na impaciência contida e nos momentos em que a personagem precisa escolher entre controle e abertura. Não há idealização da vida moderna, mas também não há nostalgia ingênua do passado.
Liev Schreiber, como Stuart, funciona como elo instável entre esses dois mundos. Seu personagem tenta controlar a situação, promete mais do que consegue cumprir e acaba lidando com as consequências práticas dessa falta de domínio. Ele é menos motor da história e mais catalisador de problemas, o que ajuda a manter o conflito em movimento sem recorrer a explicações excessivas.
James Mangold dirige com discrição. A fantasia nunca toma conta do filme a ponto de apagar os personagens, e o romance avança mais por convivência do que por grandes declarações. O humor surge de situações observáveis e de decisões pequenas que saem do controle, enquanto o romance cresce no espaço deixado por essas falhas. “Kate & Leopold” funciona porque entende que o encantamento só faz sentido quando cobra um preço, mesmo em histórias que brincam com o impossível.
★★★★★★★★★★




