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Humano, agridoce e delicado: um dos filmes mais bonitos que chegaram ao Prime Video em dezembro Divulgação / Elite Filmes

Humano, agridoce e delicado: um dos filmes mais bonitos que chegaram ao Prime Video em dezembro

Rory MacNeil se agarra à própria ilha como quem segura uma corda no mar agitado: ali ele manda, conhece os ventos, escolhe as brigas. Em “Antes de Partir”, Brian Cox encarna esse velho escocês que recebe um diagnóstico terminal e, a contragosto, aceita viajar a San Francisco para buscar tratamento e morar com o filho distante. JJ Feild interpreta Ian, o filho que tenta manter a casa de pé, e Thora Birch faz Emily, a nora que mede cada conflito pelo impacto no bebê. Dirigido por Oded Binnun e Mihal Brezis, o conflito central é ajustar pai e filho sob um relógio biológico que não pede licença.

A saída das Hébridas é gesto de sobrevivência e, ao mesmo tempo, de derrota íntima: depender. O primeiro obstáculo não é o aeroporto nem o hospital, mas o idioma social da cidade, onde ninguém o trata como referência. Rory implica com filas, ironiza médicos, cobra atenção imediata. O humor brota do atrito entre a autoridade que ele supõe carregar e a indiferença ao redor. Só que isso custa caro: cada discussão drena a energia que ele precisa para lidar com o próprio corpo.

Convivência sem folga no apartamento de Ian

No apartamento do filho, a rota vira convivência sem folga. Ian resolve impor regras para o recém-nascido dormir e para a casa não desabar; a motivação aparece no cansaço que ele tenta disfarçar. Rory, por orgulho, decide testar limites: ocupa a cozinha, remexe objetos, comenta a cidade como quem avalia um adversário. O obstáculo é antigo, entre pai e filho, e cada choque pequeno aumenta o risco de a doença virar apenas mais um combustível para ressentimento.

Quando o neto entra na equação, Rory faz outra escolha: encostar. Aprende a segurar um corpo mínimo, aceita a lentidão do gesto, percebe detalhes que antes desprezava. Ian reage com desconfiança, como se o afeto fosse manobra tardia para retomar controle. O obstáculo passa a ser a confiança. E a consequência se vê: Rory pesa palavras, recua um passo, não por delicadeza, mas para não perder essa fresta recém-aberta.

Claudia e a cidade como respiro

Fora de casa, Rory decide caminhar pela cidade, mesmo com a saúde cobrando pedágio. É aí que surge Claudia, vivida por Rosanna Arquette, uma presença que não exige acerto de contas familiar. A motivação é direta: respirar sem ser vigiado. O obstáculo é o tempo curto, mais a culpa que ronda qualquer prazer. O efeito vem com contrapartida, porque cada encontro bom reforça a pergunta que ninguém põe em voz alta: o que ainda vale deixar para depois.

A cada consulta, a contagem recomeça. Rory assina papéis. Engole o orgulho. Reclama. Cala. Ri sem querer. Emily decide intervir quando a tensão encosta no bebê. Ian endurece quando se sente acuado. Rory some quando o apartamento vira sala de espera. O obstáculo muda de cara, mas não vai embora.

A adaptação de Sampedro e seus atalhos

O roteiro, inspirado no romance “La sonrisa etrusca”, de José Luis Sampedro, desloca a história para um choque entre periferia e metrópole, tradição e pragmatismo, sem transformar a viagem em cartão-postal. A escolha favorece a comédia, alimentada por inadequações concretas: o jeito de falar, de comer, de ocupar espaço. Também revela um risco: às vezes, o filme aproxima conflitos com pressa, como se boa vontade bastasse para desfazer décadas de silêncio.

A escolha do tratamento e o aperto do tempo

O momento mais apertado chega quando o tratamento pede uma decisão mais cara, e o drama toma o centro ou, melhor, expõe que sempre esteve ali. Rory precisa escolher entre prolongar o tempo e pagar um custo físico; Ian precisa decidir se acompanha esse caminho ou se se protege pela distância; Emily calcula o impacto imediato sobre a casa. O obstáculo é duplo: o corpo que limita e a família que não oferece descanso. A direção mantém o espectador colado às hesitações, esticando segundos em que ninguém fala e qualquer gesto pesa.

Depois dessa encruzilhada, a narrativa se prende às consequências imediatas, não a reconciliações completas. Uma conversa acontece aos pedaços, um acordo sai pela metade, uma gentileza volta com atraso. O filme entende que aproximação costuma vir pela logística: quem leva quem, quem espera, quem cede. Na imagem que encerra a história, o ruído da cidade fica distante e um bebê respira sem pressa; Rory ajusta o próprio tamanho ao espaço e escolhe, outra vez, o que dizer e o que calar.

Filme: Antes de Partir
Diretor: Oded Binnun e Mihal Brezis
Ano: 2018
Gênero: Comédia/Drama
Avaliação: 9/10 1 1
★★★★★★★★★